Darfur, o horror depois da esperança

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16 Agosto 2011

Hoje, a crise é mais grave do que nunca. Ataques terrestres e aéreos, e milhares de mortos em poucos meses. A situação humanitária já está em colapso. E a missão conjunta das Nações Unidas e da União Africana (UA) vive o seu fracasso na indiferença geral.

A análise é de Antonella Napoli, jornalista e presidente da organização Italians for Darfur, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 16-08-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Os ecos de sequestros, confrontos e de novas vítimas em Darfur trazem novamente à tona uma das mais graves crises humanitárias do mundo hoje. O sucesso de um projeto que havia restaurado uma "vida normal" a milhares de refugiados havia animado uma tênue esperança: algo na região sudanesa, martirizada por uma guerra civil iniciada em 2003, estava mudando. Um milhão de desalojados havia deixado os campos de refugiados, que os haviam acolhido depois da fuga dos combates e dos bombardeios, para voltar aos seus vilarejos de origem.

Agora, a notícia do sequestro de um voluntário da Emergency e de uma série de bombardeios e confrontos retomados em grande escala em todo o Sudão ocidental e meridional afastam essa esperança e frustram os esforços dos que trabalham para encontrar uma solução para essa crise humanitária agora em gangrena.

Há poucos meses, os líderes da missão conjunta ONU-UA, implantada na região sudanesa, tinham definido o conflito de "baixa intensidade", evidenciando que a guerra no Darfur era uma guerra de todos contra todos: as forças armadas do governo que entravam em choque com os movimentos rebeldes; grupos armados de bandidos e ladrões que lutavam entre si e contra as milícias pró-governo. Mas as vítimas civis haviam diminuído. Essas informação traçavam um quadro redimensionado da crise.

Mas quem estava em campo sabia que não era assim. Sobretudo por causa do agravamento da situação de emergência humanitária desencadeada pela decisão do regime de Khartoum de expulsar 13 organizações não governamentais acusadas de terem "inventado" as notícias fornecidas à Corte Penal Internacional, que havia emitido um mandado de prisão contra o presidente do Sudão, Omar Hassan al-Bashir, por crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio. A fracassada substituição dessas ONGs causou a interrupção do fluxo de ajudas e serviços para a população e aos desalojados por um longo tempo e levou a crise a muito próximo da catástrofe.

Como pudemos denunciar mais de uma vez, relatando as informações da Coordenadoria das Ajudas Humanitárias em Darfur das Nações Unidas, a situação humanitária já está em colapso. As condições de vida dos desalojados assistidos nos campos de refugiados pioraram notavelmente. O governo sudanês havia se comprometido a trazer novas organizações ao país, capazes de garantir as mesmas capacidades de ajuda das anteriores, mas até agora não honrou esse compromisso e, neste momento, só podem operar exclusivamente os cooperadores locais e outras poucas ONGs que não conseguem enfrentar as necessidades de toda a população desalojada.

De acordo com um recente relatório da ONU, a expulsão da Oxfam, Care Internacional, Médicos Sem Fronteiras e Save the Children levou à suspensão de programas especiais de alimentação destinados a milhares de crianças gravemente desnutridas e às mulheres em estado de gravidez, e também colocou em risco os cuidados sanitários e os abrigos para centenas de milhares de pessoas.

Se Khartoum e as Nações Unidas não conseguirem preencher logo essas lacunas, as condições de vida de 1,8 milhão de pessoas dependentes das ajudas alimentares se deteriorarão ainda mais. A situação se agrava dia após dia. Sucedem-se relatos de ataques, tanto na área a leste de Nyala, capital de Darfur do Sul, quanto no Norte, nos arrredores de Al Fasher.

Os operadores humanitários e os observadores da ONU não podem fornecer detalhes sobre o número exato de vítimas e sobre a extensão dos danos, porque lhes foi negado o acesso a essas áreas. E é precisamente esse aspecto que deve ser enfatizado: a comunidade internacional deveria exigir o fim das limitações no âmbito de movimento do contingente da ONU-UA desenvolvido no Sudão, que, além de garantir assistência, deveria proteger a população de Darfur com operações de manutenção da paz.

Mas, ao contrário, a partir do dia 1º de janeiro de 2008, data em que começou oficialmente a missão de paz da ONU, dos 26 homens previstos, chegaram a Al Fasher, centro do comando central da Unamid, menos de 13 mil militares – em sua maioria asiáticos e africanos – que se somaram aos 7 mil capacetes verdes da União Africana que, desde 2004, deveriam ter assegurado o controle da área em conflito – o que nunca foram capazes de garantir.

Os massacres continuaram. Atualmente, estimam-se (fonte: ONU) cerca de 300 mil mortos e quase 2 milhões de refugiados. Portanto, é claro que o contingente autorizado pela resolução aprovada por unanimidade pelo Palácio de Vidro em 2007 e que foi renovada no final de julho é uma paródia, uma farsa midiática que simplesmente viu os capacetes verdes da UA vestirem os capacetes azuis da ONU. A tudo isso, deve ser acrescentado que faltam os helicópteros indispensáveis para o patrulhamento da área em conflito, quatro vezes maior do que a Itália. Em suma, o fracasso dessa missão está se consumando na indiferença de todos, enquanto a atenção internacional é dirigida para outros lugares.

Nós, da Italians for Darfur, juntamente com outras organizações que fazem parte da coalizão internacional que leva adiante a campanha para o Sudão, apelamos muitas vezes à ONU para que assumisse, o mais rapidamente possível, decisões relativas à potencialização da missão, para que pudesse proteger efetivamente o povo de Darfur, que continua sendo alvo do fogo militar sudanês, que busca desmontar as operações dos rebeldes que ainda continuam opondo-se com as armas ao governo do presidente Omar Hassan al-Bashir. Mas até agora nada mudou.

Desde o início do conflito em fevereiro de 2003, o Conselho de Segurança repetidamente pediu que fossem detidos os ataques que todas as vezes fazem centenas de vítimas civis, mas nunca empreendeu uma iniciativa verdadeiramente significativa para impedir que esse massacre continuasse.

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