A nossa vergonha. Artigo de Adriano Prosperi

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20 Dezembro 2013

Na Europa, os imigrantes são submetidos a um tratamento que desumaniza, degrada, que automaticamente leva a uma queda do nível da humanidade comum ao de coisa. A humanidade defeituosa do imigrante corre o risco de aparecer a nós, de fato, como a de um animal perigoso, portador de doenças.

A opinião é de historiador italiano Adriano Prosperi, professor da Universidade de Pisa e membro da Accademia Nazionale dei Lincei, a principal academia científica da Itália. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 18-12-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O celular de Khalid capturou e pôs em circulação a cena daquilo que acontece há dias, habitualmente, no centro de acolhida de Lampedusa, na Itália. Todos nós vimos isso, não temos desculpas. Vimos como, todos os dias, dezenas de homens nus são submetidos ao jato d'água de uma bomba a motor, ao ar livre, sob o céu da ilha. Trata-se, dizem, de uma prática necessária para desinfectar aqueles corpos. Para combater particularmente o perigo de uma epidemia de sarna.

Está certo desinfectar, tratar, garantir a saúde – a nossa, porque é para isso que se faz aquilo. Além disso, alguns ainda se lembram, neste nosso país que foi, não antigamente, o país de uma emigração italiana de proporções bíblicas, do que acontecia na visita de entrada nos EUA, quando, em Ellis Island, os nossos antepassados tinham que se submeter a rudes e elementares exames físicos destinados a descobrir as eventuais doenças das quais eles eram portadores.

Mas eles não eram submetidos a essa prática brutal de se despir em público para se submeter a um tratamento que desumaniza, degrada, automaticamente leva a uma queda do nível da humanidade comum ao de coisa. Porque uma coisa é clara: não há nenhuma razão para que a desinfecção deva ser feita assim, coletivamente e ao ar livre.

Despir publicamente um ser humano significa tirar-lhe aquela defesa elementar, aquele sinal de humanidade que consiste em se cobrir, em proteger a própria nudez. Os seres humanos se distinguem dos animais porque se cobrem instintivamente. Diz a Bíblia que Adão e Eva, quando deixaram o Éden, descobriram a sua humanidade com o sentimento de vergonha pelo corpo nu. Portanto, a pergunta que vem à mente espontaneamente é sempre aquela formulada por Primo Levi: digam-nos, vocês que estão protegidos nas suas casas quentes, se são homens esses seres nus no dezembro que já parece Natal, expostos ao jato d'água que a bomba descarrega sobre os seus corpos.

E, como a resposta é sim, nem pode ser diferente, é preciso passar para outra pergunta: devemos nos perguntar quem somos nós, solidamente responsáveis por essa redução a gado da humanidade que desembarca em Lampedusa com o risco da vida e que espera encontrar da nossa parte, se não as imagens de ouro transmitidas pela televisão, ao menos não tal nível de desumanidade.

Giusi Nicolini, a ótima prefeita de Lampedusa, respondeu por todos nós: essas imagens lembram os campos de concentração. Nos campos, não havia celulares. Hoje, esse instrumento nos tira o último álibi: a defesa do não ver, do não saber.

Mas se esse é um escândalo, é preciso reconhecer que os escândalos são necessários, porque, sem eles, não conseguimos mais abrir os olhos. E esperamos que também desta vez tudo não se reduza a uma emoção epidérmica e que amanhã não nos encontremos novamente diante da mistura habitual de provocações "leguistas" [da Liga Italiana] e de políticas feitas por palavras tão benevolentes quanto vãs, de intenções nunca seguidas pelos fatos.

Até agora, nem mesmo a escalada daqueles afogamentos de massa que fizeram do Mar da Sicília um imenso cemitério marinho foi suficiente para mudar as coisas. O episódio de Lampedusa, teatro ao ar livre daquilo que a Itália – mas também, atrás dela, a Europa inteira – sabe oferecer àqueles que tentam atravessar os seus limiares, deve ser, uma vez, a sacudida final que, de uma vez por todas, leve a endireitar o lenho torto dos direitos, assim como são entendidos e praticados por nós.

Devemos reconhecer que esse é apenas mais um episódio de um sistema que assumiu a forma de lei, se enraizou nos costumes e nas instituições: com o resultado de que a humanidade defeituosa do imigrante corre o risco de aparecer a nós, de fato, como a de um animal perigoso, portador de doenças: e isso porque, cada vez mais decididamente, criaram-se entre nós as premissas de uma discriminação no campo dos direitos primários que fez com que a Itália deslizasse cada vez mais no desfiladeiro de um racismo tão mais real quanto menos confessado.

É hora de que as conversinhas "bonistas", a exibição das boas intenções, os remédios da caridade cedam lugar a medidas de lei que, reconhecendo dignidade e direitos aos imigrantes, restituam também a todos nós a possibilidade de não termos que nos envergonhar todos os dias.

O dossiê dos direitos civis deve ser reaberto imediatamente. Não podemos mais adiar a reforma da lei Bossi-Fini, porque, mantendo-a, continuaremos mantendo vivo um sistema de disparidade da população da península italiana no campo dos direitos fundamentais do homem e do cidadão que fez regredir todo o país e alterou até mesmo a sua linguagem: pense-se no significado que assumiu hoje a palavra "acolhida" em um país como o nosso que, com todos os seus defeitos, era conhecido antigamente ao menos por essa virtude especial dos seus habitantes.

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