A experiência cristã nasce plural. Artigo de Carlo Molari

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06 Julho 2015

A experiência cristã nasce plural e, como tal, se desenvolveu ao longo dos séculos. A razão está na própria natureza da mensagem evangélica. É uma mensagem de salvação que se desenvolve na história, envolve os sujeitos, solicita decisões vitais, encarna-se em culturas e povos diferentes, assume os seus modelos culturais provisórios e suporta as suas interpretações muitas vezes deformantes.

A análise é do teólogo italiano Carlo Molari, sacerdote e ex-professor das universidades Urbaniana e Gregoriana de Roma, em artigo publicado na revista Rocca, 01-07-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Na Igreja Católica, a unidade muitas vezes foi concebida e buscada como uniformidade das ideias, dos ritos e das escolhas morais. Razão pela qual as diferenças, embora inúmeras, entre as comunidades e entre as pessoas que não eram reconhecidas ou quando surgiam, eram marginalizadas, eliminadas ou suspeitas como errôneas.

Na realidade, a uniformidade, mesmo quando era proclamada ou alcançada através de diálogos prolongados e debates exaustivos, sempre constituía um dado provisório e superficial. Ainda mais quando era expressada com fórmulas absolutas.

A experiência cristã nasce plural e, como tal, se desenvolveu ao longo dos séculos. A razão está na própria natureza da mensagem evangélica. É uma mensagem de salvação que se desenvolve na história, envolve os sujeitos, solicita decisões vitais, encarna-se em culturas e povos diferentes, assume os seus modelos culturais provisórios e suporta as suas interpretações muitas vezes deformantes.

Justamente, Giuseppe Ruggieri lembrou que o relato evangélico não é "um relato 'descritivo' de um estado de coisas, mas um relato que só opera através dos seus narradores. Uma descrição objetiva não admite erros e pode ser verificada através do cotejo daquilo que descreve com o estado de fato das coisas e dos acontecimentos" (Della fede [Da fé]. Roma: Carocci, 2014, p. 45), enquanto um relato que solicita conversão está aberto a múltiplas formas de expressão e se desenvolve mesmo em um ambiente imperfeito e marcado por erros.

Os limites da fé inculturada

Na realidade, a primeira forma de fé, que cada homem exerce vindo ao mundo, é a relativa aos ideais que guiam a comunidade em que nasce e que constituem as razões do compromisso comum e da sua continuidade na história. Todo grupo social, para viver, deve formular projetos, traçar caminhos, renovar compromissos. Para fazer isso, precisa se referir a valores acolhidos sem reservas, a ideais não ainda plenamente verificados, a razões assumidas como absolutas.

Essas referências se realizam dentro de uma tradição histórica que contém testemunhos eficazes e constituem, para as pessoas, razões de vida. A confiança que é suscitada por aqueles que, amando, dão vida, faz com que se acolham as razões pelas quais vivem e os ideais que eles buscam. Estes são induzidos pelo ambiente familiar e social, estruturam-se através dos símbolos das comunidades nas quais as pessoas crescem.

Na primeira fase, portanto, a vida é comunicada pelos outros por amorosa indução e através de uma cultura particular. As formas iniciais de fé se apoiam exclusivamente nas ofertas dos outros e são marcadas pelos limites culturais do ambiente.

Nesse sentido genérico, a fé é atitude de confiança e de acolhida em relação à vida induzida por aqueles que trazem uma tradição e a entregam com gestos de amor, de modo a fazer com que se perceba a sua autenticidade. Uma comunidade não pode ser constituída só por pessoas que vivem por indução alheia. Ela deve ter, no seu seio, inúmeras pessoas que oferecem vida induzindo confiança. Mas essas pessoas não são só os intelectuais, mas também aqueles que alcançaram uma maturidade e autonomia de fé.

A socialização consiste precisamente na comunicação das razões de vida e dos ideais emergentes a partir de uma tradição vital. Nesse processo, os componentes da cultura em jogo estão em movimento e não podem continuar os mesmos. A fé adulta não se relaciona com as formas infantis, da adolescência ou juvenis de fé como a sua meta ou cumprimento, mas como a sua fonte e o estímulo do seu desenvolvimento.

A fé acolhida a cada dia por indução de testemunhas torna-se progressivamente alma da vida pessoal através de verificações históricas e contínuas confirmações sociais. O desenvolvimento da maturidade pessoal, portanto, corresponde a um caminho de fé, que passa do estágio de indução a uma forma pessoalmente assumida, dentro de uma comunidade.

