Jean Kammerer e o pavilhão de sacerdotes no campo de Dachau. Um admirável exemplo de espiritualidade e secularidade

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Por: André | 08 Agosto 2013

A justiça com os sacerdotes mais idosos me move a recordar o francês Jean Kammerer, presbítero diocesano que sobreviveu no campo de concentração de Dachau e que exerceu seu ministério como articulação de presidência, liturgia, palavra e secularidade a partir da primazia destas duas últimas dimensões: “Ide pelo mundo e anunciai a Boa Nova” de um Deus que resgatou o Crucificado das garras da morte e que, a partir de então, se torna presente, de maneira particular, nos crucificados deste mundo e de todos os tempos (Cf. Mc 16, 15). Estejam presentes “no mundo” sem vos confundirdes com ele; sendo, ao mesmo tempo, carícia para os crucificados e aguilhão para os verdugos (Cf. Jo 17, 14-15).

 
Fonte: http://bit.ly/15NNIzX  

A reportagem é de Jesús Martínez Gordo, e publicada no blog espanhol Foro de Curas de Bizkaya, 04-08-2013. A tradução é de André Langer.

Uma recordação deste estilo (evidentemente, agradecido) é particularmente necessária em um tempo como o nosso no qual a involução eclesial, ativada (e padecida) durante os últimos 34 anos, buscou “sacralizar” o sacerdote, promovendo uma identidade presbiteral mais em sintonia com Trento do que com o Vaticano II. É preciso reconhecer que, em muitos casos, o conseguiu. Sobretudo, quando os presbíteros acabaram reclusos nas sacristias e fizeram de semelhante reduto a senha de sua espiritualidade e identidade presbiteral.

Talvez, por isso, seja saudável recordar (a poucos meses de seu falecimento) a trajetória de Jean Kammerer, um presbítero diferente (e, por isso, “normal”) daquele cultivado durante uma boa parte do período pós-conciliar. E recordá-lo como um testemunho interpelador, ao mesmo tempo estimulante, por sua articulação entre secularidade e espiritualidade. (1)

* * *

No dia 25 de janeiro de 2013, a imprensa francesa comunicava a morte, no dia anterior, de Jean Kammerer, de 94 anos, totalmente desconhecido nas igrejas de fala espanhola e, no entanto, relevante para a história do sacerdócio no século XX por sua reclusão (e testemunho) no campo de concentração de Dachau durante o nazismo.

Em 1995, J. Kammerer publica o Diário que foi escrevendo no chamado pavilhão dos sacerdotes, situado no campo de concentração de Dachau (Mémoire en liberté. La baraque des prêtes à Dachau – Memória em liberdade. O pavilhão dos sacerdotes em Dachau).

Ele era um dos mais de 2.700 religiosos (2.579 sacerdotes católicos, 109 pastores protestantes, 22 ortodoxos gregos, oito velhos católicos maronitas e dois muçulmanos) que sofreram em sua carne as atrocidades de campo de concentração de Dachau.

Ecumenismo em meio à tragédia

O livro começa com um prefácio de Jacques Prévotat no qual adianta como todos os sacerdotes e religiosos de outras confissões presos pelo III Reich foram agrupados (graças a uma intervenção da Santa Sé) em Dachau e como ocupavam o bloco 26, conhecido como “o pavilhão dos sacerdotes”. Os sacerdotes poloneses – aglomerados no pavilhão número 28 – sofreram condições de vida muito mais penosas.

Jacques Prévotat destaca que o livro de J. Kammerer trata de como se vivia e se sofria no bloco 26. Embora seja certo, aponta, que a vida dos sacerdotes em Dachau tenha conhecido indubitáveis “privilégios” (poder celebrar a missa, ter uma capela ou estar livre de trabalhos penosos), também é verdade que sofreram todas as demais dificuldades, infelizmente “normais” em um campo de concentração: fome, frio, medo, doenças, vexações, risco permanente de morte e um longo etc.

