Romero e os que não aplaudem

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Por: Jonas | 25 Mai 2015

No Centro Dom Romero, localizado no coração da Universidade Católica, Jon Sobrino (foto) se movimento como se estivesse dançando. Fundou-o após o massacre de seus irmãos jesuítas – “não acabei como eles só porque estava na Tailândia”, recorda – e a ele se dedica como se fosse a última missão de sua vida, que já chega aos 77 anos. Uma média de vinte anos a mais do que os que viveram Ignacio Ellacuría e seus companheiros, derrubados pelas balas assassinas, no dia 16 de novembro de 1989.

A reportagem é de Alver Metalli, publicada por Tierras de América, 22-05-2015. A tradução é do Cepat.

 
Fonte: http://goo.gl/DqN2iz  

Jon Sobrino conhece muito bem as resistências, as acusações de esquerdista e de amigo dos guerrilheiros que choviam contra Romero, em El Salvador, e que contava com ouvidos condescendentes em Roma. Por isso, não pode deixar de se alegrar pela beatificação. Entretanto, não é bem assim. Ou ao menos é preciso abalizar muitas coisas a esse respeito. Perguntamos-lhe se, anos atrás, imaginaria que pudesse chegar um dia como hoje, como o de sábado, 23 de maio, para maior exatidão. Na sala principal do mausoléu dos “mártires da UCA”, agita o corpo magro e faz uma provocação “Nunca me interessou”. Volta a repetir, para que fique bem claro. “Sério... digo isto seriamente: nunca me interessou a beatificação de Romero”. Aguardamos o seu esclarecimento. Deve haver um, o que ele acaba de dizer não pode ser sua última palavra. “Quando o mataram, as pessoas daqui – não os italianos e muito menos o Vaticano –, os salvadorenhos, nossos pobres, disseram imediatamente: ‘É santo!’. Pedro Casaldáliga, quatro dias depois, escreveu um grande poema: ‘São Romero da América, pastor e mártir nosso!’”.

Também recorda que Ignacio Ellacuría, abatido, a poucos metros do lugar onde nos encontramos, “três dias após o assassinato de Romero, presidiu uma missa, em uma sala da UCA, e na homilia disse: “Com dom Romero, Deus passou por El Salvador”. Respira fundo como se lhe faltasse o ar. “Isto sim. Nunca teria imaginado que alguém pudesse dizer algo assim. Tudo bem que ele seja beatificado: demoraram 35 anos, mas não é o mais importante”. Certifica-se de que o interlocutor tenha recebido o golpe. “Entende o que eu estou te dizendo?”, exclama com um sorriso indulgente em seus lábios finos. Por toda resposta que oferece, recebe outro pedido de explicação. “Percebe-se que você não está convencido de algo do que está ocorrendo...”. Perto de nós, estão descarregando os pacotes com o último número de “Carta a las Iglesias”, a revista que ele dirige. “Tudo bem que o beatifiquem, não disse que não, mas teria preferido que fosse de outra maneira... e ainda não sei o que o cardeal Angelo Amato irá depois de amanhã; não sei, não sei se suas palavras irão me convencer ou não”.

Contudo, Sobrino não poderá ouvir a homilia do Prefeito que vem de Roma, ou não quer escutá-la. “Sabemos que sairá, que programou uma viagem e que no sábado não estará na praça junto com todos. “Fez isto de propósito?”. Demora para responder, como se estivesse querendo saber como essa informação se tornou conhecida. Em seguida, vem o esclarecimento: “Vou ao Brasil, porque no Rio de Janeiro será comemorado os 50 anos da revista 'Concilium'. Trabalhei nessa revista nos últimos 16 anos. Devo fazer um discurso e me retirar da revista. A beatificação coincide com este encontro. Não é que eu vou, verei pela televisão a cerimônia de beatificação e, um pouco antes do meio-dia, irei para o aeroporto”. Dezesseis anos na 'Concilium' e Sobrino que se retira no dia da beatificação de Romero. Isto também é uma notícia. Na parede que temos à frente, os “Padres da Igreja latino-americana” escutam muito sérios. A galeria se inicia com dom Gerardi, assassinado na Guatemala em 1998, e prossegue com o colombiano Gerardo Valente Cano, o argentino Enrique Angelelli, assassinado em 1976, Hélder Pessoa Câmara, brasileiro com cheiro de santidade, o mexicano Sergio Méndel Arceo, com outro compatriota ao lado, Samuel Ruiz, e o equatoriano Leónidas Proãno, acompanhados por dom Roberto Joaquín Ramos (El Salvador, 1938-1993) e o padre Manuel Larrain, chileno e fundador do CELAM, para terminar com o sucessor de Romero, o salesiano Arturo Rivera y Damas, figura chave na história de Romero e injustamente ignorado nas celebrações destes dias.

