O ''não'' da mulher dos Cânticos ao rei Salomão

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30 Agosto 2012

Na Bíblia, há um livro que fala de amor. É o mais curto dos textos sagrados. Ele figura entre os ketüvîm ("escritos"). O seu título: Cântico dos Cânticos. Por séculos, sobre ele, as interpretações se acumularam. E ainda continuam.

A reportagem é de Armando Torno, publicada no jornal Corriere della Sera, 28-08-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A tradição judaica o entendeu como uma representação alegórica da história de Israel. A cristã, ainda nos primeiros séculos com os Padres, viu nele a metáfora da paixão que une Cristo à Igreja. O escritor, mais simplesmente, deseja lembrar o amor que se percebe em cada uma de suas páginas. Um amor não consumado. Os sentidos excitados, em vez de procurar descanso no gozo, interrogam a fé.

A leitura se deve a Gianantonio Borgonovo, biblista e doutor da Ambrosiana. Da sua obra, que teve uma parcial publicação em Maschio e femmina li creò (Ed. Glossa, 2008), reportamos o esquema, porque a escavação filológica no texto hebraico ainda está em andamento. Diremos, acima de tudo, que nessa leitura do Cântico não se assiste ao simples encontro da noiva e do noivo, como muitas vezes relatam algumas traduções da Bíblia, mas estamos diante de um libreto de ópera (Orígenes já o intuíra).

Exatamente uma trama lírica ele não é, mas se assemelha. Ele tem um início surpreendente, entrecruzado com frases separadas, que parece uma dança. A história pode ser resumida assim: entra em cena uma mulher que se apresenta ao Rei (a Salomão, que tem um harém de 700 mulheres e 300 concubinas) para o casamento daquele dia. No momento em que deveria se deitar com ele na alcova, ela foge.

São sete os personagens no Cântico que giram em torno desse amor que permanece no vento e não consegue tocar os corpos. Há ela, a protagonista. Quem é? Talvez uma vinhateira vendida ao harém, ou uma jovem do campo capturada pelos guardas do Rei. Com uma gravidez, as suas vantagens se multiplicariam, mas ela renuncia.

Depois, há as mulheres do harém: elas a invejam e não lhes falta um certo desprezo, já que ela se nega ao Rei e continua pensando no seu amado. E é justamente o amado o terceiro personagem: ausente no drama, vive apenas na recordação, fala com a boca da amada e aparece em cena apenas no fim, pedindo fidelidade.

O quarto é Salomão, de perfil faraônico. Chega para o casamento daquele dia e, logo que vê a jovem, ele se apaixona cegamente. Também não falta o servente do harém: é o quinto personagem do hipotético libreto, que tem a tarefa de preparar a jovem (em Ester 2,12 lê-se que essa prática durava um ano).

Sexto: os guardas do Rei, sentinelas que anunciam ou reprimem; no versículo 5,7 do Cântico, batem na protagonista. Sétimo e último: os irmãos da jovem. Eles têm a intenção de ganhar o máximo possível do dote nupcial da irmã. No capítulo 8, leem-se também os correspondentes valores desejados.

Borgonovo acrescenta: "O único gênero literário que se assemelha ao Cântico é a poesia de amor amarniana, que se desenvolveu entre 1350 e 1280 antes de nossa era, e foi uma ilha fechada na tradição poética egípcia".

À base desse libreto, que se tornará escrita no período helênico sob a pressão da magnífica literatura grega, valeria a pena acrescentar que o Cântico está na origem da própria fé de Israel e – observa Borgonovo – "para falar de monoteísmo ou de monolatria não se encontrou melhor experiência do que a paixão e o ciúme de uma mulher pelo seu amado, bem expressado pelo cântico do amor invencível que a jovem eleva no fim". A referência é aos versículos 8, 6-7, onde se leem também as célebre palavras: "O amor é forte, é como a morte!".

O selo mencionado em 8,6 é posto "em seu braço", mas talvez seja algo mais. O vocábulo hebraico zr', ou seja, zéra ou zeróa, pode ser entendido tanto como "semente" quanto como "braço": se escolhermos a primeira hipótese, então a jovem pede ao seu amado para ser-lhe fiel totalmente, partindo da substância que transmite a vida.

Um dos máximos expoentes do judaísmo rabínico, Aquiba, que viveu no século II da nossa era, escreveu que "o mundo inteiro não é digno do dia em que o Cântico foi dado a Israel" (Misnah, Jadayim 3,5). E aquela jovem, que não se concede a Salomão, é o seu verdadeiro símbolo.

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