Dunas gaúchas reduzem 33% em 35 anos. Preservação efetiva depende de criação de Unidades de Conservação. Entrevista especial com Lilian Wetzel

Para oceanógrafa, legislação que protege como Área de Preservação Permanente não tem sido suficiente e o desaparecimento da faixa de dunas pode deixar o continente ainda mais exposto à ações de mudanças climáticas

Foto: Carlos Eduardo Soares

Por: João Vitor Santos | 02 Dezembro 2021

 

Quando olhamos a paisagem de dunas, não imaginamos o turbilhão de vida contido nela. “As dunas costeiras são um ambiente de transição entre o mar e a terra formado a partir do equilíbrio entre o vento, o sedimento e uma superfície, uma área de praia exposta”, define a oceanógrafa Lilian Wetzel, que atua junto ao Projeto Dunas Costeira. Na entrevista, concedida através do envio de áudios via WhatsApp ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, ela ainda acrescenta que “a importância das dunas pode ser resumida pelos serviços ecossistêmicos que ela presta”.

 

Esses serviços consistem tanto na manutenção da vida contida na duna quanto a proteção de outros ambientes. “Além da conservação da biodiversidade, elas prestam um serviço de proteção da costa contra a ingressão de água do mar, em eventos de ressacas”, explica. E como vivemos tempos de consequências drásticas das mudanças climáticas, as dunas são ainda mais necessárias. “A função de defesa da costa se torna ainda mais evidente em face das mudanças do nível médio do mar, com uma elevação do nível das águas que pode ser causada ou agravada pelas mudanças climáticas”, detalha.

 

No entanto, esse ambiente está sendo ameaçado por ação direta do ser humano. Segundo dados divulgados recentemente pelo Projeto de Mapeamento Anual do Uso e Cobertura da Terra no Brasil, o MapBiomas, a faixa de dunas reduziu 33% nos últimos 35 anos no Rio Grande do Sul. As principais causas são, segundo Lilian, “a extração direta de areia da duna para uso em aterros durante os processos de urbanização de balneários” e a própria ocupação humana do litoral que, muitas vezes, “também gerou a eliminação das dunas para edificação direta sobre essa porção do território”. “Algumas fontes de impacto humano à biota incluem o despejo de lixo de toda ordem e a introdução, deliberada ou acidental, de espécies invasoras. A presença de animais domésticos nas dunas pode também trazer prejuízo a espécies animais e vegetais”, acrescenta Lilian.

 

Isso significa que até mesmo aquela caminhada inocente sobre as dunas com seu cão de estimação gera impactos, porque os animais que vivem ali, especialmente roedores como o tuco-tuco, se sentem ameaçados. “Esses cachorros, com ou sem donos, correm soltos e sabidamente cavam as tocas de tuco-tucos atrás desses animais”, exemplifica. Também há vacas e cavalos que pastam sobre a vegetação local e outras espécies de plantas não nativas que são jogadas na faixa de areia e acabam se afixando. Ou seja, de uma forma ou outra se afeta o equilíbrio do ambiente impactando sua fauna e flora, o que também levam a deterioração da duna em si.

 

Para Lilian e demais pesquisadores e ativistas que trabalham com dunas, essa redução evidencia que é preciso uma mudança da forma de proteção desses ambientes. Hoje, esses locais são considerados Área de Preservação Permanente, uma classificação que tem se mostrado pouco efetiva na preservação, segundo especialistas. “Nós entendemos que a proteção efetiva do ecossistema de dunas será através da criação de Unidades de Conservação nessa porção do território”, dispara. A oceanógrafa explica que essa classificação permite a obtenção de mais recursos para serem investidos em estudos, ações educativas e outras medidas para preservação das dunas. Além disso, essa classificação marca “muito claramente o perímetro que vai ser protegido”. E, ainda, “é possível pensar uma categoria de manejo que seja bem adequada à realidade local, para que se tenha a melhor harmonização entre a proteção desse ambiente e as demais necessidades da sociedade”.

