A Igreja dos EUA conseguirá lidar com a sinodalidade?

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28 Mai 2021

 

A decisão do Papa Francisco de adiar e ampliar o planejado Sínodo de 2022 é extraordinária e convida a todos a pararem e a respirarem fundo.

O comentário é de Michael Sean Winters, publicado por National Catholic Reporter, 26-05-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O tema planejado – “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão” – continua o mesmo, mas os novos meios adotados são agora mais intrinsecamente adequados a tal tema.

O Sínodo dos Bispos tem mudado no século XXI. Anteriormente, com o Papa João Paulo II, eles eram eventos obsoletos, em que os bispos liam discursos enlatados e emendavam um texto que havia sido preparado com antecedência.

O Papa Bento XVI introduziu a inovação de permitir que qualquer pessoa falasse sobre qualquer assunto na hora final da assembleia geral de cada dia, o que eu chamei de “hora do karaokê”.

O Papa Francisco aumentou ainda mais a quantidade de diálogo genuíno em cada sínodo e agora irá ampliar esse diálogo com um período universal de preparação em nível diocesano, seguido por um diálogo em nível continental e, enfim, o encontro em Roma.

Além disso, como deixou claro o cardeal Mario Grech, secretário-geral do Sínodo dos Bispos, ao anunciar o novo calendário, a consulta visa a incluir todo o povo de Deus. “O princípio que regula essa consulta ao povo de Deus é o antigo princípio de que ‘o que interessa a todos deve ser discutido por todos’”, disse Grech em uma entrevista ao Vatican News. “Não se trata de democracia, de populismo ou de qualquer coisa do gênero. Pelo contrário, é a Igreja sendo povo de Deus, e esse povo, por causa do batismo, é um sujeito ativo da vida e da missão da Igreja.”

As Igrejas da América Latina foram as mais bem-sucedidas até agora no desenvolvimento de um processo sinodal com os encontros da sua conferência episcopal de nível continental, o Celam. Os encontros incluem muita oração, começando com uma oração juntos por vários dias antes de se passar para os temas de trabalho. Os documentos que elas produziram – em Medellín, Puebla, Santo Domingo, Aparecida – estão entre os textos pós-conciliares teologicamente mais férteis.

O eclesiólogo Massimo Faggioli escreveu recentemente sobre a sinodalidade – embora antes do anúncio do Vaticano – e sobre as formas como ela reflete ou não modelos de organização sociopolítica na cultura.

“A moderna teologia da sinodalidade tem origem cronologicamente na teologia contemporânea da Igreja Católica e geograficamente nas sociedades da ordem liberal-democrática no hemisfério ocidental”, escreveu ele. “Isso não é apenas uma coincidência.”

Esperamos que Faggioli e outros teólogos expliquem essa falta de coincidência com mais detalhes! Teólogos, liguem seus motores!

Na realidade, Faggioli já tem outra coluna sobre esse assunto que examina algumas das questões globais com mais detalhes.

Certamente, na história da Igreja nos Estados Unidos, os concílios provinciais e, mais tarde, os concílios plenários de Baltimore refletiam um modelo sinodal do século XIX. No século XX, a Conferência Episcopal às vezes canalizava uma abordagem semelhante, superando amplas diferenças de opinião no início de uma discussão e, mesmo assim, forjando um consenso. Por exemplo, a sua carta pastoral de 1983 intitulada “The Challenge of Peace: God's Promise and Our Response” [O desafio da paz: a promessa de Deus e a nossa resposta] foi debatida por mais de dois anos, e a votação final foi quase unânime, com 238 votos contra 9.

Em 2004, sobre a contenciosa questão da Comunhão para políticos pro-choice, a Conferência Episcopal adotou o documento intitulado “Catholics in Political Life” [Católicos na vida política] por uma votação de 183 contra 6.

Nos últimos anos, lamentavelmente, os bispos dos Estados Unidos perderam grande parte da sua capacidade de trabalhar juntos. Na realidade, eles não parecem gostar muito uns dos outros, por isso eu não sei como eles conseguirão se engajar nesse novo e promissor processo sinodal.

