O grande desafio: não ter medo

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19 Junho 2020

Publicamos aqui o comentário de Enzo Bianchi, monge italiano fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 12º Domingo do Tempo Comum, 21 de junho de 2020 (Mateus 10,26-33). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Escutamos hoje uma parte do discurso que o Senhor Jesus dirige aos apóstolos ao enviá-los em missão (cf. Mt 10,5-42): são palavras inspiradoras e normativas para os cristãos de todos os tempos, chamados a testemunhar o Evangelho na companhia dos homens e mulheres.

Depois de prometer aos Doze a sua autoridade, graças à qual eles serão anunciadores confiáveis do Reino e realizarão ações de cuidado e de cura para com os enfermos, Jesus lhes anuncia as perseguições que deverão sofrer: “Eu vos envio como ovelhas para o meio de lobos. (...) Cuidado com as pessoas, pois vos entregarão aos tribunais e vos açoitarão nas suas sinagogas. Por minha causa, sereis levados diante de governadores e reis” (Mt 10,16-18; trad. Bíblia da CNBB).

Seguir Jesus significa estar totalmente envolvido com a sua vida, até participar da sua paixão, paixão do justo perseguido injustamente por aqueles que não suportam que ele faça o bem (cf. Sb 2). Se Jesus Cristo sofreu, não pode ser diferente para o cristão, porque “o discípulo não está acima do mestre” (Mt 10,24) e – são ainda palavras de Jesus – “se me perseguiram, perseguirão a vós também” (Jo 15,20). É uma realidade vivida pelos cristãos das primeiras gerações (cf. 1Pd 4,12-19) e ainda hoje, silenciosamente, por inúmeros cristãos em tantas partes do mundo...

Porém, Jesus não se limita a prospectar aos apóstolos a hostilidade violenta que eles terão de sofrer, mas os exorta repetidamente a não temer, a não ter medo e infunde sobre eles a parrhesia, aquela corajosa franqueza que nasce de uma fé sólida. Tal confiança repousa acima de tudo no poder da palavra do Senhor Jesus: o ensinamento que ele revelou aos seus, à parte, “em segredo”, é dotado da eficácia da palavra de Deus; é uma palavra que não pode ser acorrentada (cf. 2Tm 2,9) e, portanto, mais cedo ou mais tarde será revelada, manifestada, pregada sobre os telhados. A nós, é pedido apenas que não obstaculizemos a sua corrida (cf. 2Ts 3,1), ou seja, que sejamos seus anunciadores fiéis e confiáveis, custe o que custar, sem recuar nem assumir compromissos baseados em cálculos humanos...

É nesse sentido que Jesus encoraja a nós, seus discípulos, pedindo-nos que não temamos sequer ser mortos por sua causa: os homens poderão nos dar a morte, mas nunca poderão nos tirar a verdadeira vida, aquela que nos é dada pelo Pai. Assim, Jesus nos convida a permanecer firmemente naquele abandono confiante ao Pai, que foi a verdadeira força da sua vida, aquele abandono que, na iminência do seu fim, o levou a rezar: “Meu pai, não seja feito como eu quero, mas como tu queres” (Mt 26,39). E aqui ele o faz com palavras que não precisam de comentário, mas devem ser profundamente impressas no nosso coração: “Não se vendem dois pardais por algumas moedas? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai. (...) Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais”.

É a partir da consciência dessa nossa condição de filhos que pode nascer a confissão, o reconhecimento de Jesus como Senhor e Filho de Deus diante de todos os homens e mulheres. Um reconhecimento feito não apenas em palavras (cf. Mt 7,21), mas também com toda a nossa pessoa, mostrando com a nossa conduta de vida que vale a pena morrer e, portanto, viver para ela. No juízo final, de fato, ser-nos-ão pedidas as contas da nossa adesão a Jesus e do nosso amor por ele: mas esse juízo já começa hoje e depende da nossa capacidade de “renunciar a nós mesmos” (cf. Mt 16,24), de parar de considerar a nossa vida como medida de todas as coisas, para deixar, em vez disso, que Cristo viva em nós. Somente se nos exercitarmos para fazer isso poderemos verdadeiramente conhecer e amar o Senhor Jesus; caso contrário, acabaremos renegando-o diante dos homens (cf. Mt 26,69-75), e então ele também, diante do Pai, deverá admitir que nunca nos conheceu...

Sim, o mundo pode nos perseguir e desencadear contra nós a sua hostilidade, mas não pode ameaçar a nossa condição de cristãos, de pessoas que amam Jesus Cristo acima de tudo, porque sempre depende de nós, em todas as condições, viver com Cristo, viver o seu Evangelho: nada nem ninguém jamais poderá impedir isso, e aqui está a fonte da nossa extraordinária liberdade.

 

 

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