O autor deste prefácio convida, além disso, a não incorrer em nenhum idealismo: também entre os sacerdotes se manifestavam as limitações próprias da condição humana, apesar de quase todos professarem a mesma fé. E mais, em uma situação limite, como lhes tocou sofrer.

Se algo de positivo se pode extrair desta trágica e, por outro lado, atípica situação, conclui Jacques Prévotat, deve-se reter a experiência de ecumenismo que ali se viveu e o diálogo com a descrença.

Em Dachau, efetivamente, se sentaram as bases para um autêntico diálogo entendido não como comunicação de ideias, mas como compartilha de vidas e experiências. A partir de então, se fez mais patente que são estas últimas que possibilitam as aproximações e intercâmbios ideológicos.

Um sacerdote comprometido

Jean Kammerer começa sua narrativa em 1941, no seminário universitário de Lyon. Ali conheceu dois superiores (Pierre Girard e Louis Richard), ambos contrários ao regime de Vichy (por sua conivência com a ocupação alemã) e comprometidos em esconder judeus. O Instituto Yad Vashem de Jerusalém lhes concederá, anos mais tarde, o título de “Justos”, por seu compromisso a favor dos judeus durante a guerra.

À sombra destes mestres, Jean Kammerer tem problemas com o regime de Vichy por divulgar um panfleto em que se apoiava a negativa do presidente Roosevelt (10 de maio de 1941) de aceitar que o povo francês tivesse aceitado livremente colaborar com um país que o estava oprimindo econômica, moral e politicamente.

Em 24 de junho de 1943, é ordenado sacerdote e é destinado para integrar a equipe de presbíteros de Montbéliard.

No ano seguinte, será preso e interrogado nos calabouços da Gestapo por ter ajudado a esconder dois jovens.

Caminho para Dachau

A partir deste momento, começa seu particular e dramático êxodo para Dachau, lugar ao qual chega vestido (como outros companheiros sacerdotes) com uma batina surrada, no dia 29 de outubro. Esperavam-nos, recorda J. Kammerer, os SS com seus cachorros. Eram 9 horas da manhã.

No caminho para o campo cruzaram com pessoas que, muito provavelmente, iam à missa e que não podiam entender como havia sacerdotes entre os classificados pela propaganda oficial nazista como “terroristas”.

O autor conta como – uma vez libertado – pôde falar com o sacerdote de Dachau sobre o grau de conhecimento que tinham do que estava acontecendo naquele ambiente. Este lhe comentou que “se sabia e não se sabia. Em qualquer caso, não se falava disso”.

A entrada no campo passava por uma quarentena degradante de três semanas. Esta quarentena só será aliviada pelas visitas de alguns sacerdotes do bloco 26. Graças a elas, confessa J. Kammerer, se animava o espírito, se fortalecia a paciência, se tinha a oportunidade de comungar e se recebia algum alimento suplementar.

“Uma Europa em miniatura”

Finalizado o tempo da quarentena, é destinado ao pavilhão dos sacerdotes que Jean Kammerer descreverá como “uma Europa em miniatura”.

A entrada neste singular pavilhão lhe permite aperceber-se das dificuldades linguísticas existentes, assim como ter conhecimento das divisões que havia entre os sacerdotes poloneses: formavam duas castas segundo sua procedência socioeconômica, quer fosse pobre ou rico (e, mais concretamente, proprietário ou não de terras). De qualquer forma, matizará, é provável que estas considerações possam ser um pouco sumárias devido à falta de comunicação existente. Neste bloco também devia haver sacerdotes do porte de Maximiliano Kolbe.

Em Dachau não havia rabinos. Estes não receberam o mesmo tratamento dado aos sacerdotes das outras religiões. Tiveram que compartilhar a sorte de seus irmãos judeus em Auschwitz ou em Treblinka: a Shoah. Já se intuía, aponta Jean Kammerer, que o tratamento dado aos judeus era particularmente sádico: no final de abril, chegou o último trem de deportados composto por judeus húngaros que os SS haviam deixado morrer nos vagões.