Consideremos a recente diatribe do ex-arcebispo da Filadélfia, Charles Chaput, na First Things. Ele invoca “as Escrituras e a prática constante da Igreja” ao defender a negação da Comunhão para políticos pro-choice, embora essa abordagem seja praticada apenas nos Estados Unidos, como relatou o meu colega Christopher White.

E Chaput disse que era “imperdoável” o fato de o bispo de San Diego, Robert McElroy, ter defendido que a adoção da abordagem de Chaput seria vista como uma tentativa de transformar a Eucaristia em uma “arma”, embora seja exatamente assim que ela está sendo percebida.

O artigo de Chaput veio depois que o Vaticano interveio com uma carta do cardeal Luis Ladaria, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que escreveu ao arcebispo José Gomez, presidente da Conferência Episcopal e ex-auxiliar de Chaput, lembrando Gomez e o episcopado dos Estados Unidos que, durante as suas visitas ad limina em 2019-2020, “esta Congregação aconselhou que se empreendesse o diálogo entre os bispos para preservar a unidade da Conferência Episcopal diante das divergências sobre esse tema controverso”.

Ou seja, a unidade eclesiológica não pode ser sacrificada ao desejo de uma postura moral e política mais estridente. Pelo menos no Vaticano, a redução da religião à ética e, portanto, à política, tão comum nos Estados Unidos, não se consolidou. Graças a Deus!

Uma falta ainda mais flagrante do tipo de solidariedade necessária para que a sinodalidade funcione foi demonstrada na segunda-feira passada pelo bispo Joseph Strickland, de Tyler, Texas. Depois que o bispo William Callahan, de LaCrosse, Wisconsin, pediu que o Pe. James Altman renunciasse ao cargo de pároco da Igreja de São Tiago Menor devido a diversas boas razões [incluindo o fato de dizer aos fiéis católicos que eles não podiam votar no Partido Democrata nas eleições presidenciais dos EUA em 2020, além de ignorar os protocolos de segurança contra a Covid-19 e fazer uma série de comentários racistas e xenófobos], Strickland tuitou uma nota de apoio ao padre!

Uma coisa é discordar de um irmão bispo sobre uma questão de política pública, mas outra bem diferente é questionar o seu exercício da disciplina sobre o seu próprio clero, especialmente quando essa autoridade foi exercida com tanta paciência. Isso é algo inédito e não é um convite à esperança de que todos os bispos dos Estados Unidos estão preparados para abraçar um caminho sinodal.

Existem dificuldades entre alguns católicos mais liberais com a sinodalidade. Em um parênteses no artigo acima mencionado, Faggioli escreveu: “Essa é uma das razões pelas quais as medidas puramente sociológicas usadas para entender a Igreja continuam sendo fundamentalmente protestantes e anglo-americanas e inadequadas para compreender o catolicismo global”. E, como alertou o Papa Francisco, a sinodalidade não é parlamentarismo. Devemos abordar essas questões em outra ocasião.

O que importa agora é que o papa convidou a Igreja universal a considerar uma forma diferente de se organizar e de enfrentar seus desafios. O modelo da monarquia papal, que foi tão pronunciado nos últimos dois séculos, serviu muito bem à Igreja universal, mas os tempos em que vivemos e as realidades socioculturais em que a Igreja deve evangelizar exigem uma nova abordagem. O Papa Francisco está apontando o caminho.

É obrigatório que todos os católicos sigam a sua liderança, da melhor forma que puderem e de boa-fé. E, se alguns bispos – e alguns leigos! – simplesmente não conseguem suportar a visão uns dos outros e se perguntam como podem começar a construir aquela colegialidade afetiva tão necessária para fazer a sinodalidade funcionar, precisamos apenas reler a abertura da segunda leitura do Domingo de Pentecostes, da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios:

“Irmãos, ninguém pode dizer: ‘Jesus é o Senhor’, a não ser no Espírito Santo.”

Que todos aqueles que dizem “Jesus é o Senhor” se manifestem. O Espírito já está agindo neles.

 

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