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08 Abril 2020

"O que o vírus tem a ensinar para os que querem aprender? O que ele já ensinou e que ensinamentos podem ser vislumbrados para depois dessa crise?", escreve Gilmar Zampieri, frade capuchinho e professor de Ética e Direitos Humanos no Centro Universitário La Salle de Canoas e de Teologia Fundamental na Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana - Estef, em artigo publicado em seu blog, 01-04-2020.

Eis o artigo.

De Sócrates a Nietzsche, passando por Jesus, Marx, Freud e tantos outros, a nossa história é farta em bons e respeitáveis educadores e mestres do ensinamento. Agora parece que outro educador está emergindo com credenciais para educar as novas gerações e reeducar as que já se achavam formadas.

Não, não estou falando de um novo filósofo ou de um novo pensador de notável capacidade de argumentação e de persuasão. O novo educador não tem concorrente humano à altura. Não se formou em universidades, contudo, acumulou sabedoria ao largo dos bilhões de anos de evolução biológica. O danado é tão tinhoso que sequer ouso dizer seu nome...

Para quem quiser aprender, ele, o que não ouso dizer o nome, está aí como um novo pedagogo. Para quem não quiser aprender livremente, ele obrigará, impiedosamente, tal um mestre à moda antiga que ensinava com palavras escritas no quadro e com uma régua na mão e uns grãos de milho guardados na gaveta! Adultos que somos, talvez, possamos ser educados livremente e sem necessidade de “castigos”, violências e sofrimentos além do que teremos que suportar de agora em diante. Se bem que, parece, o sofrimento ainda continua sendo o maior dos sábios a conduzir a vida, muito mais do que os prazeres!

O que o vírus tem a ensinar para os que querem aprender? O que ele já ensinou e que ensinamentos podem ser vislumbrados para depois dessa crise?

Eu arrisco um decálogo:

1. Sociedade de risco: Ulrich Beck, sociólogo alemão, definiu nossa sociedade pela categoria do “risco”, diferentemente de Zygmunt Bauman que a definiu pela categoria do “líquido”. Talvez a junção dos dois conceitos, isto é, uma sociedade de “risco líquido”, - apresentando perigo por todos os lados com enfrentamento de um inimigo comum e invisível, infinitamente pequeno, resistente e com capacidade de adaptação, sem rosto e forma determinada, que não se deixa abater por bombas, canhões, armas nucleares, que escorre e se instala em todos os lugares - seja a melhor definição do nosso tempo. Nesses tempos, a segurança, esse bem raro e valioso, ninguém a tem em mãos. Nem mesmo os mais poderosos homens do planeta. O risco é um estado constante e impalpável de tensão e, em nosso tempo, generalizado e líquido, diluído, que se adapta e não morre e não se decompõe quando jogado à parede ou pisado no chão. O risco anda de mãos dadas com o medo e formam uma dupla de desestabilização e crises constantes. O vírus, que agora circula pelo mundo, é uma espécie de manifestação, sem máscaras, do espírito do nosso tempo. O tempo do risco e do medo. Não se iludam pensando que será possível voltar a um tempo de normalidade. O novo normal será, de agora em diante, de seminormalidade em que teremos que nos acostumar a viver e morrer diferentemente. Por ora a percepção do risco e do medo está concentrada no vírus, mas os outros riscos não deixarão de existir, somente perderam manchetes como é o caso do risco maior das mudanças climáticas. Parece que, agora, como dizia Heidegger, “já só um Deus nos pode ainda salvar”.