Quando começaram a se dar conta de seu “privilégio” não faltaram as discussões nem a perplexidade. Não conseguiam entender sua situação. Concretamente, os sacerdotes alemães se perguntavam pela contrapartida que o governo do III Reich teria obtido, em caso de existência de alguma negociação com o Vaticano.

Esta segue sendo uma incógnita ainda hoje.

“Privilégios” e misérias humanas

Também neste peculiar pavilhão afloravam, como era de se esperar, as misérias humanas. Jean Kommerer as vai apontando com particular delicadeza, carinho e dor.

Assim, por exemplo, os sacerdotes alemães eram maioria no bloco 26. E, às vezes, à sua maioria quantitativa se acrescentava certo ar de superioridade. A pertença a um coletivo humano forte era importante. Isso permitia compartilhar as ajudas alimentares e os livros que se recebiam do exterior e, além disso, evitava converter-se no saco de pancadas ou no bode expiatório, quando algum comportamento indevido (por exemplo, um roubo) não ficava suficientemente esclarecido.

Como curiosidade, Jean Kammerer também registra a existência de um sacerdote espanhol, libertado no dia 29 de abril de 1945.

A ausência de trabalho e a disposição de muito tempo livre permitiam dedicar-se à oração e, sobretudo, às conversas teológicas, eclesiásticas e políticas.

Nós, aponta ironicamente J. Kammerer, éramos dos poucos que podíamos rir da divisa colocada no portão de entrada para o campo: “Arbeit macht frei” (O trabalho liberta). Só discutindo se podia combater a desesperança que pouco a pouco ia se apoderando, também, dos sacerdotes.

Um tema que curiosamente foi objeto de muitas conversas foi a relação entre a Ação Católica e a paróquia. Jean Kammerer refere-se várias vezes a este assunto.

Um bispo entre os sacerdotes

A capela e a vida que havia ao seu redor justifica que dedique um capítulo para falar dela. A presença de dom Piguet, o único bispo que passou pelo campo, dá motivos para muitas e interessantes páginas. Emocionante é a ordenação sacerdotal do diácono Karl Leisner, morto em Munique no dia 12 de agosto de 1945 e beatificado por João Paulo II.

Este capítulo termina relatando de como os sacerdotes alemães contavam que, estando um dia desses um deles sozinho e de joelhos diante do sacrário, entrou um SS e, depois de bater nele, obrigou-o a colocar-se de joelhos diante dele.

Imagem, cena e final de capítulo infeliz e dificilmente superável na carga simbólica que condensa.

Concentração ou extermínio?

Na seção seguinte proporciona alguns dados que avalizam a qualificação deste campo como “campo de morte”: todos os dias havia entre 100 e 150 mortes. Todos os dias a mesma “rotina. Como nos havíamos acostumado a este espetáculo!”, confessa Jean Kammerer. “Todos os dias a mesma coisa e nós quase não prestávamos mais atenção nisso. Uma vez libertados – que era o que na verdade esperávamos –, ver um morto ainda provocaria alguma emoção em nós? Restariam lágrimas para o falecimento de alguém próximo de nós?”.

O tifo, a superpopulação, a fome e o frio (havia dias em que a temperatura chegava a 20 graus negativos) foram os melhores aliados da política de extermínio do III Reich. Propriamente falando, Dachau não foi um campo de extermínio, mas surgem dúvidas (que não puderam ser erradicadas) sobre o emprego de uma ou várias câmaras de gás. Jean Kammerer se limita a oferecer dados esclarecedores a respeito, esperando que o leitor tire suas próprias conclusões.

A tensão, o drama, as últimas bestialidades dos nazistas, o levantamento dos internados e as dificilmente evitáveis vinganças dos últimos dias têm seu capítulo próprio.

Libertação e “convalescença para a memória”

Em 29 de abril de 1945, por fim, os americanos entram no campo e se inicia uma libertação escalonada.

