Araguaia convive com as agruras da erosão

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22 Agosto 2012

Às margens do rio Araguaia, no município de Aruanã (GO), o vazanteiro Manoel Fernandes planta mandioca, cana, milho e pimenta toda vez que as águas começam a subir, na estação chuvosa. Irrigados naturalmente pela vazão fluvial, os cultivos se desenvolvem e favorecem uma colheita farta. Mas neste ano a situação mudou. "O rio não subiu como esperávamos e perdemos a produção", lamenta o lavrador, que se viu obrigado a trabalhar como diarista na construção civil para ganhar os dois salários mínimos que normalmente recebe na lavoura.

A reportagem é de Sergio Adeodato e publicada pelo jornal Valor, 21-08-2012.

A tradicional atividade dos vazanteiros está em extinção em decorrência das mudanças no clima e dos impactos ambientais ao longo do Araguaia - condição que piora diante dos conflitos de terra após a criação da Reserva Extrativista Lago do Cedro, há seis anos, somando 17 mil hectares que ainda não tiveram a situação fundiária regularizada. Sem receber o pagamento do governo pela desapropriação, os fazendeiros proíbem o acesso das comunidades para a captura de peixes nos 84 lagos da reserva e impedem a extração de baru, amêndoa típica do Cerrado, fonte complementar de renda das famílias.

Na estiagem, entre maio e agosto, bancos de areia que a cada ano aumentam de tamanho e se formam em maior número naquelas águas nutrem a diversão de turistas, que montam no local "ranchos" para pescar. Essas confortáveis estruturas temporárias de chalés e restaurante, desmontadas quando o rio volta a encher, geram renda para pescadores que abandonaram práticas tradicionais para servir como guia na pesca esportiva.

O excesso de areia, no entanto, sinaliza algo de errado na nascente do Araguaia, no entorno do Parque Nacional das Emas, na região de Mineiros (GO). O lugar é intensamente ocupado por cultivos de soja, algodão e milho. Aviões em voos rasantes dispersam agrotóxicos que infiltram no solo. Olhos d'água expostos em áreas desmatadas para pastagens foram cercados para evitar o acesso do gado, mas a maioria não tem proteção. Na ausência da mata, a chuva que escorre sem penetrar no solo carrega a terra, formando grandes erosões - as voçorocas.

No município de Caiapônia (GO), o problema atinge com gravidade o Assentamento Cachoeira Bonita, instalado em área degradada pelas antigas atividades produtivas. "Erosões gigantes sugam a água que servia à agricultura", afirma o engenheiro agrônomo Agostinho Didonet, da Embrapa, instituição que auxilia pequenos produtores a fazer intervenções para conter os buracos que se abrem na terra.

A principal voçoroca ocupa uma área igual a um campo de futebol na propriedade de 20 hectares. No entorno, os técnicos orientaram a comunidade para métodos sustentáveis de uso do solo, implantação de curvas de nível, além de terraplanagem, redução do gado e reflorestamento com mudas de espécies nativas. A produção de leite foi substituída por cultivo de frutas, como ingá e cajuzinho-do-Cerrado, em sistemas agroecológicos. Em cinco anos, a renda mensal pulou de um para quatro salários mínimos.

"Como resultado, freamos o êxodo rural, pois os produtores já planejavam abandonar o assentamento", conta Didonet, informando que a expansão da cana-de-açucar empurra lavradores para áreas de solo inadequado ou para a periferia das cidades. Outras três voçorocas de grande porte, hoje frequentadas pelo gado que busca a água acumulada no fundo do buraco, começam a ser recuperadas. A tecnologia será replicada em outras regiões de nascentes, restaurando a produção agrícola em assentamentos condenados pela erosão.

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