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25 Mai 2021

 

"Um bom exercício nesse sentido poderia ser aquele de evitar estar sujeito às leis da burocracia (mesmo eclesial), que muitas vezes imagina e realiza suas próprias reformas instituindo novos órgãos (muitas vezes duplicados de outros) que acabam por duplicar também a 'incrustação' que se gostaria de 'purificar', quando se deveria valorizar - e depois fortalecer, até mesmo institucionalizando-o - o que na Igreja já está em saída extroversa há algum tempo", escreve Sergio Ventura, jurista italiano, em artigo publicado por Vino Nuovo, 24-05-2021. A tradução é de  Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Depois de dois anos de espera, volta a se reunir presencialmente também a Conferência Episcopal Italiana. Serão dias em que serão discutidas e decididas questões importantes. Entre outras, a nomeação dos presidentes das (renovadas?) Comissões Episcopais (já expiradas há mais de um ano) e a instauração do futuro processo sinodal italiano - cada vez mais inevitável dado o status de sínodo permanente em que Francisco colocou a Igreja universal. A esse respeito, indicações interessantes podem ser encontradas no discurso que o Papa Francisco dirigiu no dia 30 de abril aos membros do conselho nacional da Ação Católica Italiana (AC). Dado que tal discurso (este também, alguns diriam) passou um pouco despercebido - e antes de ouvir aquele desta tarde - vale a pena chamar a vossa atenção na esperança de que os nossos olheiros encontrem pistas de caminhos e ideias de inspiração.

Sobre a Igreja sinodal, o bispo de Roma foi muito claro sobre as ênfases que deveriam ser colocadas do ponto de vista pastoral e teológico. É uma questão de praticar "uma forma de escuta elevada e exigente", mas - atenção! - no sentido teológico de “escuta do Espírito e daquela voz de Deus que nos alcança através do grito dos pobres e [dos] pecadores”. Em outras palavras, trata-se de "redescobrir e anunciar na história os sinais da bondade do Senhor", porque Ele já está "caminhando 'incógnito' na história", sem que isso signifique “diluir" ou "aguar" a evangelização.

Tudo isso nada mais é do que o que esperávamos aqui com Gilberto Borghi e Sergio Di Benedetto quando escrevemos que hoje não é tanto o mundo que perdeu Cristo (e sua divindade), mas a comunidade eclesial que se esqueceu - ou não é mais tão convicta - do que foi ensinado pelo Concílio Vaticano II (GS 44) sobre a relação com o mundo e com o Deus unitrino que nele já opera e nos antecipa. Ou, da mesma forma, o que está implícito na análise que propus dos gestos e palavras em Sanremo de Achille Lauro ou na defesa (se necessário) do caminho teológico de Hans Kung ou da coluna dominical editada pelo Padre Spadaro no Il Fatto Quotidiano.

Por outro lado, só se a recomendação antropológica dirigida pelo Papa à Igreja - "escutar os vossos territórios, sentindo as suas necessidades, entrelaçando relações fraternas" e ser "fermento do diálogo" - não é um fim em si mesma, não é o "olhar-se no espelho" da "autorreferencialidade", mas é verdadeiramente um ser "dócil ao Espírito" e à sua "presença", então esta escuta divino-humana poderá realmente ser um "aprendizado" - Deus - de "todos" (incluindo Lauro e Il Fatto quotidiano), um "confrontar-se [e] acolher o imprevisto"- de Deus - que se manifesta por trás e além da aparente "desordem", "barulho", "ruído", "grito"- do humano - que percebemos inicialmente como dissonante e (talvez excessivamente) "revolucionário". Porque, caso contrário, o que o apóstolo afirmou (não por acaso) das pessoas em 1Ts 5,19-21 não faria sentido: “Não extingais o Espírito. Não desprezeis as profecias. Examinai tudo. Retende o bem”. E faria muito mais sentido reconhecer que (ainda) não acreditamos nesta 'coisa' ou que estamos cansados de acreditar nela.

Da mesma forma, somente com base nessas premissas teológicas e antropológicas pode fazer sentido afirmar, com o bispo de Roma, que verdadeiramente o caminho sinodal “não sabemos como vai terminar e não sabemos o que vai resultar” dele. Que se comece "de baixo" (repetido por Francisco três vezes) ou que a "luz do alto para baixo" venha do "estilo" indicado pelo Papa no encontro de Florença de 2015, a questão decisiva para sair de qualquer mal-entendido ou piedosa intenção parece-me ser a seguinte: uma vez completada a "kenosis" desejada pelo Bispo de Roma e nos termos rebaixados com misericórdia, humildade, desinteresse e alegria, "o que fazer" com o pecador – mas, acima de tudo, com o pecado - que encontramos?

De fato, na perspectiva de Francisco, o caminho sinodal também deve ser cuidadoso, por um lado, "partindo da realidade, não das três ou quatro ideias que estão na moda ou que surgiram na discussão", mas, por outro lado, "incidir nela, para fazê-la crescer na linha do Espírito Santo, para transformá-la segundo o desígnio do Reino de Deus".

Porém, se, como Igreja (pensamos aqui na recente entrevista do Cardeal Ruini), estamos certos a priori de que sabemos identificar o pecado e o pecador, efetuando um diagnóstico correto; se, como Igreja estamos certos a priori de saber efetuar um prognóstico correto e saber como cuidar (senão curar) o pecador (senão também seu pecado), como podemos pensar que não são quase zeradas as condições de possibilidade para que se realizem as referidas premissas antropológicas e teológicas? Para que possa acontecer o imprevisto para aprender algo inesperado e inaudito, soprado pelo Espírito do Pai e do Filho já presente nas histórias dos outros? Na "realidade", de fato, o doente evangélico - o pecador - poderia em primeiro lugar recusar diagnóstico, prognóstico e cura (efetivamente) correta.