Dramático é giro que Jean Kammerer faz com seu irmão Teófilo pelos diversos departamentos do campo, no dia 8 de maio. Quão comovedora é sua reação diante de tanta barbaridade: “O vi, de médico que era, recuar diante dos pavilhões da enfermaria onde o estado dos doentes era espantoso. Ele me disse: ‘Para, é suficiente’”.

Este capítulo termina, mais uma vez, com um comentário que é inteiramente simbólico: quando finalmente pode voltar à sua paróquia já é verão. É um tempo de repouso e de recuperação das forças. “Do que passou no campo, eu me lembro. Mas tenho um vazio do verão de 45 e do ano de 46: também era preciso uma espécie de convalescença para a memória”.

Espiritualidade à “sombra” de Dachau

O epílogo é dedicado a narrar, tão sobriamente como nos capítulos anteriores, a maneira como a experiência de Dachau marcou os anos posteriores de Jean Kammerer: fazendo-o apostar nos fracos, nos doentes, no respeito dos direitos humanos, na reconciliação franco-alemã e no diálogo tanto ecumênico e inter-religioso (em particular, com os judeus) como com os descrentes.

Não falta uma oportuna e crítica reflexão sobre a justificação da pena de morte no Catecismo da Igreja Católica: “uma ocasião perdida pela autoridade doutrinal da Igreja para apresentar um discurso profético que poderia ter sensibilizado a opinião pública, por exemplo, nos Estados Unidos ou em alguns países da África...”.

O testemunho de Jean Kammerer termina indicando como nestes últimos anos da sua vida havia pedido (e lhe foi concedido) para exercer seu ministério como capelão, com uma equipe de sete leigos, em um hospital de doentes terminais: “um âmbito simbolicamente parecido com o dos campos”; uma tarefa que desempenha como agradecimento ao “Amor de Jesus crucificado-ressuscitado” (...), particularmente “presente na noite dos campos”.

O livro termina com um dossiê no qual se recolhe toda a documentação à qual teve acesso sobre o campo de concentração de Dachau e sobre as conversas que sobre este campo mantiveram entre si o III Reich e o Vaticano.

Um testemunho sóbrio e contido

Se tivesse que ressaltar algum aspecto crítico a ser superado, reteria a sobriedade do testemunho. Dir-se-ia que a preocupação pelo rigor, para não inflar a barbaridade e a tragédia vividas fazem com que J. Kammerer ofereça uma comunicação contida e parca, com poucas considerações pessoais. Muito provavelmente, por isso, sente-se saudade de um testemunho que, colado aos dados objetivamente recolhidos, fosse abundante na comunicação de experiências e reflexões mais pessoais.

De qualquer forma, esta não deixa de ser uma observação de tom menor quando se recorda toda a literatura suscitada pelo campo de extermínio de Auschwitz (símbolo, para a grande maioria, da desesperança, da derrota, da falta de dignidade, da estupidez humana, da submissão e da morte) e Dachau (símbolo, para não poucos, da esperança, da resistência na derrota, do diálogo, do ecumenismo, do levantamento – certo que para o final – e da esperança que brota, apesar de tudo, da morte).

A comparação entre Auschwitz e Dachau continua sendo, ainda hoje, uma fonte de inspiração e reflexão; evidentemente que além das nossas fronteiras. Talvez, por isso, seja bastante desconhecida entre nós. E provavelmente também por isso, Auschwitz segue ocupando (na base de testemunhos mais desesperançados que os de Jean Kammerer) um posto capital em nosso mundo simbólico e reflexivo.

Terá chegado o momento de reconsiderar estes dois campos em sua aparente e dialética diferença, assim como em sua inquestionável proximidade de horror, drama e degradação humana?

Neste caso, o sacerdote Jean Kammerer teria uma palavra para dizer.

____

Nota 1: Pode-se ler o artigo completo em Surge 71 (2013) 675-676, p. 115-125: Jesús Martínez Gordo, “Espiritualidad y secularidad. Jean Kammerer y El barracón de sacerdotes en el campo de Dachau”.

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