2. Estado x Mercado: Os arautos do mercado que ficam a repetir frases de Frederick Hayek e Ludwig von Mises, autores que endeusam o capital e as leis da oferta e procura, na mão invisível do lucro e dos interesses individuais, deveriam, agora, aprender e reconhecer que as suas políticas de redução do Estado aos interesses das grandes corporações são um fracasso total e que já não dá para deixar de reconhecer a fundamental importância do Estado, afinal, nessa hora, é do Estado que vem o socorro! Onde o Estado é forte e bem conduzido, o risco e os danos humanos e materiais serão menores, sobretudo para os mais vulneráveis. Nos lugares em que o Estado é frágil e mal conduzido pelos seus governantes, as vítimas tendem a ser em maior número. Isso não é ideológico, é fato observável. É só observar como foi o tratamento da pandemia nos países orientais que lidaram como se fosse um único corpo. Mas pedir para reconhecerem a culpa é demais e eles não o farão. Até pelo contrário, aproveitarão a crise generalizada para ampliar o fosso entre ricos e pobres e aumentar, ainda mais, as desigualdades, diminuindo, quanto possível, os direitos dos trabalhadores e distribuindo migalhas aos pobres. Contudo, a lição que deveríamos aprender, finalmente, é de que o mínimo de desigualdades e o máximo de proteção social, com saúde e educação universalizados, é o que seria melhor para todos. Para todos, inclusive para os ricos. Se não formos cínicos, constataremos que os países que melhor lidarão com a crise sanitária e econômica são os que contam com uma rede universalizada de acesso à saúde e à educação do seu povo. E ciência, muita ciência! E os piores a lidar para salvar vida serão os que pouco se importam com a vida e muito se importam em salvar a lógica perversa do capital. Sejamos sinceros, se dependesse dos Bancos e das grandes corporações, como sairíamos dessa pandemia? Se algo se pode aprender, nesse aspecto, é de que na hora do risco e do medo o mercado se encolhe rapidamente e nada tem a oferecer, ou muito pouco, e o destino está muito mais nas mãos do Estado e seus líderes do que no jogo de interesses privados que o mercado sequer consegue regular mesmo em tempos de relativa normalidade. Talvez o Deus que Heidegger falava não seja nem o mercado e nem o Estado, mas então que Deus seria?

3. Em quem depositar confiança? Uma das questões que aparece como urgente e como lição ofertada por este que não ouso dizer o nome, é a da confiança. Parece fora de dúvida que confiar em Deus continua sendo essencial mesmo que se chegue ao limite de dizer que sem religião é possível viver, pois por muito tempo as igrejas ficarão fechadas e ninguém morrerá por conta disso. Igrejas vazias, contudo, não significa viver sem religião, fé, espiritualidade e esperança. A religião, a , espiritualidade e esperança continuarão sendo essenciais e, mesmo que as igrejas continuem fechadas, essas quatro dimensões continuarão ativas em nosso interior. O coração e a alma são seu lugar de culto e esse lugar não tem porta a ser trancada. Viver é necessário, mas não basta apenas viver, é preciso um sentido para viver e esse sentido vem da , espiritualidade e do que podemos esperar. Além disso há algo que parece se impor para depois do vírus, que não ouso dizer o nome. Penso, sobretudo, na urgente e necessária reversão do espírito de manada que confia no falso líder, mesmo que esse seja um mentecapto, que não se pauta pela razão, mas pela técnica sofística de negar o consensuado pela ciência, pela reta razão e o bom senso. Ou se aprende agora que é melhor confiar nas instituições sérias, na ciência do que na opinião e crenças religiosas e ideológicas, melhor confiar no jornalismo profissional a confiar em redes sociais com seus mecanismos de produção e reprodução de falsidade ou meias verdades, ou não teremos aprendido nada e estaremos de portas abertas para hospedar ainda maiores calamidades no futuro.

4. Ensaio do que virá: O vírus, que não ouso dizer seu nome, tem muito a ensinar, sobretudo, como prévia do que virá. A história tenderá a ser lembrada como antes e depois dessa crise sanitária, social e econômica de extensão, ainda, incerta. Mas, não só isso. É bem provável que esse vírus seja um pedagogo a nos conduzir com a mão para nos alertar e nos prepararmos para algo ainda mais assustador. Não é hora de discursos apocalíticos e não me cabe, aqui, fazer. Contudo, ninguém está se dando conta e, por ora, fica em último plano e sem manchetes na grande imprensa e fora do horizonte pessoal de preocupações, uma questão que se apresentará logo aí adiante e que se abaterá, não menos impiedosamente, sobre as novas gerações. Estou pensando, aqui, na emergência climática Ainda estamos no começo da pandemia e seria temerário fazer projeções, mas, não é fora de propósito imaginar que as mudanças climáticas (aquecimento global, eventos extremos como secas, incêndios, tufões, maremotos etc.) e as catástrofes que dela virão, talvez, sejam ainda mais dramáticas e, quem sabe, esse vírus, que não ouso dizer seu nome, pode estar nos preparando, psíquica e emocionalmente, para termos energia suficiente para enfrentá-las. Nesse aspecto, o vírus, que nos obrigará a rever comportamentos, sobretudo de contato e aproximação, já está prestando um serviço educativo para nos prepararmos para o que virá. Inclusive nos preparar para outras pandemias, ou uma segunda e terceira onda dentro da mesma. Não subestimemos a força oculta da natureza e da mãe terra que pode se tornar uma madrasta violenta e hostil.