O que fazer então? Continuar a justificar com mansidão (1 Pd 3,15-16)? Forçar a recebê-la (Lc 14:23)? Tomar ciência e sacudir o pó das sandálias (Mt 10,14)? Discordar e fulminar (Lc 9,54)? Mas acima de tudo - este é o ponto decisivo - o diagnóstico, prognóstico e cura do pecado poderiam ser revelados a posteriori, pela graça de Deus que está no (suposto) pecador, tais a serem corrigidos segundo o que se revela a ser a posteriori o (novo ou verdadeiro) "projeto do Reino de Deus", a (nova ou verdadeira) "linha do Espírito Santo", que pensávamos conhecer a priori. O que fazer então? Se transforma, se faz crescer, se corrige a realidade (presumida) pecaminosa (mas que se revelou inspirada)? Ou se transforma, se faz crescer, se corrige a doutrina (que se revelou incompleta)?

Não estava Francisco também aludindo a tais problemáticas, quando no discurso de Florença de 2015 convidava a Igreja italiana a se relacionar com os pecadores encontrando-os, mesmo em segredo (Jo 3,1-21)? Comendo e bebendo com eles (Mc 2,16; Mt 11,19)? Conversando (Jo 4,7-26) e deixando-se tocar por eles (Lc 7,36-50)? Sobretudo dialogando com eles até se irritando, mas sempre acolhendo sua "crítica" e fazendo o "êxodo necessário" para que toda nossa teologia não se transforme em "ideologia"? E praticando tudo isso antes - e talvez além - de cada uma de nossas "denúncias" e "respostas claras diante das ameaças que surgem no debate público"? É claro que mesmo apenas abordando essas questões um sínodo teria muito material para discutir e orar.

Assim como é igualmente claro que a razão pela qual em seu discurso ao AC, o Papa Francisco afirma que o caminho sinodal deve levar a "escolhas praticáveis" que sejam fruto, não apenas de uma "discussão" e de um "acordo" de "maioria", mas também de "oração, silêncio, discernimento", não reside em alguma hostilidade para com formas de 'parlamento católico", mas na consciência da complexidade tanto das problemáticas a enfrentar como das possíveis "soluções ": também aqui, acreditamos e esperamos que o desejo do Papa dependa da convicção de que cada debate sinodal necessário e fundamental se abra, no Espírito, às "ousadas e criativas", mas muitas vezes não imediatamente compreensíveis, profundidades (da vontade ) de Deus (1 Cor 2,10).

Neste ponto, também se torna certo que o tipo de pessoa que deveria encarnar esse estilo teológico e pastoral, esse tipo de paradoxal "presença [que] não faz barulho" - e, portanto, capaz de interceptar o Espírito - se parece muito com o adivinho ou com as sondas lançado no espaço, e se realmente não pudermos (ou quisermos) nos colocar em saída, pelo menos no Telescópio Espacial Hubble. Mas mesmo nisso, em vista das novas nomeações, o Papa foi claro: em primeiro lugar, os "programas", os "projetos" e os respectivos "organogramas" são, na melhor das hipóteses, um "ponto de partida", dando início à "inspiração", senão, ou na sua ausência, acabamos no descuido desorganizado (como advertia Daniele Gianolla), ou se tornam "planos" pouco evangélicos de "conquista", defensores da "ilusão de funcionalismo" e das "coisas perfeitas" (segundo o que parece ser o medo principal de Francisco).

Em segundo lugar, o "direito" que os leigos têm à sua "promoção" e à escuta da sua "voz" nunca deve tornar-se sua "clericalização". Essa heterogênese de fins, entretanto, parece ser inevitável até que, como sugerido por Andrea Grillo e Serena Noceti, não sair do uso equívoco do termo "leigo" e, eu acrescentaria, não for entendido como Igreja que, quando estamos em saída ou extrovertidos, o outro 'procurado' não pode ser e nem deve refletir o a priori que já possuímos: caso contrário - novamente - como tornar possível o evento de que o outro 'encontrado' no final da saída seja, na verdade, um "imprevisto" a partir do qual "aprender" algo - de Deus - não já conhecido?

Um bom exercício nesse sentido poderia ser aquele de evitar estar sujeito às leis da burocracia (mesmo eclesial), que muitas vezes imagina e realiza suas próprias reformas instituindo novos órgãos (muitas vezes duplicados de outros) que acabam por duplicar também a "incrustação" que se gostaria de "purificar", quando se deveria valorizar - e depois fortalecer, até mesmo institucionalizando-o - o que na Igreja já está em saída extroversa há algum tempo (por exemplo, em Vino Nuovo, muitas vezes indicamos os professores e os noivos). Desde que aconteça, essa saída extroversa, da maneira acima auspiciada: não obcecada em transmitir a outros um depositum fidei já d(o)ado e embalado, mas desejosa por descobrir nos outros o que atualizará e reviverá aquele depositum fidei; não centrada exclusivamente no própro dom - recebido de Deus no passado – a ser presenteado aos outros, mas também e talvez hoje sobretudo no dom, no presente - de Deus - que os outros podem ser para nós.

 

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