Cavar o próprio poço. Artigo de Henri Madelin

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08 Mai 2012

Cada um é convidado a descer ao próprio poço, para perceber melhor as "urgências internas". No início, a água que flui do poço pode ser barrenta, mas pouco a pouco se torna límpida se perseverarmos na nossa busca laboriosa.

A reflexão é do teólogo jesuíta francês Henri Madelin, membro do Serviço Jesuíta Europeu e ex-presidente do Centre Sèvres, de Paris. O artigo foi publicado no jornal La Croix, 05-04-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

"Há em mim um poço muito profundo. E nesse poço está Deus Às vezes, eu consigo alcançá-lo. Mas, na maior parte das vezes, pedras e detritos obstruem o poço, e Deus está sepultado nele. É preciso, então, trazê-lo novamente à luz". No dia 26 de agosto de 1941, nessa forma original, Etty Hillesum expressa em seu diário a descoberta de Deus por ela vivida nesse período.

Essa maneira de vigiar para que Deus não se apague dentro dela e nos outros, essa capacidade de cantar a beleza do mundo e de acreditar no homem, apesar das angústias e das tristezas desses momentos, continuarão e se aprofundarão nos dois anos seguintes, até o fim de uma vida chamada a ser engolida, jovem, no anonimato de Auschwitz.

"Cavar o próprio poço" também era o ambicioso objetivo que Christian de Chergé, prior do mosteiro de Tibhirine, no Atlas argelino, havia se colocado. Ele o compartilhava com Mohammed, o vizinho muçulmano. Christian Salenson falou sobre a amizade dos dois em Prier 15 jours avec (Rezar 15 dias com). Eles diziam entre si, sorrindo, que a água que jazia no fundo do seu poço comum não era nem cristã, nem muçulmana, mas sim "a água de Deus".

O poço, o sabemos, ocupa um lugar importante na Bíblia. Por causa da inveja dos irmãos, José foi jogado em um poço. Saiu vivo e capaz de perdoar os seus do mais profundo do coração. Em volta de um poço ocorreram encontros de amor. Foi ali que Isaac e Rebeca, Jacó e Raquel uniram os seus destinos. Um rosário de poços cavados no deserto, circundados por oásis, pontos firmes para novas alianças, moldou a história dos Patriarcas. Uma história que se apresenta como um casamento maravilhoso entre a humanidade fecunda e a permanência da solicitude de Deus.

O poço sempre é um lugar de encontro, ocasião de retorno sobre si mesmo, descoberta do autor da vida, que é à imagem da água que sacia. Em sentido oposto, segundo Jeremias (2, 13), abandonar Deus é como "cavar poços, poços rachados que não seguram a água".

Na região da Samaria, Jesus está sentado à beira do poço de Jacó. Ele está cansado por causa do longo caminho. Estamos no calor do meio-dia, quando o sol está a pino, e a sombra desaparece em toda parte. Neste lugar repleto de história, Jesus inicia uma conversa com uma samaritana. Esse diálogo a transformará. Ela logo observa que "o poço é profundo". Profundo não só porque ele é testemunha de uma longa história, mas também porque a vida da mulher remete às escuras profundezas de um coração humano. Mas ela descobrirá que o dom de Deus é ainda mais profundo.

É preciso ir buscar a água do poço todos os dias, se se quiser permanecer vivo. Mas a água que Deus dá não deixa de jorrar. A experiência revelada aqui é a da passagem da necessidade ao desejo. A satisfação das necessidades é óbvia, mas não pode ser o horizonte final de uma vida humana.

Comer, beber, dormir, consumir, ninguém pode abrir mão desses atos da vida cotidiana dos quais fala a samaritana. Mas o ser humano não pode se voltar para essa busca muito breve e, portanto, muito frustrante para ele. O ser humano está, ao mesmo tempo, em busca de satisfação das suas necessidades, um ser de desejo dos outros, do Outro. "O homem não vive somente de pão".

Como indica Denis Vasse em Le temps du désir, "no ser humano, a necessidade nunca é pura necessidade. A necessidade do homem traz o sinal do espírito, isto é, do desejo do outro que encontra a sua origem na necessidade do outro, mas que não é redutível a isso. Desejar o outro, de fato, é querê-lo por aquilo que ele é e que não sou eu. Por consequência, é renunciar a fazer dele o objeto da minha necessidade, renunciar a reduzi-lo".

"Todo aquele que beber desta água terá sede de novo", já que a necessidade é repetitiva. "Mas todo aquele que beber da água que eu vou dar, nunca mais terá sede". Os outros não são redutíveis à minha necessidade. É no ápice do desejo que se pode alcançar a Deus, esse Outro por excelência que não é um ídolo, que se doa, mas que não se consome segundo os nossos desejos e as nossas expectativas.

Hoje, como frequentemente sublinha Bento XVI, "o horizonte de Deus" parece desaparecer pouco a pouco da cultura europeia. Isso não significa que ele não esteja mais presente na nossa atualidade. Isso significa, ao invés, que devemos cavar o nosso poço pessoal em uma maior profundidade. O lençol freático não está seco, mas é preciso descer para níveis mais baixos para reencontrá-lo, para fazê-lo fluir, a fim de deixar escorrer em si o murmuro da palavra de Deus, para perscrutar o que acontece no fundo de nós mesmos, para poder convocar outras pessoas a alcançar a Cristo sentado à beira desse poço enigmático.

Cada um é convidado a descer ao próprio poço, para perceber melhor as "urgências internas" das quais Etty Hillesum fala. No início, a água que flui do poço pode ser barrenta, mas pouco a pouco se torna límpida se perseverarmos na nossa busca laboriosa.

Descer em si mesmo para buscar ali a água que responde às nossas necessidades significa, ao mesmo tempo, ser estimulados pelo desejo daquela água viva que Jesus promete à samaritana. Essa promessa, mesmo para nós, é graça e vida duradoura que só o Senhor pode dar em abundância. Chegar a essa fonte significa ter sede do Deus vivo, como canta o salmista, significa ser habitados por um grande desejo, significa abrir as nossas mãos vazias para receber o Senhor quando ele quiser e sem nunca possuí-lo como objeto de consumo.

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