 

Lilian Brum Wetzel (Foto: Arquivo Nema)

 

Lilian Brum Wetzel possui graduação em Oceanologia pela Universidade Federal do Rio Grande – FURG, graduação em Direito pela Universidade Católica de Pelotas – UCPel e mestrado em Engenharia Ambiental pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Atua hoje como gestora de projetos, sendo coordenadora do Projeto Dunas Costeiras, junto ao Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental/NEMANema), sediado em Rio Grande, além de prestar consultoria para projetos internacionais.



Confira a entrevista.

 

IHU – O que são as dunas e quais são as interferências que podem trazer danos ao ecossistema?

 

Lilian Wetzel – As dunas costeiras são um ambiente de transição entre o mar e a terra formado a partir do equilíbrio entre o vento, o sedimento – que no caso é uma areia fina, muito facilmente transportada pelo vento – e uma superfície, uma área de praia exposta. A interferência em qualquer um desses três fatores afeta esse equilíbrio, o que pode ser tanto causado pelo ser humano ou advinda de causas naturais.

Alguns exemplos de interferência sobre o ambiente físico são, por exemplo, a extração direta de areia da duna para uso em aterros durante os processos de urbanização de balneários, como foi feito em várias partes do Brasil. A ocupação humana do litoral muitas vezes também gerou a eliminação das dunas para edificação direta sobre essa porção do território. Em casos específicos, a redução no aporte de sedimento a uma determinada praia pode também afetar as dunas, reduzindo o sedimento disponível para sua manutenção.

Neste ambiente, pela interação dos três fatores com a vegetação, desenvolve-se um ecossistema de alta biodiversidade, caracterizado por espécies altamente especializadas e tolerantes à insolação, seca, salinidade e mobilidade do sedimento. Desta forma, também o componente biológico, fauna e flora, pode ser afetado pelas interferências humanas ou alterações de ordem natural. Algumas fontes de impacto humano à biota incluem o despejo de lixo de toda ordem e a introdução, deliberada ou acidental, de espécies invasoras. A presença de animais domésticos nas dunas pode também trazer prejuízo a espécies animais e vegetais.

Por este motivo, as dunas são protegidas pela lei em diferentes níveis, em especial como Áreas de Preservação Permanente, mas também podendo integrar uma Unidade de Conservação ou ser objeto de licenciamento ambiental para fins de regramento das atividades de manejo feitas pelos municípios. O Projeto Dunas Costeiras foi criado em 1989 dentro do NEMA, uma organização privada sem fins lucrativos que atua há mais de 30 anos na conservação ambiental, e desde então subsidia tecnicamente as medidas de manejo realizadas por prefeituras municipais dentro da APP de dunas, promovendo a informação e a participação da sociedade na luta por uma proteção efetiva deste ambiente.

 

 


IHU – Qual a importância das dunas para os ecossistemas costeiros?

 

Lilian Wetzel – A importância das dunas pode ser resumida pelos serviços ecossistêmicos que elas prestam, como a conservação da biodiversidade e a proteção da costa contra a ingressão de água do mar, em eventos de ressacas. Elas atuam como uma barreira física, mas principalmente como um repositório de sedimentos que será “entregue” ao mar quando este subir, recebendo-os de volta quando retornarem as condições de calmaria. A função de defesa da costa se torna ainda mais evidente em face das mudanças do nível médio do mar, com uma elevação do nível das águas que pode ser causada ou agravada pelas mudanças climáticas.

 

Exemplo da ação das dunas para a contenção de ressaca do mar no litoral sul | Foto: Renato V. Carvalho

 

E as dunas também são importantes pela proteção do lençol freático nas áreas retrostantes contra a ingressão de água salgada e pelas oportunidades de lazer que elas representam através de sua função estética e terapêutica.