5. O Descanso da natureza e a vida dos animais: Um quinto ensinamento do vírus, que não ouso dizer o nome, é de que se a humanidade diminuir a violenta agressão à natureza, esta se recuperará rapidamente. Uns até pensam que seria bom que a humanidade diminuísse em um bilhão (talvez seja melhor mudar de forma de vida do que desejar a morte de tantas almas) de habitantes na terra para que ela respirasse aliviada e se refizesse da exploração desenfreada que sofreu nos últimos dois séculos. Com menos gente e menos demanda, os rios voltariam a encantar como ninho de biodiversidades e quem sabe o mar deixaria de ser um depósito de plástico e as florestas mostrariam, novamente, seu esplendor. Em algumas cidades, tanto da China quanto da Europa e, certamente, em outros lugares do mundo, a poluição e os gases de efeito estufa diminuíram drasticamente em menos de vinte dias de paralisação da atividade humana por conta do vírus. O que seria do planeta terra sem o humano? Essa é uma pergunta hipotética e radical, mas dá o que pensar. O que seria? Certamente, perderia a nobreza do seu filho mais ilustre. O humano é a terra que anda, sente e pensa. Sem a humanidade a terra perderia a consciência e a espiritualidade. Não seria nada desejável. Contudo, a terra continuaria seu curso como hospedeira da comunidade de vida. Mas, como disse, a pergunta é radical e não está no horizonte factual. Só serve como hipótese e exercício do pensamento. E o que falar dos animais? O que seria dos animais sem o humano? Ouso pensar que tanto o meio ambiente quanto os animais agradeceriam a ausência dos humanos Não dá para negar que temos sido o terror dos animais por milênios e intensificamos esse terror com as tecnologias atuais de criação, com confinamento e mortes de 70 bilhões por ano. Se para o humano o confinamento é dramático, por que não seria para os animais? O nosso confinamento é temporário e por alguma razão consciente e temos o entendimento de que é temporário. Mas, e os animais que não entendem o motivo e não estão em confinamento temporário. Dá para imaginar o sofrimento dos animais em confinamento permanente? Até agora não imaginávamos porque não tínhamos experiência pessoal, mas, agora, temos. Será que não seria o caso de anotar como ensinamento que o que não vale para o humano não deveria valer para o animal? O mundo humano parou por dias, mas para salvar a si mesmo. Quem sabe, paremos de comer carne em excesso e paremos de explorar a natureza sem dó e sem piedade! Não seria possível? E não seria bom? Não nos tornaríamos melhores e prestaríamos o maior dos bens ao meio ambiente e aos animais? Se sim, então, por que não? E quem sabe quantas doenças, inclusive virais, poderiam ser evitadas?

6. O corpóreo e o virtual: O trabalho e a técnica trouxeram a humanidade até onde estamos e possibilitaram as nossas maiores aventuras, epopeias e, inclusive, claro, tragédias. Com o trabalho e a técnica - nossa dimensão Homo Faber - criamos mundos à nossa imagem e semelhança, onde antes reinava a natureza em estado puro. Revolucionamos o transporte pela terra, água e ar, criamos máquinas que substituem a força física, passamos por várias revoluções tecnológicas e, hoje, estamos na era da internet, das redes sociais que estão mudando o mundo que, até então, conhecíamos. O distante ficou próximo e o próximo ficou distante. A internet nos colocou a todos em rede de relações e comunicação quase infinitas. Antes da pandemia o lamento era que o celular e o virtual era causa de afastamento dentro da mesma casa e isso interpretávamos como sendo ruim. Agora, o que há de melhor do que nos afastar fisicamente e mantermos relações virtuais? Louvado seja o celular que nos ajuda atravessarmos os longos dias de isolamento. Já imaginou uma casa cheia de gente sem ter o que fazer e sem internet? Há um paradoxo aí que dá o que pensar. Se, agora, o melhor que se pode fazer é se distanciar e ficar nas relações virtuais, é preciso que se diga, também que, talvez, o que cada amigo e amiga, o que cada criança, cada mãe e pai, avô e avó mais desejam e necessitam, nesse momento, seja de um abraço, um carinho e um beijo demorado. Sem falar do quão duro tem sido ficar sem poder se aproximar do outro, tocar o outro, segurar a mão do outro. A mesa ficou mais triste pela distância corporal. As igrejas ficaram tristes sem corpos em prece, os campos de futebol ficaram sem vida e até o morrer ficou mais melancólico sem a presença física para acompanhar na travessia de quem parte. O corpo, agora, se tornou um vilão e um perigo, mas, quando essa pandemia passar, ele voltará a ser o que temos de mais sagrado e que merecerá todo cuidado. E, sobretudo, aprenderemos, enfim, que o virtual, por útil que seja, não está à altura da presença, do toque, do abraço, do olho no olho e no face a face.

