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28 Outubro 2014

A primeira parte da Relatio do Sínodo mostra que 19% das palavras nela utilizadas têm a ver com a dimensão humana do espírito. Ao contrário, 23% referem-se à dimensão racional volitiva. Já 32%, à dimensão relacional; 16%, à afetiva; e apenas 8% à físico-corpórea.

A nota é de Gilberto Borghi, publicada no blog da revista Il Regno, 21-10-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Na segunda parte, em vez disso, os números são muito diferentes. Nada menos do que 54% das palavras utilizadas têm a ver com a dimensão espiritual religiosa, mostrando uma verdadeira explosão da atenção à transcendência. A dimensão racional e volitiva é representada por 15% das palavras, só ligeiramente em queda. Também em ligeira queda a relacional, que soma 26%.

Quanto às duas últimas dimensões, assiste-se a um verdadeiro colapso: a afetiva se reduz a míseros 4,5%, e a corpórea desaparece completamente.

É preciso dizer, para especificar, que esses números são aproximações, tendo em conta apenas as 30 palavras mais utilizadas em uma determinada parte do texto. As eventuais presenças menores, porém, são tão baixas que não deslocam a ordem de grandeza desses dados.

Por isso, procurando bem, encontram-se algumas palavras que se referem ao corpo também na segunda parte, mas a substância é que essa dimensão, de fato, é esquecida nesse horizonte.

Ora, já daí algumas considerações vêm à tona. Traduzidas em algumas perguntas. É possível que uma fé em que falamos de ressurreição, encarnação e comer um corpo ressuscitado possa produzir uma visão da família em que a dimensão afetiva seja marginal e a dimensão corpórea, inexistente?

É possível que o adjetivo "sexual" apareça no texto só na primeira parte, apenas três vezes, duas das quais em sentido negativo?

A palavra "alegria" aparece seis vezes, mas em apenas duas é aplicada à condição da família, ambas na última parte. Nunca aparece a palavra "felicidade", muito menos "prazer".

Como os padres sinodais fizeram para descrever a beleza da família cristã na segunda parte sem falar de alegria, de felicidade ou de prazer?

Mas acima de tudo: não se deram conta da enorme, abissal distância entre a realidade percebida da família e a imagem ideal que dela mostraram?

A essa última pergunta, porém, antes de analisar a terceira parte, eu me respondi que, certamente, essa distância foi captada. E que, na terceira parte, os números teriam me demonstrado um reequilíbrio antropológico que permitiria reaproximar as duas primeiras partes.

Pois bem. Os resultados da terceira parte são os seguintes: espiritual-religioso, 47%; racional-volitivo, 30%; relacional, 21%; afetivo, 1,3%; corpóreo, 0%. Como se queria demonstrar.

O mundo real da família aparece na cena do sínodo por um pequeno instante e depois desaparece. As ideias teológicas e os assuntos filosófico-racionais ocupam quase todo o espaço.

A verdadeira fratura está aqui. Entre uma realidade de cônjuges e filhos que têm centros de gravidade baixos, às vezes, baixíssimos e, às vezes, inexistentes, que vivem mais sentindo do que pensando.

E um Sínodo que tem um centro de gravidade alto, para alguns padres altíssimo, que pensa e parece não se sentir o suficiente.

Aquelas relações que não existem

Como dizia Carlo Maria Martini, os pastores da Igreja Católica deveriam ouvir muito antes de falar. Isso não significa, como alguns mal interpretam mais ou menos intencionalmente, se adequar à mentalidade do próprio tempo, relativizando a fé cristã.

Significa, ao contrário, entender e fazer entender como a fé cristã responde positivamente às perguntas profundas que a vivência de hoje desperta nas pessoas, mas também captar aqueles aspectos de uma cultura que ajudam a compreender o Evangelho mais profundamente. A Evangelii gaudium do Papa Francisco explica isso bem.

Muitas vezes, infelizmente, contentamo-nos com a via fácil de repetir simplesmente uma doutrina, sem levar em conta de quem ouve e do fato de que cada pessoa, na sua imperfeição, pode abrir espaço para a graça de Deus.

Há quem coloque diante das pessoas um ideal, observando em que elas se distanciam dele, em vez de reconhecer a graça que opera nelas e os passos positivos que estão ao seu alcance.

A primeira atitude é o julgamento; o segundo é o encontro. Jesus sempre praticava o encontro, nunca o julgamento.

Não muito tempo atrás, me pediram para tentar sintetizar as minhas expectativas sobre o Sínodo do meu ponto de vista de pai e marido. O primeiro passo que se deveria indicar, escrevi eu, era o de trabalhar sobre as relações entre padres e famílias.

Ambos precisam se acompanhar e se sustentar reciprocamente. As famílias, muitas vezes, se sentem sozinhas nas suas dificuldades e precisam de presença, mais do que de ensinamentos.

Os padres, do seu lado, não são mestres autossuficientes, mas precisam integrar o seu mundo relacional. Não só para serem concretos, em vez de abstratos, mas, em primeiro lugar, para si mesmos.

A dificuldade para se relacionar com a dimensão da afetividade e da corporeidade não está apenas nos documentos, mas também no desconforto cotidiano de tantos padres que não são formados e preparados para isso.

Atenção! Quando falo de relações, não me refiro a relações religiosas de autoridade, mas a simplicidade e a humanidade das relações cotidianas: comer juntos, falar, ouvir, praticar a amizade...

É a partir do magistério dessa humanidade que os fiéis leigos poderão trazer uma contribuição vital para o próximo Sínodo de 2015.

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