No sábado, ao meio-dia, segundo o programa divulgado pelo Comitê para a beatificação, deverá ser lido o decreto que incluirá formalmente o servo de Deus, Óscar Arnulfo Romero y Galdámez, entre os beatos da Igreja Católica. Provavelmente, Jon Sobrino não terá tempo de ouvi-lo. Porém, isto não o preocupa. Explica suas razões, de certa forma, apresentando o material de “Carta a las Iglesias”, ano XXXIII, número 661, que tem como capa um mural que representa Romero estendendo a mão para a filha de um camponês, que acaba de cortar um cacho de bananas com uma foice. “Dois artigos são críticos. O padre Manuel Acosta critica a atuação da comissão oficial de preparação da beatificação. Luis Van de Velde é mais crítico com a hierarquia. Questiona se dom Romero se reconheceria no dia de sua beatificação. Há muito tempo que alertamos para que não beatifiquem um dom Romero aguado. Existe esse risco; esperamos que beatifiquem um Romero vivo, mais cortante que uma espada de dois gumes, justo e compassivo”.

As roupas que os jesuítas amigos e colegas seus vestiam, no último dia de sua vida, são exibidas penduradas em uma vitrine na sala ao lado, como se estivesse em um armário. A batina marrom de Ellacuría, um roupão, dois shorts um pouco amarelados, todos perfurados pelos projéteis que os militares não se incomodaram em poupar. É natural pensar neles e no processo de sua beatificação que começou há pouco. “Isso também não me preocupa”, exclama Sobrino. “Nesse dia, estava na Tailândia e por isso não me mataram. Vi correr o sangue de muita gente em El Salvador, não me interessam as beatificações, espero que minhas palavras ajudem a conhecer mais e melhor Ellacuría, procuramos seguir seu caminho. Isso é o que me interessa”. Nem sequer um sinal de reconhecimento para o Papa argentino que impulsionou a causa de Romero? “Não, não me interessa aplaudir, e se aplaudo não é pelo fato de que o Papa seja argentino ou jesuíta, mas, sim, pelo que diz, pela maneira como se comportou em Lampedusa, por exemplo. O que me interessa é que exista alguém que diga que o fundo do Mediterrâneo está cheio de cadáveres. Eu não aplaudo a ressurreição de Jesus. Aplaudir não é coisa minha”.

A atenção se dirige agora para depois de amanhã (23-05-2015). “Vi horrores que nunca foram denunciados da forma como dom Romero os denunciava. Veremos se suas palavras ressoarão no sábado”. Para estar seguro de que não seja mal interpretado, Jon Sobrino as recita de memória. “’Em nome de Deus e em nome deste povo sofredor, peço-lhes, rogo-lhes, ordeno-lhes, em nome de Deus, que parem com a repressão’. Ouvi isto dele e ficou gravado em minha cabeça”.

O resto de seu pensamento sobre Romero, um Romero “não adocicado”, o Romero “real”, encontra-se no artigo que escreveu para a Revista Latino-Americana de Teologia, da Universidade Católica, de cujo conselho editorial participam figuras, entre outros, como Leonardo Boff, Enrique Dussel e o chileno Comblin. “Mostro o que dom Romero sentiu e disse no último retiro espiritual que pregou, um mês antes de ser assassinado; em seguida, ofereço três pontos de reflexão que considero importantes. Recordo que um camponês disse: ‘Dom Romero defendeu a nós, os pobres; não apenas nos ajudou, não fez somente a opção pelos pobres, que isso já é um lema. Saiu em defesa dos pobres. E quando se vem em defesa, é porque alguém necessita de defesa, e necessita de defesa aquele que é atacado. Por isso – disse com segura certeza este camponês – eles o mataram’. Madre Teresa que era boa e não incomodava ninguém, recebeu o Prêmio Nobel; dom Romero que causou incômodo, não recebeu nenhum Prêmio Nobel”.

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