“A Igreja pode parar a guerra?” Debate entre Bruck, Severino e Maraini

Bruck, Severino e Maraini (Arte: Marcelo Zanotti | IHU)

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19 Abril 2024

A Igreja pode parar a guerra? Edith Bruck inclina-se para o não. Dacia Maraini por outro lado é mais possibilista. Assim como Paola Severino e o padre Enzo Fortunato. Mas que acrescenta: “Sim, a Igreja poderia parar a guerra se os poderosos do mundo a ouvissem”. Por fim, Piero Damosso, jornalista e escritor que, a partir da pergunta, construiu um interessante livro publicado pela San Paolo e apresentado ontem à tarde na sede da Luiss em Roma (com a moderação de Silvia Barocci), acredita nisso: “É preciso coragem para trabalhar em múltiplas vertentes (aquela político-diplomático, do diálogo inter-religioso e da oração, dos artesãos da paz e da promoção da democracia), mas acima de tudo para olhar além dos acordos entre aqueles que pensam da mesma maneira e favorecer mediações razoáveis e compromissos equilibrados entre diferentes e até mesmo entre opostos."

A reportagem é de Mimmo Muolo, publicada por Avvenire, 18-04-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.

O mini levantamento envolveu também alguns estudantes da prestigiada universidade, que ressaltaram como para construir a paz, é preciso prevenir os conflitos, banir os fundamentalismos, curar as feridas e tornar-se promotores a fé, especialmente entre os jovens, de uma fé dialogante. E de fato uma bela experiência de diálogo entre posições não exatamente coincidentes foi a própria apresentação do livro, introduzida por Luigi Gubitosi, presidente da Luiss.

Edith Bruck, por exemplo, recordando o quanto ficou chocada quando jovem em Auschwitz ao ler “Deus está conosco” nas fivelas dos alemães, não deixou de ressaltar que “infelizmente ainda hoje pessoas são mortas em nome de Deus. E em vez disso – reiterou – o nome de Deus deve ser deixado de fora de todas as guerras”. De modo mais geral, recordou a escritora de origem judaica que recebeu a visita do Papa na sua casa: a Igreja nunca conseguiu deter a guerra, mas o seu papel no diálogo inter-religioso continua a ser importante”.

Outra escritora famosa, Dacia Maraini, que também passou pela terrível experiência dos campos de concentração quando criança (com toda a família) (no seu caso, japonesa, pois seu pai, antropólogo, estava naquele país depois do 8 de setembro e foi preso por se recusar a escolher a República de Salò), afirma: “Penso que a Igreja possa parar a guerra. E por Igreja não me refiro ao Vaticano, mas ao povo cristão que promove uma reflexão e tenta conter a onda antidemocrática, anti-institucional e anticientífica a que assistimos hoje”.

Mesmo para a ex-ministra da Justiça Paola Severino, “a Igreja pode ser uma componente que nos leva a refletir” especialmente sobre o fato de que “a fé nunca deve ser um instrumento de guerra, mas de paz”. “Não queremos viver num mundo onde a religião é usada como pretexto para a violência”, acrescentou a jurista. Que depois convidou também a transmitir aos jovens a memória dos crimes passados contra a humanidade, para os vacinar com a vacina do “nunca mais”. Em termos jurídicos, destacou, “a memória que não se extingue, traduz-se na imprescritibilidade de certos crimes” como o cometido pelo oficial nazista Erich Priebke nas Fossas Ardeatinas, em cujo processo Severino foi advogada da Comunidade Judaica de Roma.

Para parar a guerra, disse o Padre Fortunato, responsável pela comunicações da Basílica de São Pedro, “é preciso passar da filautia (o excessivo amor por si mesmos) para a filoclia (amor pela beleza)”. É assim que nos tornamos pacificadores. “E para a paz – acrescentou o religioso – é necessária muita paciência, como o Papa nos demonstra. Francisco recomendou que eu dissesse às crianças de Kiev, por ocasião de uma minha viagem, que Deus não é cruel, é o homem que se torna cruel quando se sente Deus”. Nessa perspectiva também se enquadra o Dia Mundial das Crianças, do qual o Padre Fortunato é o coordenador. “Mais uma vez Francisco olhou para longe. O Olímpico não será suficiente para receber todas elas”.

O autor do livro, Piero Damosso, ao tirar as conclusões do encontro, destacou por um lado a necessidade de derrotar o fundamentalismo religioso, que se manifesta tanto no terrorismo como na chamada guerra santa ("apresentar um Deus guerreiro e vingador deixando de lado o Deus de paz e misericórdia é perigoso"); por outro, a importância da Europa “que pode ser uma ponte de ideias e de futuro, entre o Oriente e o Ocidente, entre o Norte e o Sul do mundo, face às ameaças de nacionalismos e populismos”.

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