Uma luz que vem do norte: o crescimento da Igreja nos países nórdicos

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25 Janeiro 2013

Os países que compõem a Escandinávia estão entre os mais seculares do mundo. No entanto, a partir de pequenos começos, a Igreja Católica está se expandindo e experimentando um aumento constante de vocações, estimulado pela relativa liberdade para expressar seus pontos de vista.

A análise é do jesuíta sueco Fredrik Heiding, professor de teologia do Newman Institute, em Uppsala, e membro da revista Signum. É autor de Ignatian Spirituality at Ecclesial Frontiers (www.theway.org.uk). O artigo foi publicado na revista católica inglesa The Tablet, 19-01-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Quando a Conferência dos Bispos Nórdicos se encontrou na Islândia em setembro passado, observou-se uma tendência nova e estimulante. A Igreja Católica está crescendo na Escandinávia e está mostrando sinais de vitalidade de várias maneiras, sendo uma delas o crescente número de vocações, tanto ao sacerdócio secular, quanto às ordens religiosas.

Um mês depois, no Sínodo dos Bispos, em Roma, o Papa Bento XVI mencionou a Noruega entre os países onde a Igreja está experimentando uma renovação. Ele concluiu: "Vemos hoje, onde ninguém esperaria, como o Senhor está presente e é poderoso, e como ele continua sendo eficaz através do nosso trabalho e da nossa reflexão".

Atualmente, dos cerca de 282 mil católicos registrados nos países escandinavos, há 31 candidatos se preparando para o sacerdócio. Olhando para trás ao longo dos últimos 15 anos, isso indica um crescimento pequeno e constante – embora não impressionante – de vocações e da população católica. Em proporção ao número total de católicos, os países escandinavos têm mais seminaristas e pessoas nos primeiros estágios da vida consagrada do que muitas outras regiões da Europa. A Arquidiocese de Viena, na Áustria, por exemplo, tem 30 seminaristas de um total de 1,3 milhão de católicos.

A Conferência dos Bispos Nórdicos fornece as seguintes estatísticas:

- A Suécia tem nove seminaristas em formação para o sacerdócio secular e oito se preparando para a ordenação em ordens religiosas de um total de 103.500 católicos (de uma população de quase 9,5 milhões).

- A Noruega tem nove seminaristas de um total de 115.600 católicos (população: 4,9 milhões).

- A Dinamarca tem dois seminaristas de um total de 40.400 católicos (população: quase 5,6 milhões).

- A Finlândia tem dois seminaristas de um total de 11.900 católicos (população: 5.4 milhões).

- A Islândia tem um seminarista de um total de 10.500 católicos (população: 319 mil).

Além disso, o Neocatecumenato tem 18 candidatos em formação na Dinamarca e 15 na Finlândia. Em termos de vocações para as congregações femininas, parece que as irmãs contemplativas estão se saindo melhor do que as irmãs de ordens apostólicas, embora não haja estatísticas disponíveis.

Como esses números encorajadores podem ser explicados? A análise impressionista a seguir se baseia em entrevistas informais, assim como em minhas próprias reflexões. Ela não é de modo algum um abrangente estudo sociológico.

O amor por Jesus Cristo e o sentimento de um chamado constituem uma motivação absolutamente central para os candidatos, vários dos quais foram recebidos na Igreja Católica já adultos. Matteus Collvin, um dos seminaristas suecos, aponta que a intensa busca de Deus durante um processo de conversão eclesial pode se assemelhar ou conduzir a uma exploração igualmente completa do caminho pessoal de serviço.

O fato de a religião hoje fazer parte da esfera pública, enquanto ela era quase um tabu há apenas duas décadas, facilita a busca, de acordo com Collvin. Mesmo que o catolicismo e o sacerdócio católico ainda sejam percebidos como algo muito estranho pela sociedade em geral, os candidatos sentem que o crescente interesse pela religião (incluindo por suas formas não tradicionais) faz com que o seu modo de vida seja suficientemente aceito.

O bispo da diocese católica de Estocolmo, Anders Arborelius, diz que os candidatos se instalaram bem e se sentem em casa tanto na cultura católica, quanto na cultura sueca tradicional, que está se tornando mais pluralista. Alguns candidatos têm um progenitor sueco nativo e outro que é imigrante católico. Essa mistura forma alguém que discerne e se torna criticamente leal à Igreja, assim como aos valores e aos costumes da sociedade civil. Em algumas questões e valores éticos, no entanto, o catolicismo e o pensamento geral são inconciliáveis. Mas sentir-se familiarizados com ambos torna os candidatos capazes de navegar as águas morais, mesmo que nem sempre sejam capazes de desfazer a tensão.

