''Agora, a sinodalidade da Igreja não é mais um opcional.'' Entrevista com Alberto Melloni

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31 Outubro 2014

O historiador Alberto Melloni: "Não é preciso reduzir os conflitos, mas fazê-los surgir e transformá-los em ingredientes de uma maior comunhão". E ainda: "Colocar em prática a escuta recíproca que ajude a entender mais as exigências do evangelho, e não a dizer coisas mais palatáveis ao gosto moderno ou que respondam às exigências de alguns 'intelectuais das minhas botas', como dizia Bettino Craxi".

A reportagem é de Maurizio Calipari, publicada pelo Servizio Informazioni Religiosa, 29-10-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Terminados os trabalhos do Sínodo extraordinário sobre a família, é hora de sínteses e de perspectivas para lançar luz sobre o caminho que levará, em 2015, à segunda e última etapa do percurso sinodal.

Pedimos ao professor Alberto Melloni, docente de História do Cristianismo na Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação para as Ciências Religiosas João XXIII de Bolonha, uma opinião sua sobre o evento sinodal como um todo.

Eis a entrevista.

Acabou de se concluir a primeira etapa do Sínodo extraordinário sobre a família. Que avaliação o senhor pode traçar em relação à Igreja Católica no seu conjunto?

Seguramente, uma avaliação muito positiva por diversos motivos. O primeiro é que o Papa Francisco fez dele uma experiência típica do seu modo de abordar as questões institucionais, isto é, conseguir fazer ações de reforma da Igreja "com normas invariadas", e em relação a isso ele teve um grande resultado. Esse Sínodo, de fato, foi um lugar de confronto de opiniões, não entre "líderes", mas entre Igrejas, não de sensibilidades dos indivíduos, mas de sensibilidades das Igrejas. Uma segunda razão é que esse Sínodo pediu que todos aceitassem um princípio-chave do Concílio Vaticano II, que é o da chamada "pastoralidade".

Os padres sinodais, de fato, abordaram questões concretas, não a partir da construção teórica de equilíbrios de tipo doutrinal, mas confrontando-se com o cuidado pastoral concreto, cujas implicações certamente não são menores do que o aspecto doutrinal. Uma terceira razão é que esse Sínodo representou a saída de uma difícil temporada do catolicismo romano, caracterizada por "muitos resmungos e pouco pensamento", ou seja, uma certa resistência a dizer ou a fazer dizer coisas que não são do agrado ou agradáveis a quem está mais em cima.

Em última análise, surgiu com força que a sinodalidade da Igreja não é um opcional, mas faz parte da sua experiência e estrutura, e que ela não serve para reduzir os conflitos, mas para fazê-los surgir e transformá-los em ingredientes de uma maior comunhão.

O senhor entrevê algum elemento de novidade, à luz do Sínodo, em relação ao exercício do papado e, especialmente, ao Papa Francisco?

Parece-me que o papa ganhou, perante todas as Igrejas, um título de mérito muito particular, ou seja, o de ter ativado uma colegialidade "efetiva" na Igreja, e não apenas uma colegialidade "afetiva". De fato, ele mostrou que o instrumento colegial do Sínodo não é algo a se "manter na geladeira" à espera de um concílio ecumênico, mas é o modo e a substância com que podem funcionar todas as instâncias da vida das comunidades cristãs, também em nível geral, com consequências ecumênicas potencialmente imensas e inesperadas.

Professor Melloni, como o senhor considera essa Igreja que opta por permanecer em um "estado sinodal"?

Esse me parece ser o dado mais importante. Estamos aprendendo o que significa viver em estado sinodal, isto é, em uma dimensão de colegialidade que não seja simplesmente uma técnica política para abordar as questões, mas que seja um modo claro de ser Igreja. "Estado sinodal" certamente não significa que todos têm o direito de dizer qualquer coisa no microfone, como em uma espécie de rádio livre, em que qualquer um expressa o que se passa na sua cabeça.

O modo de envolver as Igrejas nesse processo sinodal diz respeito ao próprio modo de funcionar como comunidades, paróquias, dioceses e também nos movimentos. Trata-se de conseguir pôr em prática a escuta recíproca que ajude a entender mais as exigências do Evangelho, e não a dizer coisas mais palatáveis ao gosto moderno ou que respondam às exigências de alguns "intelectuais das minhas botas", como dizia Bettino Craxi.

Dada a marcada ênfase pastoral assumida até aqui, qual será, na sua opinião, o papel dos teólogos na continuação desse Sínodo?

Como eu dizia, "pastoral" é uma palavra-chave do Vaticano II, uma palavra tão pregnante que, muitas vezes, não foi entendida, ainda hoje. "Pastoral" não significa encontrar o modo de não dizer logo coisas insuportáveis para as pessoas que não as suportariam e, assim, adoçar a pílula com acomodações ou com coisas desse tipo. "Pastoral" significa comunicar a doutrina de um modo mais autêntico, mais profundo, mais transparente dos conteúdos da própria doutrina. Trata-se de uma busca não menos trabalhosa nem menos essencial para a Igreja do que a grande busca doutrinal para estabelecer a formulação das verdades de fé ou dos dogmas.

Como estudioso e historiador, o senhor acredita que esse Sínodo "vai entrar para a história" da Igreja ou não? Por quais razões?

Talvez sim, talvez não, saberemos em algum tempo. Esse Sínodo marca o fim de uma concepção minimalista da sinodalidade, entendida como pura dimensão de caráter afetivo entre bispos, rumo a uma nova época de autocompreensão sinodal do seu próprio percurso por parte do catolicismo romano. Esse poderia ser realmente um Sínodo epocal, porque, como já referi, representaria uma passagem de renovação "com normas invariadas", o que está no coração do Papa Francisco.

O papa provavelmente não é alguém que se apaixona por escrever um regulamento sinodal renovado, mas está convencido, por uma razão totalmente espiritual, diretamente inserida na sua experiência de cristão, que uma mudança do coração pode modificar as instituições muito mais do que uma mudança das instituições sem uma mudança do coração. Se ele conseguir traduzir essa ideia na vida concreta da Igreja, a meu ver, ele realmente terá feito um milagre.

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