Ter sede de Deus (Jo 4,5-42)

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Por: André | 21 Março 2014

Proponho, esta semana, duas interpretações exegéticas do relato evangélico da samaritana, proporcionado por João.

A reflexão é de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 3º Domingo da Quaresma – Ciclo A do Ano Litúrgico. A tradução é de André Langer.

Eis o texto.

A partir do terceiro domingo da Quaresma do ano A, teremos uma catequese batismal proposta pelo evangelista João. Esta semana, como homilia, proponho essas duas interpretações exegéticas do relato evangélico da samaritana, proporcionado por João. Boa homilia.

A samaritana: Jo 4,5-42 (Catequese batismal)

Este relato da samaritana é um dos relatos evangélicos mais bonitos que temos como catequese de iniciação em vista de um batismo cristão. O melhor é ler a versão completa para compreender melhor as mensagens que emergem desse relato e que nos falam da transformação que se opera pelo encontro e o reconhecimento do Ressuscitado. Este encontro não é reservado a uma elite ou a pessoas virtuosas; pelo contrário, este encontro só é possível para aquelas e aqueles que têm sede: sede de justiça, sede de dignidade, sede de perdão, sede de paz, sede de amor, sede de Deus. Estes levam muitas vezes uma vida sofrida; os outros, os virtuosos e os perfeitos não têm, muitas vezes, sede de nada... Eles acreditam na bebida da sua própria fonte; e, além disso, eles estão prestes a morrer de sede.

Neste relato da samaritana, o evangelista João responde a duas perguntas importantes:

1. Quem pode tornar-se cristão ou cristã?

2. Como tornar-se cristão ou cristã?

Respondendo a estas duas perguntas, João explicita a identidade de Cristo para a fé cristã. Proponho duas interpretações possíveis deste relato:

Primeira interpretação:

1. Quem pode tornar-se cristão ou cristã?

Para responder a esta pergunta, é preciso saber quem é a samaritana do evangelho de João. Quem é ela? Quem ela representa? Conhecemos o conflito que existe entre os judeus e os samaritanos: conflito que remonta ao século VIII a.C., à época da invasão assíria no Reino do Norte, na Samaria, em 722, quando os judeus se misturam com os estrangeiros, os pagãos. A mistura de raça e de religião tornou todos os samaritanos suspeitos aos olhos dos judeus; de sorte que eles passaram a ter seu próprio lugar de culto, no monte Garizim, enquanto os judeus prestavam seu culto em Jerusalém. Os judeus e os samaritanos não se falavam. Os samaritanos eram considerados como bastardos pelos judeus.

E aqui, imagine, trata-se não simplesmente de um samaritano, mas de uma mulher samaritana... Trata-se, pois, de uma dupla exclusão, e, pior ainda, esta mulher da Samaria vai procurar água no poço de Jacó, ao meio dia, na hora mais quente do dia. Normalmente, é de manhã, muito cedo, que as mulheres fazem esse trabalho; portanto, se ela vai ao poço ao meio dia é porque ela não quer ser julgada pelos outros samaritanos... É, sem dúvida, porque ela vive uma outra exclusão na sua própria comunidade. Trata-se, pois, de uma tripla exclusão.

É a esta mulher rejeitada, excluída, condenada, que Jesus pede para beber... É a ela que ele oferece a possibilidade de encontrar o Cristo e de tornar-se testemunha da gratuidade da salvação oferecida, da água viva que mata todas as sedes.

Portanto, à pergunta: quem pode tornar-se cristão ou cristã?, a resposta é simples: todos os samaritanos do mundo que aceitam abrir-se ao diálogo com o estrangeiro, para que este assuma um outro rosto: o de Deus... A samaritana é cada um e cada uma de nós, com suas fragilidades, pobrezas, sedes, desejos e buscas de sentido na vida. Ninguém está excluído do evangelho se souber reconhecer a samaritana que dorme em cada uma e um de nós...

Há sete etapas no relato...

1) Ter o coração aberto ao diálogo com o estrangeiro. Acolher sua demanda, sua sede, sua necessidade: “Dá-me de beber” (Jo 4,7).

2) Descobrir no outro, no estrangeiro, alguém que pode matar a minha sede, responder à minha necessidade: “Se você conhecesse o dom de Deus, e quem lhe está pedindo de beber, você é que lhe pediria. E ele daria a você água viva” (Jo 4,10).

3) Descobrir o outro: o estrangeiro muda de figura: o judeu anônimo com quem não se fala, torna-se alguém que é talvez maior que os nossos pais a quem pertence este poço, a fonte da nossa fé: “Certamente não pretendes ser maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu este poço, e do qual ele bebeu junto com seus filhos e animais” (Jo 4,12). Quando esta tomada de consciência é feita, a samaritana lhe diz: Senhor, e ela lhe confia suas necessidades, falando-lhe da sua sede: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede, nem precise vir aqui para tirar” (Jo 4,15).