 

Biodiversidade nas dunas

 

Já com relação à conservação da biodiversidade, temos nas dunas espécies de fauna e de flora altamente especializadas e adaptadas a essas situações inóspitas de insolação, seca, salinidade instabilidade/mobilidade do substrato. E temos também uma grande diversidade biológica nos ambientes associados, como é o caso dos sangradouros, esses pequenos arroios que cortam as dunas e drenam nossos banhados aqui no Rio Grande do Sul. Os sangradouros têm importância especial para alimentação e repouso de aves migratórias e oferecem também uma área para descanso a pinípedes em atividade de migração.

 

Sangradouro | Foto: Carlos Eduardo Soares

 

Ainda podemos considerar que todo esse ecossistema representa também o habitat de algumas espécies de distribuição bem restrita - e muitas delas já estão ameaçadas em algum grau. Nós podemos citar, por exemplo, aqui no Rio Grande do Sul, especialmente o tuco-tuco das dunas (“Ctenomys flamarioni”). É uma das quatro espécies de tuco-tucos existentes no nosso estado, e é uma espécie endêmica, que tem a distribuição muito restrita. Considerando o mundo inteiro, ela só ocorre aqui no nosso estado, de Torres ao extremo norte do Uruguai. E essa espécie, o tuco-tuco das dunas, está ameaçado de extinção.

 

Tuco-tuco das dunas na saída da toca e se alimentando da vegetação típica das dunas gaúchas (Capim das dunas – “Panicum racemosum”) | Foto: Carlos Eduardo Soares

 

Nós também temos a Capotirágua (“Blutaparon portulacoides”), uma plantinha suculenta e avermelhada que ocorre na formação das primeiras dunas embrionárias, e que está ameaçada de extinção no nosso Estado na categoria “Vulnerável” (VU). E temos registro de muitas outras espécies ameaçadas de extinção ou que, mesmo não ameaçadas, estão em algum outro status preocupante, e que vivem ou se alimentam em nossas dunas. Esse é o caso de alguns mamíferos, como a lontra, que ocorre próxima das dunas, nesses arroios, o gato-do-mato e o tatu mulita. Também devemos destacar o piru-piru, uma ave que nidifica nas dunas. Ou seja, temos uma gama de espécies que têm um status de conservação preocupante e que dependem de nossas dunas.

 

Capotirágua (Blutaparon portulacoides) | Foto: Carlos Eduardo Soares

 

Para termos uma ideia, o NEMA realizou, recentemente, um estudo nas dunas no município de Rio Grande, que é caracterizado por uma extensão de 62 quilômetros lineares de dunas bem conservadas. Ali foi feito o levantamento das espécies de fauna e flora existentes nas dunas e nesses arroios sangradouros, e chegamos a 205 espécies de fauna e 188 espécies de flora. De todas essas espécies, nove já foram identificadas como ameaçadas de extinção. Elas foram identificadas dentro das listas mundial, nacional e estadual, que são os níveis em que se definem essas ameaças, dentro das categorias de “Em perigo” (EM), “Criticamente em perigo” (Cr) e “Vulnerável” (VU) Outras 11 espécies também foram identificadas como de status preocupante, que ainda não são ameaçadas de extinção, mas que já levantam preocupação e exigem cautela. São espécies classificadas nas categorias de “Quase ameaçada” (NT) e “Dados deficientes” (DD).

 

 

IHU – Segundo dados do MapBiomas, as dunas e praias do Rio Grande do Sul encolheram 33% nos últimos 35 anos. Como proteger as dunas?

 

Lilian Wetzel – Para que esse ecossistema seja devidamente protegido e para que os serviços ecossistêmicos sejam devidamente prestados, devemos garantir sua proteção no nível de sua extensão, continuidade e integridade. A proteção das dunas, hoje no Brasil, de forma genérica, é uma proteção como Área de Preservação Permanente (APP). Isso vem determinado em nível federal através de uma Resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente – Conama, mas vem também depois corroborado em normas estaduais e municipais de outros níveis. No entanto, esse arcabouço de proteção como APP não tem sido suficiente para barrar as ameaças que as dunas vêm sofrendo e isso é evidente agora com esses dados sistematizados pelo MapBiomas.