Esta, por sua vez, por retroação ou circularidade, modifica a fé que a induziu e tende a estimular os seus desenvolvimentos. A fé juvenil, com os seus símbolos e com as suas exigências, é um componente necessário da fé de uma comunidade, mesmo que, muitas vezes, seja imatura e marcada por ilusões errôneas. A fé religiosa também está sujeita a essas dinâmicas e deve fazer as contas tanto com os erros dos modelos culturais dos simples, quando com as imaturas improvisações dos jovens.

Os erros no caminho de fé

O caminho de fé religiosa assume formas diferentes de acordo com as várias estações da existência humana, porque é um evento que envolve uma cultura e se desenvolve em uma comunidade através de um percurso que contempla carências e erros.

Esse aspecto foi destacado pelo teólogo argentino Rafael Tello (1917-2002). Significativa é a clareza com que, depois de ter ilustrado o componente cultural da fé dos povos latino-americanos, ele justifica os seus erros e insuficiências doutrinais (E. C. Bianchi, Introduzione alla teologia del popolo [Introdução à teologia do povo]. Bolonha: Emi, 2015, p. 184 e ss.).

Tomás de Aquino, que ele cita, tinha levantado o problema do conhecimento das doutrinas cristãs por parte das pessoas simples e tinha concluído que "o homem qualquer não é obrigado a crer explicitamente em todas as doutrinas relativas à Trindade ou ao Redentor" (De Veritate, q. 14, a. 11). Por isso, ele havia distinguido entre os credenti Maggiori, que têm a tarefa de ensinar, e os Minori. A esta última classe pertence aqueles que creem que é verdadeira a fé da Igreja e "com isso crê quase implicitamente nos artigos individuais que estão contidos na fé da Igreja" (De Veritate, ibid.).

Dando um passo adiante, ainda parafraseando Tomás, Tello defende que "as pessoas que vivem o cristianismo popular não devem ser examinadas nos minuciosos artigos de fé" e que "não se deve imputar-lhes a culpa se caíram em erro por ignorância" (citado em Bianchi, op. cit., p. 189, que remete à Summa Theologica 11. H q. 2, a. 6 ad 2um).

O terceiro passo adiante diz respeito à justificação de erros com os quais é preenchido o vazio do falho conhecimento da verdade. "A fé católica do nosso povo – e também a dos índios – pode conter implicitamente muitas consequências (especialmente de comportamento humano) que não são explicitamente conhecidas, e, como não o são, é fácil que sejam suplantadas por outros juízos e critérios provenientes de uma experiência natural largamente enraizada, que é estranha à fé. E, nisso, não são imputáveis, de fato, a sua própria 'simplicidade' os impede de conhecer a conexão lógica necessária entre a verdade professada e o seu conteúdo implícito" (ibid. p. 189 s.).

Tello especifica: "A essa fé 'obscura', que é principalmente crer em Deus, aderir a Ele e tender a Ele mesmo quando não se tem 'luzes' consideráveis para conhecê-Lo, parece se referir o apóstolo Tiago quando assume como óbvio que os pobres são ricos na fé (cf. Tg 2, 5); de fato, eles não costumam se distinguir pela altura ou pela variedade dos conhecimentos e, mesmo assim, mantêm firme adesão e tensão em relação a Ele e o próprio autor reconhece que a sua fé é sobrenatural, dom de Deus" (ibid. p. 192).

O cardeal Bergoglio, no dia 12 de maio de 2012 (10 meses antes de ser eleito bispo de Roma), na Faculdade Teológica de Buenos Aires, reconheceu o valor dessas reflexões e concluiu: "A Igreja fez uma opção preferencial pelos pobres, e isso deve nos levar a reconhecer e a apreciar as suas maneiras culturais de viver o Evangelho. É bom e é necessário que a teologia se ocupe da piedade popular, é o 'precioso tesouro da Igreja Católica na América Latina', disse-nos Bento XVI, inaugurando a Conferência de Aparecida. [...] Por isso, pode-se dizer [...] que aquilo que os nossos pobres expressam na sua piedade popular brota de uma fé verdadeira e que, dessa fé, brota também uma atitude cristã perante a vida" (J. M. Bergoglio, Prefácio em Bianchi, p. 18 e 19).

Ele defende que, no difícil contexto dos anos 1970, Tello "fielmente buscou caminhos para a libertação integral do nosso povo" (id., ibid., p. 21), valorizando a piedade popular com "um pensamento teológico sólido do qual podemos nos valer para apreciar essa espiritualidade nas suas verdadeiras dimensões" (id., ibid., p. 18).

Os erros não ofuscam o testemunho de fé dos simples.

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