Escolha seu lado: a Guerra Civil da Marvel e o Brasil dividido

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30 Outubro 2014

"Parece interessante, por isso, que em um momento de tensão política como o que vivemos no Brasil, esta saga da Marvel volte a chamar atenção. Interessante e oportuno, pois sua transposição para as telas provocará a busca de uma releitura da obra e, sem dúvidas, a adaptação cinematográfica apresentará uma síntese competente da narrativa. Talvez isso leve a algumas reflexões sobre as consequências de escolher um lado e nele permanecer de forma irredutível: haverá baixas, derrotas e alianças indesejáveis."A afirmação é de Renato Ferreira Machado, teólogo, autor de O desencantamento da experiência religiosa em House: "creia no que quiser, mas não seja idiota" 

Nos últimos dias a Marvel Studios vem bombardeando a imprensa com o anúncio de suas próximas produções. Para a alegria de uma multidão de leitores de quadrinhos de várias idades, o que vem por aí é muito ousado e promissor, principalmente por seguir a lógica de um universo cinematográfico coeso e interligado, como a editora já o faz desde a década de 1960. Entre estas produções, revelou-se que o terceiro filme do Capitão América, a ser lançado em 2016, tem por subtítulo o termo “Civil War”. A partir daí, as redes sociais quase entraram em colapso, pois estas duas palavras, no contexto da Marvel, significam a adaptação de uma das sagas de quadrinhos que melhor ajuda a compreender o mundo pós 11 de setembro de 2001.

Escrita por Mark Millar e desenhada por Steve McNiven, o arco de histórias foi lançado em 2006 e concluído em 2007, tornando-se um acontecimento com repercussões que extrapolaram o nicho de leitores de quadrinhos. Tudo se inicia quando um grupo de jovens e inexperientes super-heróis encurralam alguns supervilões que haviam escapado da prisão. Os heróis, protagonistas de um reality show, tem toda sua ação filmada e transmitida ao vivo e, assim, milhões de pessoas assistem quando um dos foragidos , sendo perseguido até uma escola, causa uma explosão que dizima com todos que estavam nas proximidades. Heróis e vilões estão mortos e, junto com eles, centenas de crianças, adolescentes e adultos que se encontravam na escola. Movido pela comoção popular, o governo cria a Lei de Registro, segundo a qual todos os vigilantes uniformizados – ou seja, os super-heróis – deveriam revelar sua identidade secreta ao governo e passarem a trabalhar para ele. A partir daí, os super-heróis se dividem em duas facções: uma anti-registro, comandada pelo Capitão América e outra pró-registro, liderada pelo Homem de Ferro. O resultado disso é aquilo que se expressa no título da saga: inicia-se uma guerra civil entre os heróis, com algumas baixas, traições e alianças com velhos inimigos.

A facção do Capitão América defende as liberdades individuais e o direito à privacidade que cada vigilante teria. Já o Homem de Ferro busca uma reestruturação do papel dos super-heróis na sociedade, com uma visão que transmita mais segurança para a população que, afinal, precisa confiar em homens e mulheres ocultos atrás de máscaras. Como provocação aos leitores, os desdobramentos da história traziam a pergunta: de que lado você está? Se a saga fez um enorme sucesso por colocar os heróis combatendo um ao outro, as questões de fundo que ela revela a levaram a ser reconhecida como novo clássico da nona arte, quase que instantaneamente. A discussão não era a respeito de qual equipe venceria a batalha, ou se um super herói sobrepujaria outro em uma batalha direta, mas a respeito das causas e consequências daquela guerra. E, principalmente, sobre as inspirações dos autores para produzi-la.

Mediações semióticas da realidade

Como produto cultural, histórias em quadrinhos podem ser mediações semióticas da realidade. Aliás, de acordo com a teologia cultural elaborada por Paul Tillich, uma obra de arte, sendo fruto de uma criação inspirada, sempre é portadora de uma revelação. Civil War, então, revelava parte da paranoia estadunidense pós 11 de setembro, segundo a qual todos poderiam ser terroristas em potencial. Por conta disso havia certa simpatia da opinião pública com o discurso da Guerra ao Terror, aprovando, com isso, a possibilidade de intervenção governamental na sociedade civil. Nesta mesma linha, prisões dantescas como Guantánamo foram toleradas por anos, sob a falsa impressão de que a existência de um campo de confinamento como aquele manteria a população a salvo dos terroristas. Na história da Marvel, Guantánamo foi representada por uma prisão interdimensional, onde os super seres contrários à Lei de Registro eram mantidos, sem qualquer tipo de processo ou julgamento.

Parece interessante, por isso, que em um momento de tensão política como o que vivemos no Brasil, esta saga da Marvel volte a chamar atenção. Interessante e oportuno, pois sua transposição para as telas provocará a busca de uma releitura da obra e, sem dúvidas, a adaptação cinematográfica apresentará uma síntese competente da narrativa. Talvez isso leve a algumas reflexões sobre as consequências de escolher um lado e nele permanecer de forma irredutível: haverá baixas, derrotas e alianças indesejáveis. Nesse sentido, cabe lembrar que Civil War trouxe consequências às histórias dos personagens, dividindo a comunidade de super-heróis ao meio e explicitando diferenças até então veladas entre os personagens. De certa forma, aliás, o conflito serviu para revelar tendências que desde sempre estavam presentes e que um momento de crise trouxe à tona: o Capitão América revelou-se um idealista radical, beirando o fanatismo e o Homem de Ferro se mostrou um gerente pragmático de conflitos, fazendo o projeto que defendia funcionar a qualquer custo.

Se transpusermos esta narrativa para o Brasil pós-eleições, talvez tenhamos uma chave de leitura importante: se há um discurso pregando que, no processo eleitoral o país acabou dividido em duas enormes facções, é preciso perguntar se esta situação não fez apenas revelar que o país sempre esteve dividido e que agora estas diferenças estão sendo assumidas e vindo à tona. E em ambos os lados existe a defesa radical de pontos de vista e o pragmatismo esmagador que não dialoga. Em ambos os lados há baixas, traições e alianças indesejadas. Por isso, tal como em Civil War, os personagens-chave parecem não ser aqueles que estão no centro da disputa, mas os que à margem, defendem suas pautas e são disputados para engrossar as macroalianças.

Da periferia para o centro

Na história da Marvel, os mutantes dos X-Men, o soberano africano T’Challa – conhecido como Pantera Negra – e Namor, o Príncipe de Atlântida, são sondados por ambos lados para uma aliança e, inicialmente as recusam. O motivo desta atitude é que todos estes personagens são renegados e, muito antes de Civil War já eram perseguidos e tratados com hostilidade. Ao final, porém, escolhem um lado e revertem as forças da guerra, trazendo vitória ao lado em que se aliaram. No Brasil, as forças que movimentaram as manifestações populares de 2013, desde sempre, vem sendo alvo de manipulação e instrumentalização do grande poder político, resistindo bravamente até agora. Ao pensarem por outra lógica, estas forças compreendem o cenário político por outros paradigmas e, ao invés de se aliarem com um ou outro lado, podem vir a causar uma mudança estrutural que esvaziará o sentido dos lados conflituosos. E, se pensarmos em termos mundiais, podemos perceber este movimento se potencializando no Encontro Mundial dos Movimentos Populares, com o Papa Francisco. Por isso, muito mais do que escolher lados, talvez seja hora de conhecer a realidade e saber que roteiro temos seguido.

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