Por isso, nós entendemos que a proteção efetiva do ecossistema de dunas se dá somente através da criação de Unidades de Conservação nessa porção do território - como vem ocorrendo já em várias partes do Brasil, onde já foram criadas Unidades de Conservação pelos três níveis da federação, destinadas à conservação de dunas costeiras. As Unidades de Conservação são uma resposta mais eficiente a essas ameaças por vários motivos.

Primeiro, elas definem, delineiam muito claramente o perímetro que vai ser protegido. Segundo, é possível pensar uma categoria de manejo que seja bem adequada à realidade local, para que se tenha a melhor harmonização entre a proteção desse ambiente e as demais necessidades da sociedade. E, ainda, a criação de Unidades de Conservação dentro dos sistemas nacional e estaduais de Unidades de Conservação viabiliza a obtenção de recursos oriundos de compensação ambiental que vão se somar aos recursos já existentes na gestão pública de modo ordinário, permitindo que efetivamente se consigam realizar os serviços necessários de pesquisa, fiscalização, educação e outros que são necessários e característicos para a gestão dessas unidades.

 

 

Exemplo do município de Rio Grande

 

Aqui em Rio Grande [município no extremo-sul do Rio Grande do Sul, distante cerca de 320 quilômetros de Porto Alegre], nós temos um exemplo recente de um processo ainda em curso sobre a criação das Unidades de Conservação em dunas costeiras. Esse projeto vem há alguns anos discutindo e aprofundando a necessidade da criação de Unidades de Conservação nas dunas do município. Essas dunas são um patrimônio valioso não só para a municipalidade, mas para todo o estado do Rio Grande do Sul e para o litoral brasileiro.

 

Localização do município de Rio Grande e as características dos usos da costa no extremo-sul gaúcho | Mapa: reprodução UCS


É uma ideia que data de vários anos, mas que, a partir de 2016, começou a ser aprofundada, inicialmente com recursos do Fundo Municipal do Meio Ambiente e posteriormente com patrocínio da Fundação Grupo Boticário para a Proteção da Natureza. Assim, foram delineadas duas áreas para a criação de duas Unidades de Conservação nas dunas, de categorias de manejos distintas justamente em função dos diferentes usos e das diferentes pressões que esse extenso cordão de 62 quilômetros de dunas recebe. Temos, com isso, a proposta para um Parque Natural Municipal e um Refúgio de Vida Silvestre, de forma a compatibilizar a conservação desse ecossistema com os interesses humanos, direcionando para que os usos ocorram de forma sustentável e dentro dos limites estabelecidos nos futuros Planos de Manejo das Unidades.

 

Área que devem compreender unidades de conservação em Rio Grande | Mapa: redução UCS

 

Depois que os estudos técnicos de caracterização das duas áreas foram finalizados, essas propostas receberam a validação do Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente, COMDEMA, reconhecendo e validando a importância da sua criação aqui no município. Agora, aguardam-se os próximos passos administrativos para que, após o debate das duas propostas com a sociedade em um futuro próximo, elas possam ser encaminhadas para efetiva criação das unidades pelo Legislativo municipal.

 

Problema da redução da faixa de praia

 

Temos ainda na costa do Rio Grande do Sul uma situação de grande retração do litoral. Há muitas partes do nosso litoral que estão em erosão, onde a largura da faixa de praia está reduzindo - em alguns casos, de forma acelerada - em altas taxas, e redução das praias também pode causar a redução das dunas. Mas as dunas sofreram e sofrem ainda uma ação direta e muito significativa, como comentei, de eliminação física para fins de urbanização - pela retirada de areia para os aterros e, essencialmente, pela ocupação dessa porção do território no processo de desenvolvimento dos nossos balneários.

 

 

IHU – Que relação podemos estabelecer entre esses processos e as mudanças climáticas?