4) Não se esconder atrás dos seus ídolos, da sua religião: os cinco maridos da samaritana correspondem às cinco divindades pagãs dos samaritanos: “Você tem razão ao dizer que não tem marido. De fato, você teve cinco maridos. E o homem que você tem agora, não é seu marido. Nisso você falou a verdade” (Jo 4,18). Não se pode encerrar Deus numa religião ou num templo. Deus está no ser humano e podemos reconhecê-lo somente pelo coração, no espírito: “‘Os nossos pais adoraram neste monte, mas vós dizeis que em Jerusalém é que se deve adorar’. Disse-lhe Jesus: ‘Acredita-me, mulher: está chegando a hora em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis. Nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus. Mas está chegando a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. De fato, estes são os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade.’” (Jo 4,20-24). O homem descobre de repente o rosto do profeta que interpela e que convida à conversão: “Senhor, vejo que és profeta” (Jo 4,19).

5) Saber com a cabeça que o Messias deve vir e reconhecer com o coração o Cristo que está aí, no estrangeiro: “‘Sei que o Messias (que se chama Cristo) vai chegar. Quando ele vier,
vai nos fazer conhecer todas as coisas’. Disse-lhe Jesus: ‘Sou eu, que estou falando contigo’” (Jo 4,25-26). A samaritana encontra e reconhece Jesus.

6) Começa a missão. É o testemunho de fé. Deixamos tudo o que nos faz viver para anunciar a Boa Nova: “Então a mulher deixou o seu cântaro e foi à cidade, dizendo ao povo: ‘Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Será que ele não é o Cristo?’” (Jo 4,28-29).

7) Saber reconhecer o Salvador do mundo: o testemunho cristão jamais deve perder de vista que não é para o testemunho que as pessoas se dirigem, mas para aquele que tem o testemunho. Os samaritanos, que se tornaram cristãos, dizem à mulher: “‘Já não cremos por causa das tuas palavras, pois nós mesmos ouvimos e sabemos, que este é verdadeiramente o salvador do mundo’” (Jo 4,42).

Obs.: Aqui não faço menção aos discípulos porque eles são secundários no relato. Sabemos que na primeira missão cristã realizada pelos samaritanos, não eram os Doze que fundaram a Igreja da Samaria (At 8,4-6). Os Doze foram depois que “souberam que a Samaria acolhera a Palavra de Deus” (At 8,14). Portanto, eles têm um papel mais modesto e secundário, a quem Jesus diz: “‘Eu vos enviei para colher aquilo que não trabalhastes. Outros trabalharam e vós entrastes no trabalho deles’” (Jo 4,38).

Estas são as sete etapas do caminho da fé cristã apresentadas por João. Essas etapas nos fazem passar do encontro com um estrangeiro ao reconhecimento de Cristo, Messias e Salvador do mundo. Assim, a fé cristã não pode ser vivida em um ambiente fechado, numa Igreja particular. O exegeta francês, Édouard Cothenet escreve: “Enquanto a fé permanecer limitada aos horizontes familiares da raça e da cultura, ela não atinge seu pleno cumprimento. Só a abertura à universalidade do dom de Deus permite receber a água viva que jorra no coração dos crentes e os torna capazes, por sua vez, de testemunhar o Amor de Deus”. De sorte que, quando se diz verdadeiro fiel e quando atribuímos o título de incrédulos ou descrentes os outros, esta deficiência que imputamos a eles, é, sem dúvida, uma parte de nós mesmos que projetamos sobre o outro, para não ter que assumi-lo nós mesmos.

Segunda interpretação

1. Deus se faz solidário com a nossa humanidade sofrida e sedenta:

Por meio do Cristo do evangelho de João, Deus se faz solidário com a nossa humanidade. E por qualquer um! Nossa humanidade, naquilo que ela tem de mais sofrido. O evangelista João nos conta que Jesus entra numa cidade da Samaria, chamada Sicar (Jo 4,5), onde se encontra o poço de Jacó (Jo 4,6a), e, cansado da viagem, senta-se à beira do poço (Jo 4,6b), e João precisa que é meio dia (Jo 4,6c), e que se aproxima uma mulher da Samaria para pegar água (Jo 4,7a). Com poucas palavras, João nos mostra que Deus não julga e nem rejeita ninguém: uma mulher samaritana que vem para pegar água ao meio dia. Para Jesus, que é judeu, esta mulher tem três grandes carências:

1) Ela é mulher.
2) Ela é samaritana.
3) Ela é excluída das outras mulheres da Samaria. Ao vir ao meio dia para pegar água, na hora mais quente do dia, ela sabe que não encontrará outras mulheres e que assim não será julgada ou injuriada.

Portanto, é a ela que Jesus se dirige e manifesta sua sede de encontrá-la: “Dá-me de beber” (Jo 4,7b).

2. A acolhida e a abertura dos sofredores

À pergunta de Jesus, a mulher não se fechou em si mesma. Exprimindo sua estupefação, ela abre a porta para o encontro: “‘Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana?’” (Jo 4,9). Basta para que o encontro aconteça e o diálogo se estabeleça: “‘Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: Dá-me de beber, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva’” (Jo, 4,10).

