Memória de dom Luciano Mendes de Almeida

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Por: André | 27 Agosto 2015

 

*05-10-1930 - +27-08-2006

Fonte: http://bit.ly/1PzqRe5

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


“Em que posso servir?” Esta era uma das perguntas inocentes que dom Luciano repetia com frequência. Outras vezes se deixava levar pelo ritmo do: “Como Deus é bom!”

A reportagem é de Vidal Enrique Becerril e publicada por Religión Digital, 26-08-2015. A tradução é de André Langer.

Celebramos neste dia 27 de agosto os nove anos do martírio “branco” deste bom seguidor de Jesus, tão servidor quanto contemplativo e inteligente. Dom Hélder Câmara, que morreu sete anos antes (1999), justamente nesse dia, foi quem cunhou a expressão de testemunho e martírio “branco”, referindo-se àqueles que entregam sua vida dia a dia sem a violência de derramar seu sangue.

Isso sim, suores, lágrimas e perseguições foram-nos acrisolando. Agora são estrelas vivas como nossa Teresa de Ávila, Teresa de Calcutá ou Luis e Celia, pais de Santa Teresinha, que serão canonizados no dia 18 de outubro.

Referindo-se a dom Luciano Mendes de Almeida, a quem tivemos a sorte de conhecer, que beleza de vida e de santidade! Verdadeiramente, foi um Dom, título que se aplica aos bispos na língua portuguesa: um dom e um presente, no seu caso. Não se interessava pelo chamativo e extraordinário, mas sua vida já era um milagre. Está em andamento o seu processo de beatificação.

Quando ao anoitecer chegava à sua casa no bairro da região leste da cidade, convidava o pobre mendigo que estava à porta e o acolhia indicando-lhe o quarto e a cama em que podia passar a noite. Ele se deitava no chão.

Assim como a outros companheiros do nosso instituto missionário, o IEME (Instituto Espanhol de Missões Estrangeiras), padres, religiosas e leigos, nos deu muitos retiros espirituais. Encontramo-lo em um Encontro Inter-eclesial das CEBs em Trindade, GO, não longe de Brasília. Os poderes militares já tinham assassinado dom Romero.

Havíamos acolhido catequistas e animadoras de comunidades, mulheres firmes de El Salvador, nessa sofrida região da América Central na década de 1980. A sensibilidade deste bispo tão humano chamou-lhes a maior atenção naquele encontro. Essa atitude missionária e solidária animou, em suas visitas, muitas Igrejas do mundo. Foram constantes as suas intervenções no tenso e pequeno Líbano por encargo da Igreja do Brasil, que conta com muitos emigrantes árabes.

Sempre sensível e paciente, era preciso vê-lo no Parlamento do país, aplicando a Constituição e defendendo com toda a sua energia os direitos de sobrevivência e terra demarcada para os povos indígenas, que são mais de 200 no Brasil. O Reinado do Bom Deus e do Bem Viver joga-se com essa população originária, muito descartada por nossos sistemas individualistas de desenvolvimento e consumo.

De modo quase unânime em várias etapas, foi escolhido como secretário e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Por alguma autoridade superior não se permitiria depois que um simples bispo auxiliar ocupasse esse cargo. Começou sua atividade como bispo com o cardeal Paulo Evaristo Arns na região leste da Grande São Paulo, cidade que conta com cerca de 18 milhões de habitantes. Inspirou e fundou a Pastoral do Menor para acompanhar milhares de adolescentes e jovens de favelas e periferias, tantas vezes em situação de delinquência e risco de vida.

Enviaram-no, finalmente, a uma diocese pouco significativa, mas o brilho e a ressonância de sua pessoa transbordavam a pequena diocese de Mariana, em Minas Gerais. Pensaram, talvez, em afastá-lo ou diminuí-lo. Já o tinham tentado com outros companheiros seus jesuítas como Teilhard de Chardin, na área científica, ou Jorge Mario Bergoglio, na pastoral mais recente.

Dom Luciano, esta pessoa encantadora, já acompanhava a Alegria do Evangelho e a disposição de servir. As pessoas das quais se aproximava sentiam-se valorizadas, mais importantes e mais donas de sua dignidade, mesmo levando uma vida crucificada. Nisto seguia a tradição da escuta e da empatia tão próprias do grande pedagogo Paulo Freire. Muitos recordam essas reuniões pesadas que se estendiam até altas horas da noite. Dom Luciano dormia de cansaço, mas ao final abria seus olhinhos. Suas palavras lúcidas e delicadas sistematizavam com toda precisão os assuntos tratados. Como teria conseguido acompanhá-los?

  Fonte: http://bit.ly/1PzqRe5  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em um grave acidente de carro morreu o padre que estava ao seu lado. Passou por oito cirurgias para se recuperar e começar a rabiscar novamente como um menino algumas letras. Manteve apenas a sua língua materna. Conhecia outras línguas e escrevia todos os sábados uma coluna em um jornal de grande circulação nacional. O que escrevia, sem correção, podia enviar à redação.

Em Roma, ajudou muito os pobres e os presos em seus anos de formação e de responsabilidade em sua congregação como jesuíta. Vinha de família rica. Seu irmão Cândido Mendes, famoso cientista e humanista, dirige uma prestigiosa universidade no Rio de Janeiro.

Dom Luciano amplia essa nuvem de testemunhos que segue na frente, como nos fala a Carta aos Hebreus. Pode ser – como nos recorda o Papa Francisco, bom poeta da Palavra de Deus – como essa lua que se sabe luz nas noites escuras da vida apenas porque recebe a Luz de Jesus, nosso único Sol.

Felizes os pobres que seguem os caminhos empoeirados de todas as Galileias da vida! Em frente!, traduz um judeu estudioso da sabedoria bíblica. Jesus, como filho do Bom Deus, os acompanha. Muitas vezes também lhes sussurra como a dom Luciano: “em que posso servir?”

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