 

Lilian Wetzel – A ação de mudanças climáticas sobre as dunas costeiras pode ser dar tanto pela subida do nível do mar quanto pelo aumento da intensidade e frequência das tempestades, nossos ciclones extratropicais. Nos dois casos temos a interação maior do mar com a areia da duna, o que pode resultar numa retirada de sedimento mais intenso.

E as mudanças climáticas também podem afetar a composição das espécies nas dunas, pois as modificações nas condições físicas podem privilegiar algumas espécies nativas e, gerando grande preocupação, favorecer a instalação de espécies exóticas, cujo potencial invasor pode ser agravado tanto pelas perturbações físicas do ambiente (e alteração de parâmetros como insolação, umidade e temperatura) quanto pela alteração na composição original de espécies. Ou seja, essas mudanças podem favorecer a instalação de espécies exóticas, causando um grande prejuízo para as comunidades que já vivem ali, afetando espécies de fauna e flora nativas e a biodiversidade das dunas.

Mas, mais do que serem destruídas pelas mudanças climáticas, as dunas são um exemplo de ambiente de alta resiliência, capazes de lidar com perturbações. A duna é um sistema extremamente dinâmico que responde às pressões com adaptações, mobilidade. Assim, ela funciona como barreira contra a ingressão da água do mar, mas também tem a função de acolher o mar quando ele sobe. Nessa troca de sedimento com o mar, ela se desenvolve, se move e se adapta buscando manter sua característica de ambiente de transição e protegendo os ambientes que estão atrás. São um exemplo, uma inspiração, e devem ser consideradas no desenvolvimento de estratégias para lidarmos com as mudanças e perturbações em ambientes litorâneos.

 

 

 

IHU – Você destacou que o maior impacto sobre as dunas é justamente a urbanização das cidades litorâneas. Como fazer frentes a esse problema em específico?

 

Lilian Wetzel – Realmente, os fatores de ameaça para as dunas estão diretamente ligados à urbanização costeira adjacente. Além da remoção física, problemas como a presença do lixo, a falta de saneamento, a presença de animais domésticos que circulam e de plantas exóticas que são despejadas nas dunas, além das ocupações ilegais de várias ordens, muitas vezes satelitárias, que continuam erigindo construções sobre elas.

 

Deposição de lixo no nas dunas | Foto: Projeto Nema

 

Os impactos pela presença de animais domésticos incluem cães que atacam a fauna, inclusive a ameaçada de extinção. Temos, também, a presença de herbívoros, em zonas mais rurais, como acontece aqui em Rio Grande. São principalmente cavalos e vacas e pastejam sobre espécies de plantas que são responsáveis pelo crescimento da duna e que são o alimento de espécies nativas - como o tuco-tuco das dunas.

 

O capim das dunas (Panicum racemosum) sãoa principal espécie formadora das dunas frontais e é o alimento preferencial do tuco-tuco | Foto: Arquivo Nema

 

Assim, a Unidade de Conservação também visa reduzir e controlar os impactos associados a uma urbanização adjacente. Ou seja, não são aqueles impactos mais da extração de areia diretamente, da construção em cima das dunas, mas são impactos que continuam acontecendo porque nós temos a nossa civilização vivendo logo atrás e trazendo com a urbanização, diversos outros problemas associados.

 

 

Necessidade de proteção efetiva

Considerando que hoje tenhamos perdido tantos hectares de dunas aqui em nosso litoral, e no litoral do Brasil, é essencial que se passe a pensar em uma nova alternativa de proteção. Ou seja, uma proteção além da proteção das dunas de forma genérica, como Área de Preservação Permanente (APP). A proteção como APP não deve ser reduzida (como houve uma tentativa no ano passado dentro do Conama) mas não é suficiente.