7. Nosso modo de ser e estar no mundo: Nosso modo de ser no mundo tem- se pautado pela capacidade de consumir. Somos o que consumimos. Por isso, o desespero de pensar uma vida no depois da crise, caso haja uma brutal recessão. O ter e consumir são, das espécies de vírus, as mais letais, sobretudo para a natureza e para os animais. Somos seres carentes e em falta e o consumir é tão natural quanto respirar, contudo, não é natural que a sociedade e os indivíduos se pautem e se identifiquem, quase exclusivamente, pela capacidade de consumo. Há tantas formas possíveis de ser. Ser o que se consome deveria ser a última forma de identificação. Mas, tem sido “a forma”. Pelo fato de sermos seres desejantes, em falta, em carência ontológica, em busca de ser, o que diz o que somos ou seremos, são nossas escolhas. Somos o que escolhermos ser, já que não nascemos prontos. E, há muito tempo, escolhemos ser consumidores. Somos um ser que consome. E isso não é natural. Pelo menos não como constituição ontológica, ou se quiser, como a nossa forma essencial de ser. O consumir é para sustentar o ser, mas o ser não pode se igualar ao consumir. É possível ser criativamente, inventivo contemplativo, meditativo, vivendo com o mínimo necessário e não com o máximo possível, inclusive não entrando na dinâmica do ter e consumir, como é o caso dos místicos de todos os tempos que insistem em dizer que só há uma coisa que aplaca o nosso desejo de ser e, mesmo recebendo vários nomes, todos eles respondem por uma palavra: Deus. Mas, nem todos somos místicos e franciscanos e o sistema capitalista não lhe dá importância, assim como não dá importância aos idosos que já não produzem e pouco consomem. O vírus, enfim, pode nos ensinar de que nada vale ter tudo o que se quer e se deseja e estar à mercê de um minúsculo ser, que nem vivo é, e que, a qualquer momento, pode pôr fim à vida. Qual o legado de uma pessoa que viveu pensando em ter e consumir? Será esquecida no dia seguinte. É ilusão pensar que estamos no controle. Ninguém está no controle e a lição de humildade e de cuidado, afeto e amor com o que é frágil não deveria ser perdida de vista, pois são o que dão sentido à vida. Quem sabe, aprendamos que o importante mesmo é interrogar-se sobre qual o sentido da nossa existência, a que viemos, para onde iremos e o que deveríamos fazer para merecermos continuar sendo. Talvez a lição que podemos tirar é de que a vida não merece ser vivida sem ser analisada e interrogada no seu porquê e na hierarquia de valores que a pauta.

8. Mudança de hábitos: Sobriedade feliz: Muitas coisas voltarão à rotina depois que o tsunami passar. E como era boa a nossa rotina antes do vírus, mesmo com seus problemas. Quem não gostaria de tê-la de volta? Agora é que nos damos conta de quão boa era a liberdade de ir e vir com medo de “apenas” ser assaltado. Que saudade das pequenas coisas que se podiam fazer antes e que, agora, são apenas desejos incontidos. Até os dias menos interessantes antes do vírus eram melhores do que os melhores durante a pandemia. Muitas coisas voltarão à rotina, mas muitas, nunca mais. Já não dará mais para envelhecer com serenidade e com o mínimo de despreocupação. Já não dará para viver sem um pouco de obsessão pela limpeza, sobretudo das mãos. Vai demorar algum tempo para ver e, sobretudo, tocar o outro sem medo. Contudo, mais do que o que não poderemos mais fazer despreocupadamente, a lição que o isolamento social pode nos oferecer são os bons hábitos que adquirimos nesse tempo. Penso, em primeiro lugar, na paciência. Quem sobreviver ao isolamento terá aprendido que é preciso ter paciência, saber esperar, respirar duas vezes antes de se estressar e ir para o ataque. Em tempos de confinamento não dá para se estressar facilmente, falar alto, gritar e, depois, sair porta afora. Sem a facilidade do “porta afora”, fomos obrigados a nos conter e exercitar a paciência na convivência com o outro, seja marido e esposa, seja filhos e pais e irmãos entre irmãos. Para que perder a paciência com pequenas coisas se aprendemos que o que vale é preservar o essencial? Além disso será fundamental ter aprendido e manter para depois, a diversidade de pequenas atividades e ocupações caseiras para não decair na monotonia e no vazio. Penso, aqui, no hábito de leitura, de silêncio e meditação e de algum hábito de exercício diário do corpo, seja parado ou caminhando. Quem, durante o confinamento, não desejou ardentemente caminhar? Então, que no após confinamento esse seja um hábito incorporado. E, finalmente, para quem sabe tirar lições da vida terá aprendido a valorizar as oportunidades que temos na vida e terá valorizado a viver de uma forma simples, sem luxos e sem ostentação de si, integrando corpo e mente e não desejando mais do que se é e não desejar estar em outro lugar senão o que ocupa, fórmula final da felicidade. Sobriedade feliz, enfim!

