Deus não quer o mal

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04 Setembro 2015

Os milagres de Jesus são sinais do amor de Deus para com a humanidade. Deus não quer o mal nem o sofrimento. A sua vontade é libertar o homem das suas enfermidades.

A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras do 23º Domingo do Tempo Comum B (06 de setembro de 2015). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.

Eis o texto.

Referências bíblicas
1ª leitura: «Então, se abrirão os ouvidos dos surdos e a boca do mudo gritará de alegria» (Isaías 35,4-7)
Salmo: Sl 145(146) «Bendize, ó minha alma, ao Senhor. Bendirei ao Senhor toda a vida!»
2ª leitura: «Não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem herdeiros do Reino?» (Tiago 2,1-5)
Evangelho: «Aos surdos faz ouvir e aos mudos falar» (Marcos 7,31-37)

Deus, inimigo do nosso mal

Sabemos que os relatos dos milagres operados por Jesus têm a função de nos fazer compreender que Deus é inimigo de tudo o que nos faz mal, de tudo o que nos fere. Parece evidente isto, e, no entanto, ainda se ouvem pessoas que pretendem serem as nossas adversidades uma punição divina ou prova para a nossa fé. Escutemos antes São Tiago: "Ninguém deve dizer: "É Deus que me prova" (ou “me tenta”, pois, tentar e provar são praticamente sinônimos); pois Deus está ao abrigo das tentações e a ninguém prova (ou tenta). Antes, cada qual é provado pela própria concupiscência, que o arrasta e seduz." Que a nossa fé seja posta à prova por algo que nos afeta, isto é outra questão. Deus não está, portanto, de modo algum, no negativo das nossas vidas. Voltamos, assim, à primeira leitura: toda a ação de Deus nos liberta das nossas cegueiras, da nossa surdez, das nossas paralisias, da nossa incapacidade de comunicação. É notável que Isaías tivesse definido a revanche de Deus, a sua vingança, pela destruição do que nos é contrário. De novo, retornamos então à Páscoa do Cristo. A sua Páscoa representa para nós uma antecipação de nossa própria ressurreição; significa que ela se situa em nosso futuro: rumo a ela é que estamos indo. Notemos que, no texto de Isaías, os verbos estão no futuro. Nesta espera, as curas realizadas por Jesus não são uma solução para as nossas misérias, mas sinais do que nos espera e do que esperamos.

Somos todos surdos e mudos

Por que Marcos insiste tanto no fato de estar Jesus "atravessando a região da Decápole"? Sem dúvida, porque este território, situado além do Jordão e a Leste do Lago de Tiberíades, é um país pagão. Aliás, depois de ter deixado Genesaré, território judeu em que havia se defrontado com os escribas e fariseus, Jesus se dirigira para as cidades pagãs de Tiro e Sidônia (6,53-7). Marcos certamente nos quer fazer compreender que, depois de ter sido anunciada aos judeus, a mensagem evangélica dirá respeito também aos pagãos. No decorrer de toda a sua história, os profetas tinham censurado Israel por mostrar-se surdo às revelações feitas pela Palavra de Deus, e mudo para celebrar o seu louvor. Os pagãos não tinham feito melhor, como dirá Paulo no início da Carta aos Romanos, a partir de 1,18. Judeus e pagãos, portanto, estão enfeixados na mesma condenação, para que a graça seja distribuída para todos. Confirma-se assim o fato de que somente pela graça é que entramos na vida de Deus, e não em virtude de um mérito qualquer. E é justamente esta graça que as curas evangélicas anunciam. Mas, nos dias de hoje, quem são os "pagãos" representados em nosso texto pelos habitantes da Decápole? São todos estes que nos parecem os mais estranhos e estrangeiros, todos os que, vindo das periferias do mundo, nos causam medo… Cada um tem os seus pagãos, mas não esqueçamos que o Cristo vem libertá-los da sua surdez e do seu mutismo.

O ouvido e a língua

Jesus afastou-se com o enfermo para longe da multidão, pois para ela o que vai acontecer é ainda incompreensível. Trata-se de fato de uma profecia pascal, mas as pessoas só iriam ver uma manifestação de poder, algo prodigioso, a presença e a ação de alguém que, para eles, veio libertar Israel politicamente. Mostrando desprezo, portanto, para com a natureza do messianismo de Jesus. Marcos insiste particularmente neste "segredo messiânico". O que está em jogo é o sentido das respostas que Jesus deu às tentações iniciais. Temos de confessar que guardamos sempre algum ressentimento contra Deus, por não tomar o poder e estabelecer a justiça entre nós. A aparente ineficácia da ação de Deus deixa-nos secretamente desconcertados. Jesus procura manter ocultas as suas obras de poder porque os homens ainda não estão preparados para se tornarem discípulos de um Messias crucificado. Jesus põe os seus dedos nos ouvidos do surdo e toca a sua língua com os dedos umedecidos de saliva. Não fiquemos chocados: há aí uma imagem da Encarnação. Jesus, sem nenhum desgosto, vem de fato fazer-se um só com a raiz do nosso mal. O que chamamos de Encarnação não consiste apenas em assumir a "natureza humana", mas exige que Deus, em Cristo, venha compartilhar do que há de melhor e de pior em nossa condição, em nossas existências. Levantado na cruz, ele se tornará surdo e sem palavras; seremos aí libertados da nossa inaptidão para entender os outros e para nos comunicarmos com eles, a fim de constituirmo-nos a humanidade Una. E a notícia acabará por expandir-se pelo universo inteiro.

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