Então, além de não permitirmos a redução da proteção das dunas costeiras como APP, nós precisamos avançar para uma proteção num grau mais efetivo, que permita não só protegê-las de sua destruição física, por uma urbanização em cima dessa área do território, como também a preservação, a garantia da manutenção de seus serviços ambientais. E onde essa degradação já ocorreu, dentro do possível, promover programas de recuperação do ambiente de dunas.

 

Ação de educação ambiental do Projeto Dunas Costeiras com jovens escoteiros | Foto: Arquivo Nema

 

A reconstrução de dunas em áreas degradadas também é um elemento fundamental para que recuperemos parte desses serviços ecossistêmicos que foram perdidos junto com esse alto percentual de paisagens de dunas que foram eliminados do território brasileiro.

 

IHU – O que essa redução das faixas de areia representa? Quais consequências sobre a fauna e flora?

 

Lilian Wetzel – A redução de nossas faixas de dunas, mais especificamente nas dunas que foram perdidas para urbanização, traz consequências muito grandes sobre fauna e flora, estamos perdendo habitats não só pela remoção de área, mas também pela destruição da continuidade desses habitats. Para que sejam habitats realmente com valores ecológicos, que cumpram bem seus papeis e funções, eles precisam ter extensão, mas também precisam ter continuidade.

Nós realmente fomos fragmentando esses cordões de dunas do Rio Grande do Sul, destruindo e eliminando em grande parte esse habitat. E é justamente a eliminação e destruição dele a principal causa que associamos à piora no estado de conservação de algumas espécies que habitam e ocupam as dunas e que hoje são consideradas espécies ameaçadas. É o caso do tuco-tuco das dunas que, como disse, é uma espécie endêmica que só ocorre entre Torres e a fronteira com o Uruguai, mas também a Blutaparon portulacoides, que é essa plantinha embrionária que está ameaçada de extinção em nosso Estado justamente devido à perda das dunas pela urbanização.

 

IHU – Em que regiões do litoral gaúcho essa redução é maior e mais impactante?

 

Lilian Wetzel – O litoral gaúcho é dividido em três setores, o setor sul, o médio e o norte. É evidente a perda de dunas no setor norte, é ali que temos o problema mais grave e claramente associado à perda de território para a urbanização dos balneários que ali se instalaram, com planejamento muito deficiente, quando não inexistente, e que trouxe graves consequências para a natureza no nosso litoral.

 

IHU – A redução das dunas pode impactar em transformações em outros biomas?

 

Lilian Wetzel – É importante destacar que as dunas não são um bioma. São um ecossistema, é uma outra categoria, inferior à de um bioma. A perda delas está associada a alterações nos ecossistemas associados às dunas. É o caso dos sangradouros que cortam elas, que têm uma biodiversidade importante especialmente para espécies migratórias e também aves residentes – mas, reiterando, com uma importância internacional para espécies migratórias de aves que param aqui no Rio Grande do Sul. Outros ecossistemas adjacentes, como campos e banhados, podem sofrer não com a redução, mas com a mobilidade, migração da duna, que pode ocorrer em outros casos.

 

 

IHU – A retirada de areia das dunas para aterrar áreas no litoral norte gaúcho, além de outros usos na construção civil, é um problema histórico. Como isso vem impactando na redução das dunas? Quais a situação desse problema hoje?

 

Lilian Wetzel – A retirada de areia realmente é um fator que historicamente foi muito importante como causa da redução das dunas, não só no litoral norte mas também no litoral sul, com o desenvolvimento do Balneário do Cassino desde o início do século XX. Pela década de 1950, a retirada de areia do Cassino foi muito intensa e isso impactou muito, pois, para as dunas terem um valor especial de conservação, precisam ter extensão e continuidade. E se entendermos essa extensão como um elemento tridimensional, ou seja, com largura, comprimento e altura (altitude), a alteração da volumetria muda a ocupação desses espaços por espécies que preferem áreas mais úmidas ou áreas mais secas, áreas mais expostas ou mais protegidas. Então, isso causa também efeitos diretos na distribuição das espécies.