Dom Arborelius também sugere que a Igreja Católica na Escandinávia tem a vantagem de estar menos entrelaçada com os sentimentos e as estruturas nacionais, em comparação, por exemplo, com a Igreja em Flandres ou no País Basco. Os católicos praticantes são estimulados pelo desafio missionário de ser uma comunidade minoritária, que não esteve em uma posição dominante no passado.

Ao contrário da Igreja Luterana na Escandinávia, a Igreja Católica não faz parte do sistema dominante na sociedade. Apesar de uma separação oficial entre Igreja e Estado, o controle e a influência política sobre as Igrejas luteranas ainda é ativo sob muitas formas. A Igreja Católica, ao contrário, é menos dependente e parece mais livre para manifestar os seus pontos de vista, independentemente da opinião pública.

Uma série de iniciativas promissoras foram tomadas na Escandinávia nos últimos anos, que desenvolveram a comunidade católica em geral e promoveram vocações em particular. Três delas se destacam. A irmã Marie Ronnegård, do Convento de São Domingos, em Rögle, no sul da Suécia, está impressionada com a rede de católicos jovens e comprometidos na Noruega. O trabalho com jovens noruegueses foi construído sobre bases lançadas pelas gerações passadas. Autores como Sigrid Undset e várias personalidades carismáticas franciscanas e dominicanas deram ao catolicismo um rosto atraente. Grandes grupos de acólitos são cuidadosamente formados, e o clero é altamente profissional no encorajamento que oferece aos possíveis candidatos ao sacerdócio.

Em segundo lugar, na região de Gotemburgo, na Suécia, os franciscanos e várias pessoas da paróquia principal da cidade também trabalham extensivamente com a geração jovem.

Em terceiro lugar, em 2010, houve a inauguração do Newman Institute, em Uppsala, a primeira universidade católica na Suécia desde a Reforma. Administrada pela Companhia de Jesus, ela oferece cursos de filosofia, teologia e estudos culturais. Sua graduação em teologia é credenciada pelo Estado, e um pedido de reconhecimento da graduação em filosofia acaba de ser enviado à Autoridade Sueca de Ensino Superior.

O seminário da diocese católica de Estocolmo ocupa uma nova ala do Newman Institute. Embora a formação sacerdotal costumava ocorrer predominantemente em Roma, a Igreja Católica da Suécia se beneficia agora de um seminário local. Os seminaristas frequentam os cursos do Newman Institute, juntamente com leigos de toda a Escandinávia, cerca de 60% deles através do ensino à distância.

Como a comunidade católica é pequena, surgiu um tipo de rede familiar. A Igreja Católica como organização é – talvez surpreendentemente – horizontal, ao invés, o que reflete a cultura de gestão escandinava geral, como descrita nos livros Moments of Truth (ou, traduzido literalmente, Chore pelas Pirâmides!), de Jan Carlzon, o inspirador ex-presidente das Linhas Aéreas Escandinavas. Os bispos geralmente conhecem os fiéis pelo nome, e, embora os títulos sejam usados, a conversa rapidamente se desloca para o mais familiar pronome da segunda pessoa.

Outro elemento que promove as vocações é o fato de que os católicos praticantes dos países nórdicos em geral falam favoravelmente sobre o sacerdócio e a Igreja Católica. Eles se identificam fácil e naturalmente com o catolicismo. Há uma atmosfera de otimismo sem negar, contudo, os problemas existentes e a necessidade de melhorias. Aqueles que pensam em uma possível vocação podem se motivar por representar uma comunidade católica com a qual outros católicos podem desejar se associar. Padres, irmãs e irmãos provavelmente são respeitados, embora não sejam nem excessivamente venerados, nem irremediavelmente desrespeitados.

A Ir. Marie Ronnegård, do Convento de São Domingos, lembra que, quando ela frequentava a escola secundária nos anos 1980, os alunos eram premiados com notas altas por desconstruir e criticar um assunto. Em sua opinião, esse ato de rasgar as coisas levou a uma atitude cínica, ao invés. Ao contrário, o ensino católico oferece uma visão de mundo coerente e mais significativa, embora permita ainda tanto a reflexão crítica quanto o debate. Para quem vem da tradição dominicana, isso só pode ser visto como encorajador.

Mais em geral, a prioresa do Convento de São Domingos, Ir. Sofie Hamring, afirma que todas as explicações sociológicas são secundárias ao amor essencial por Jesus Cristo. O Espírito Santo está agindo. Não obstante seu foco em aspectos teológicos, a Ir. Sofie defende que a Suécia tem estado na vanguarda em termos do questionamento de valores morais, mas não necessariamente sempre para melhor.

Nas últimas décadas, a Suécia assumiu a liderança no liberalismo, e as pessoas têm podido experimentar quase tudo, sem limites ou fronteiras. O que estamos experimentando agora é uma contrarreação a esse liberalismo, uma reação que pode vir à tona em outros países também.

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