“Nós dormimos para poder aprender”. Entrevista com Giulio Tononi

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04 Mai 2017

Uma das principais hipóteses que norteia os trabalhos de Giulio Tononi chama-se “homeostase sináptica”, que descreve o modo como a força sináptica das conexões cerebrais aumenta durante a vigília e diminui quando os seres humanos dormem. Com efeito, ao estarem acordadas, as pessoas acumulam uma enorme bagagem de informações desnecessárias, que é descartada à noite, mediante um sistema inteligente que impede a saturação da rede cerebral e permite liberar espaço para continuar a aprender e funcionar normalmente no dia seguinte. Isto poderia funcionar para criar um equilíbrio em relação à função do sono e habilitaria o desenvolvimento de perspectivas inovadoras em relação ao diagnóstico e o tratamento de transtornos psiquiátricos.

Tononi nasceu em Trento, formou-se como médico psiquiatra e especializou-se em neurobiologia na Escola de Estudos Avançados de Sant’Anna, em Pisa (Itália). Atualmente, dirige o Centro do Sono e da Consciência na Universidade de Wisconsin-Madison (Estados Unidos), uma referência imprescindível na temática. Ele acaba de receber um Doutorado Honoris Causa pela Universidade Nacional de San Martín, onde deu uma série de conferências gratuitas que giraram em torno daquilo de que mais gosta: o sono e suas relações com os estados de consciência.

A entrevista é de Pablo Esteban, publicada por Página/12, 03-05-2017. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Por que você estudou psiquiatria?

Decidi isso muito jovem. Eu me interessava muito pela ética e isso me levou a estudar a consciência. Então, embora gostasse de diversas áreas do conhecimento, como física, matemática e ciências da computação, finalmente, para o bem ou para o mal, decidi cursar Medicina. No entanto, devo admitir que não foi fácil, porque precisava me concentrar muitíssimo e renunciava a outras atividades de que também gostava. Mais tarde, quando tudo esteve mais encaminhado, escolhi psiquiatria, porque atualizava os meus conhecimentos de modo contínuo a partir do contato diário e direto com os pacientes.

Você é diretor do Centro do Sono e da Consciência na Universidade de Wisconsin-Madison. Como ambos os campos se vinculam?

A consciência pode ser definida como aquilo que desaparece quando as pessoas dormem e volta quando sonham. Algo similar ao que acontece quando um indivíduo recebe uma forte pancada na cabeça. O que acontece em ambos os casos é que, ao perder a consciência, a possibilidade de conhecer o entorno e de refletir sobre os próprios atos e pensamentos se resigna. Em suma, perde-se absolutamente tudo.

O que acontece com o cérebro das pessoas quando dormem?

O ato de dormir constitui o único momento em que as pessoas podem estar conscientes ou inconscientes. Algumas vezes, os indivíduos podem estar conscientes e sonhar, mas em outras ocasiões, não.

E como se pode saber isso?

Durante muito tempo, acreditou-se que as etapas REM (Rapid Eye Movement, que indica “movimentos rápidos dos olhos”) e não REM (sono lento) eram adequadas para classificar e compreender o que acontecia durante o sono. Tratava-se de fases que se alternavam de forma cíclica enquanto os sujeitos dormiam, de modo que enquanto a primeira se identificava com uma atividade cerebral mais dinâmica que habilitava a capacidade de sonhar, a segunda era descrita como “mais profunda” e favorecia a reparação dos tecidos e dos órgãos. Acreditava-se que o movimento dos olhos podia funcionar como uma variável capaz de indicar que as pessoas estavam sonhando. No entanto, hoje, sabe-se que isso não é verdade e que, em vez disso, constituía um mito científico baseado em um conhecimento que no século XXI foi revisto.

Em que sentido foi revisto?

Agora é possível comprovar de que maneira as pessoas contam com a possibilidade de sonhar na fase do sonho não REM, do mesmo modo que poderiam não sonhar apesar de se encontrarem na etapa REM. Isso acontece porque o cérebro se configura como uma trama complexa que realiza diversas ações, desprovido de tantos esquemas.

Como continuou seu estudo?

Descobrimos que existe uma área no córtex cerebral que parece ser central para determinar quando as pessoas sonham e quando não. De modo que, com o objetivo de examinar o que acontecia, fizemos exames com pessoas que dormiam e depois as acordávamos. Com base nos dados que extraímos do encefalograma, pudemos comprovar que esta região do cérebro podia funcionar como uma prova fidedigna do comportamento da consciência no sono, embora também notássemos que ela funcionava quando os sujeitos estavam acordados.

Como comprovaram que as pessoas sonhavam se muitas vezes os seres humanos sonham, mas não conseguem expressá-lo?

As pessoas que participaram dos nossos experimentos estão muito treinadas, já que realizaram a experiência em muitas ocasiões. Elas se deitavam para dormir em quartos que adaptamos e, após 10 segundos depois de soar o alarme e acordar, deviam pensar no que tinham sonhado e responder a um questionário que já conheciam de antemão. É um sistema muito confiável do ponto de vista experimental.

E a que resultados chegaram?

Entre outras coisas, conseguimos ver que um terço das pessoas sabe que sonha, mas não consegue lembrar o que, outro terço se lembra do que sonhou e pode dizê-lo, e o restante não conseguia dizê-lo nem se lembrar de nada.

Nesta linha, que tipo de perguntas faziam?

Por exemplo, se o sonho continha um rosto, se era em um lugar fechado ou ao ar livre, se o sujeito participava ou não de uma conversa. A resposta das pessoas pode ser comprovada quando checamos sua atividade cerebral no encefalograma durante os últimos 20 segundos, já que se acendem diversas regiões do cérebro. No caso de sonhar com um rosto, por exemplo, o giro fusiforme é ativado.

Quer dizer que não só é possível saber se as pessoas sonham ou não, mas também podem observar alguma característica desse sonho...

Exatamente. E não trabalhamos apenas com humanos; usamos uma grande variedade de técnicas. Entre elas, a genômica e proteômica em modelos de mosca da fruta, modelos de registro elétrico da atividade cerebral em animais, voltametria ao vivo e microscopia eletroencefalografia de alta densidade, e modelos informáticos em grande escala de sono e vigília.

Compreendo, cada metodologia terá suas especificidades e variáveis. Por último, se tivesse que sintetizar tudo isso de alguma maneira, por que as pessoas dormem?

Isso foi desenvolvido muito bem por minha companheira Chiara Cirelli, que centrou sua atenção nas funções do sono. Existem múltiplas ideias que explicariam por que dormimos. Do ponto de vista evolutivo, poder-se-ia dizer que o fazemos para não entrar em problemas e evitar perigos, assim como conservar energias para o dia seguinte.

Em uma entrevista, você assinalou que “dormir é o preço pagamos para aprender”. O que pode dizer a este respeito?

Durante o dia introduzimos uma grande quantidade de informações no cérebro e quando chega a noite contamos com uma grande quantidade de dados que inundam a nossa cabeça. Para poder aprender da maneira como o fazemos, necessitamos de conexões neuronais cada vez mais fortes e de certo equilíbrio. Daí a hipótese da homeostase sináptica, que explica como o dormir se constitui como um momento perfeito para conhecer que parte da informação que aprendemos é importante e qual parte é descartável. Nesse lapso de tempo, nos desconectamos dos estímulos do entorno e somos livres por um momento.

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