Um exemplo que nós temos aqui no litoral de Rio Grande, na praia do Cassino é de que, a partir do início da década de 1990, começaram os trabalhos de recuperação do cordão de dunas com uso de técnicas específicas que envolviam essencialmente a colocação de galhos, plantio de espécies nativas, fechamento de alguns acessos à praia e remoção de plantas exóticas. Tudo isso foi contribuindo para que hoje o Cassino tenha um cordão de dunas muito mais desenvolvido do que tínhamos até a década de 1980. Mas, considerando o período de estudo do MapBiomas, que inicia em 1985, até pelo menos 1990 as dunas do Cassino estavam mais comprometidas na parte central do balneário, especialmente pela retirada de areia.

É claro que continuamos encontrando impactos de retirada de areia pontual e obviamente ilegal - imagino que no resto do litoral do Estado também aconteça. No entanto, hoje, a maior ameaça, causa de redução de superfície e volume de dunas é a sua ocupação com construções irregulares, seja para ocupações pontuais, fins de “grilagem” ou para instalação de comunidades irregulares que se assentam nessas áreas, o que é agravado em áreas mais ermas, mais difíceis de fiscalizar.

 

Ocupação irregular nas dunas | Foto: Arquivo Nema

 

Muitas vezes também o processo de desocupação é longo nessas áreas públicas. E assim persistem os impactos associados à ocupação, que a acompanham: aumento da presença do lixo, esgotamento sanitário inadequado, presença de animais domésticos e de produção e que afetam a flora e a fauna das dunas.

 

 

Cães e os ataques a tuco-tucos

 

Dentro das ameaças à fauna e à flora é importante destacar novamente o problema que temos associado a espécies domésticas, em especial cachorros e gatos. Gatos já são problemas conhecidos, mas em nossas dunas temos muitos cachorros andarilhos e, às vezes, cães que vão passear com os próprios donos. Esses cachorros, com ou sem donos, correm soltos e sabidamente cavam as tocas de tuco-tucos atrás desses animais. Temos registros de cães cavando e também com o tuco-tuco preso na boca. E, novamente, lembremos que o tuco-tuco é um animal ameaçado de extinção. Os cães também atacam ninhos de aves que ficam sobre as dunas.

 

Cães, com ou sem donos, escavam a toca do tuco-tuco atrás do animal | Foto: Arquivo Nema

 

Já os herbívoros afetam as dunas pelo pastejo e pelo pisoteio, em especial vacas e cavalos. Também temos registros de cabras e búfalos sobre as dunas de Rio Grande, animais com alto potencial de impacto.

 

IHU – Deseja acrescentar algo?

 

Lilian Wetzel – Gostaria de insistir naqueles pontos que já falei, sobre a importância de repensarmos outras formas de proteção das dunas que não somente a caracterização desses ambientes como Área de Preservação Permanente (APP), que é o que temos atualmente de regra nas dunas do litoral brasileiro. Hoje, entendo que a criação de novas unidades de conservação nas dunas costeiras brasileiras, desenvolvendo uma ideia que já é praticada tanto em outras partes do mundo como em várias partes do Brasil, seja a forma mais adequada de garantir que as elas continuem saudáveis e prestando serviços ambientais, essencialmente para nós humanos, mas também viabilizando a conservação de sua elevada biodiversidade.

Esse novo “mapa de proteção” inclui tanto Unidades de Conservação existentes quanto as novas e futuras, por cuja criação nós podemos batalhar enquanto sociedade politicamente ativa, consciente de seus direitos e dos direitos de toda a natureza, que quer redirecionar o nosso curso evolutivo para um uso mais sustentável e harmônico do nosso litoral. As duas propostas que temos em andamento aqui no litoral de Rio Grande vão trazer uma proteção mais sólida, mais efetiva e com a possibilidade de aporte de recursos específicos para gestão dessa faixa de território, permitindo que se consiga realmente proteger as dunas costeiras e evitar que esse percentual elevado de destruição continue se agravando.

 

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