3. As três etapas da fé cristã

O exegeta francês Hyacinthe Vulliez escreve: “Até a escuta da Boa Nova, o caminho da fé é longo, tortuoso, repleto de obstáculos, galhos e troncos que é preciso contornar por cima ou por baixo para se aproximar da verdade de Deus. A conversão se dá em três tempos. Ambos falam primeiramente da água, depois do marido e, para terminar, do santuário”. Esta mulher se liberta pouco a pouco de seus preconceitos raciais, políticos e religiosos para mudar seu olhar sobre aquele que casualmente acaba de encontrar, para descobrir sucessivamente no judeu que é Jesus um homem, um profeta e o Messias.

1) O homem: Jesus tem sede e pede-lhe de beber. Um pouco mais adiante, a mulher dirá aos seus compatriotas: “Vinde ver um homem...” (Jo 4,29a). Ela não diz um judeu ou um negro, mas um homem. E este homem ela já o chama de Senhor. “A mulher disse a Jesus: ‘Senhor, nem sequer tens balde e o poço é fundo. (O Antigo Testamento caducou) De onde vais tirar a água viva?’” (Jo 4,11). Nesse homem ela já reconhece Deus: “‘Por acaso, és maior que nosso pai Jacó, que nos deu o poço e que dele bebeu, como também seus filhos e seus animais?’ (Jo 4,12). À resposta de Jesus: ‘”Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. Mas quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna.’” (Jo 4,13-14), a samaritana expressa seu desejo de crer: “‘Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la.’” (Jo 4,15).

2) O profeta: ao fazê-la dizer a Jesus que a samaritana teve cinco maridos, o evangelista Lucas faz referência aos cinco deuses dos samaritanos, de que fala 2 Rs 17,29-41. O que significa que esta mulher é representante do seu povo que, aos olhos dos judeus, é um povo idólatra. À observação de Jesus, a samaritana dá um segundo passo na fé cristã; ela reconheceu em Jesus o profeta: “‘Senhor, vejo que és um profeta! Então, explique-me...’” (Jo 4,19). E aí aparece a questão da religião e do templo. No fundo, a questão que é colocada é a seguinte: qual é a verdadeira religião? A dos judeus ou aquela dos samaritanos? A dos católicos ou a dos protestantes ou das outras confissões? É verdade, diz João, que a salvação vem dos judeus (Jo 4,22): “‘Mas está chegando a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. De fato, estes são os adoradores que o Pai procura’” (Jo 4,23). Há uma mensagem nisso: as religiões não expressam a fé; a fé situa-se num outro nível e a história nos ensina que as religiões podem inclusive impedir a fé de se expressar e elas tornam-se muitas vezes causa de divisões e de exclusões.

3) O Messias: “A mulher disse a Jesus: ‘Sei que o Messias (que se chama Cristo) vai chegar. Quando ele vier, vai nos fazer conhecer todas as coisas.’” (Jo 4,25). À resposta de Jesus: “‘Sou eu, que estou falando contigo’” (Jo 4,26), a samaritana faz sua profissão de fé, largando, em primeiro lugar o balde (do qual ela já não tem mais necessidade), para testemunhar sua fé às pessoas que antes fugiam dela (Jo 4,28): “‘Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Será que ele não é o Cristo?’” (Jo 4,29).

A samaritana, com sua vida sofrida, é transformada por seu encontro com o Ressuscitado; de sorte que ela pode agora integrar novamente seu povo, sem ser rejeitada pelos seus. O que significa que a fé cura todas as nossas feridas e devolve-nos a dignidade humana. Assim, pelo testemunho da nossa fé, interpelamos os outros a desejar encontrar aquele que nos transformou: “Muitos samaritanos daquela cidade abraçaram a fé em Jesus, por causa da palavra da mulher que testemunhava: ‘Ele me disse tudo o que eu fiz’” (Jo 4,39). Por outro lado, após ter levado alguns a Jesus Cristo, não é mais o testemunho do fiel que nos faz aderir à fé, mas o encontro e o reconhecimento do Ressuscitado: “Por isso, os samaritanos vieram ao encontro de Jesus e pediram que permanecesse com eles. Jesus permaneceu aí dois dias.” (Jo 4,40). E aí a transformação se faz pelo próprio Jesus Cristo: “E disseram à mulher: ‘Já não cremos por causa das tuas palavras, pois nós mesmos ouvimos e sabemos, que este é verdadeiramente o salvador do mundo’” (Jo 4,42).

Concluindo, para mostrar que a fé nos reintegra na comunidade, gostaria de citar esse belo comentário de Santo Agostinho, que dizia: “Meu alimento, diz ele, é fazer a vontade daquele que me enviou. Sua bebida era, pois, assim como a desta mulher, fazer a vontade daquele que a enviou. Se ele lhe disse: tenho sede, dá-me de beber, era para produzir nela a fé, para beber sua fé e vinculá-la ao seu próprio corpo, porque seu corpo é a Igreja”.

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