9. Um Novo Ethos para um novo tempo: Heidegger define a ética como “um modo de habitar o mundo”. Nada mais acertado. Há modos e modos de habitar o mundo. Há o modo violento e destruidor de habitar o mundo, assim como há o modo fraterno, responsável e cuidadoso de habitar o mundo. Há o modo ativo, produtivo e consumista de habitar o mundo e há o modo reflexivo, contemplativo e meditativo de habitar o mundo. Há o modo fraudulento, mentiroso e individualista de habitar o mundo e há o modo verdadeiro, justo e solidário de habitar o mundo. Há o modo egoísta e há o modo generoso de habitar o mundo. Há modos e modos de habitar o mundo. O sistema-mundo, que nos acostumamos a viver e reproduzir, não poderá prevalecer depois da pandemia. Ele estava baseado na concorrência, no lucro, na exclusão e na lógica do mercado. Ou optamos por uma vida mais modesta, humilde, que alie e sintetize o que há de melhor nas experiências de planejamento, precaução, cuidado e responsabilidade ou o futuro não nos sorrirá. Ou daremos mais valor ao comunitário, associativo, participativo e socializante, ou não terremos paz e futuro. O que o vírus pode nos ensinar de definitivo é que somos um corpo em contato com outro corpo formando o corpo humano e se um adoece e passa mal, todos somos ou deveríamos nos sentir afetados. De agora em diante teremos que enfrentar uma realidade nunca imaginada, que é não poder saber qual a circunferência do próprio corpo. Onde exatamente termina o meu corpo e começa o corpo do outro? A pele já não é mais o limite do corpo e isso muda tudo. Muda a relação consigo e com o outro. Me amar e me cuidar é cuidar do outro. E desejar que o outro esteja bem resultará em bem a mim mesmo. Por outro lado, se o outro está mal, eu estarei em perigo! A fraternidade e a solidariedade serão, de agora em diante, um dever civilizacional. E mais, as pandemias não respeitarão corpos, apesar da sua fortuna externa, e nem preservarão os empresários e levarão os trabalhadores. A lição, nesse aspecto, é de que o capital não é nada sem o trabalho e se o trabalhador parar, tudo para. Um sistema-mundo que preserve e empodere os mais vulneráveis e que diminua as desigualdades não é mais uma opção, será a única opção sensata. Se não conseguirmos, estaremos todos à mercê da sorte.

10. O que não mata fortalece: É de Nietzsche a frase “o que não mata, fortalece”. É preciso ter esperança que sairemos mais fortes dessa pandemia. Olhando desde a perspectiva histórica, a esperança não se retira deixando somente o medo como alternativa. A humanidade já enfrentou catástrofes, pestes que dizimaram a metade da população em alguns países, guerras terríveis e situações de fome e morte por todos os lados. E venceu! Mas, isso não é automático. É preciso querer aprender tanto com o passado quanto com o que está acontecendo para se fortalecer para o que virá. Só há um caminho, ou nos salvamos todos ou nos perderemos a todos. Num mesmo barco nós navegamos e a um mesmo fim nos há de levar. Ou todos juntos sobrevivemos ou juntos vamos nos afogar. Se continuarmos desprezando a ciência, os fatos, o bom senso e a razão, então, perderemos mais uma oportunidade e a pandemia e o sacrifício que ela impôs terá sido em vão.

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