Goleada sinodal do Papa no Bernabéu: "A verdade é sinfônica e sempre nos ultrapassa"

Papa Leão XIV no Santiago Bernabéu, estádio de futebol do Real Madrid. (

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09 Junho 2026

Ele não chegou no papamóvel. Não teve tempo. O Papa vinha enfrentando atrasos desde o encontro com as vítimas e na cerimônia na Catedral de Almudena, e quando chegou à Casa Árabe, ao lado da Feira do Livro, Prevost parou. Uma multidão de fiéis se reuniu ao redor. Não adiantou. O Papa não ia comprar livros; em vez disso, entrou em um carro. Chegou atrasado para o último grande evento do dia e de sua estada em Madri: o encontro com as comunidades diocesanas Getafe e Alcalá. Uma verdadeira celebração da sinodalidade, em uma grande partida de futebol compartilhada, narrada, entre outros, por Manolo Lama e Paco González. "Hoje a Igreja de Madri marcou um gol para a história", reconheceu o Papa.

A reportagem é de Jesús Bastante, publicada por Religión Digital, 08-06-2026.

Antes da chegada do Papa, houve diversas apresentações musicais e a procissão da Virgem de Almudena e do Cristo de Medinaceli. O recém-eleito presidente do Real Madrid, Florentino Pérez, o aguardava com uma camisa com seu nome, "Leão XIV". Lá dentro, dezenas de depoimentos foram compartilhados, e um grande espetáculo, apresentado por Christian Gálvez e Patricia Pardo, se desenrolou em antecipação ao discurso final do Papa na segunda-feira.

Em seu discurso, após subir em uma charrete e ouvir os diversos testemunhos, Leão XIV elogiou "a arte da polifonia, isto é, da unidade na diversidade". A música foi central para o evento e também para as palavras do Papa. "Vocês são a Igreja diocesana no meio de um povo que ama a música, a dança e a convivência, mas que também conhece o conflito, a resignação e, às vezes, o desespero — situações em que o Evangelho pode abrir um caminho para a esperança", começou o Papa, enfatizando o testemunho do Evangelho "na capital de um grande país europeu, sede de instituições e organizações onde são tomadas decisões importantes para o presente e o futuro, mas também um destino para milhões de visitantes e irmãos e irmãs em busca de novas oportunidades".

Riscos do emocionalismo

Referindo-se aos riscos do emocionalismo, o Papa enfatizou que "a vossa alegria será contagiosa se, em vez de ser uma emoção passageira, se tornar um modo de ser estável, um sentimento profundo que renova os indivíduos, os grupos e a comunidade diocesana". Uma alegria que deve fazer parte do cotidiano e que "nos chama à responsabilidade da ação".

Respondendo a alguns dos testemunhos, Prevost destacou como "o Batismo realmente muda vidas", e o faz com diferentes sensibilidades. "Não devemos temer o fato de que ele nunca produzirá uniformidade", explicou, propondo — como já havia feito em Magnifica Humanitas — a reconstrução de Jerusalém em contraste com a Babel bíblica, "onde todos, segundo o relato bíblico, forçados a um projeto totalitário e meramente humano, acabaram por não compreender o seu próximo".

A Igreja e a cidade

"Existe uma relação especial entre a Igreja e a cidade, que assume uma importância ainda maior nos tempos de mudança que estamos vivendo", recordou o Papa, reafirmando o "caminho sinodal", que "nos permitiu conhecer e ouvir uns aos outros mais profundamente nos contextos em que a comunidade diocesana vive e se forma". "Será que essa relação atinge a própria alma das cidades?", perguntou o Papa.

“Dar uma resposta pode ser difícil, mas é possível se buscarmos a verdade juntos”, enfatizou. “Por isso é tão importante não nos dispersarmos nem nos isolarmos, cada um em seu próprio grupo ou ambiente onde já nos sentimos seguros, entre pessoas que sempre cantam a mesma música”, alertou. Porque “a verdade é sinfônica e sempre nos ultrapassa”, porque sem busca, “não há evangelização”.

“Nas grandes cidades, mais do que em outros lugares, às vezes sentimos como se já não tivéssemos os mapas para nos orientarmos em segurança. Então, precisamos reaprender a arte espiritual da cordialidade, sem a qual até mesmo a proclamação do Evangelho corre o risco de se tornar uma repetição impessoal e, ao perder sua eficácia, abre espaço para frustração e desconfiança”, insistiu ele, reiterando que “Madri é uma grande cidade onde diferentes tradições e ‘almas’ coexistem”.

“Todos, sem exceção, foram feitos para a vida e para a vida em sua plenitude”, acrescentou Prevost. “A presença da Igreja em uma grande cidade é uma parábola desse mistério da salvação”, enfatizou, acrescentando que “não é por acaso que foi precisamente nas cidades que os apóstolos estabeleceram a Igreja nascente, encontrando não apenas rejeição, mas também acolhimento, precisamente onde as pessoas se deparam mais naturalmente com a diversidade e a mudança”.

“Juntos, como Igreja diocesana, podemos oferecer o testemunho do Evangelho que liberta as melhores forças de uma humanidade bombardeada por imagens e palavras, mas faminta de justiça e sedenta de verdade. Confiem no fato cada vez mais evidente de que é possível retornar à fé ou conhecê-la pela primeira vez na idade adulta”, sublinhou, incentivando “o investimento nos conselhos paroquiais e diocesanos”, que buscam “modificar a sensibilidade de cada um graças a uma escuta mais profunda do que o Espírito diz à Igreja”.

"Seria uma pena reduzi-los a meros procedimentos burocráticos", quando "são espaços de escuta mútua para o exercício do discernimento, sem o qual não só cada pessoa segue o seu próprio caminho, como também corremos o risco de não compreender onde o Senhor nos quer, o que Ele espera de nós, a que conversões Ele nos chama. Quando damos atenção a esses espaços, então a adoração torna-se vida e surgem laços de fraternidade e projetos de solidariedade entre as pessoas."

A este respeito, ele encorajou os sacerdotes a "reconhecerem a prática do discernimento comunitário como uma das maiores oportunidades que a sinodalidade oferece ao seu ministério". "Caros irmãos", explicou o Papa, "sem perder de vista o essencial, parar regularmente com o vosso povo para interpretar a vida da vizinhança, as mudanças culturais, as tensões sociais e as práticas eclesiais à luz do Evangelho enriquecerá e consolará o vosso ministério". Em contrapartida, "quando reduzimos a vida eclesial a uma rotina em que todos permanecem fechados nos seus hábitos e papéis, o que nos falta é o Espírito". "Não vos alarmeis com tudo isto", concluiu, "mas alegrai-vos com isso".

"Eis a Igreja, queridos irmãos e irmãs! Eis a música do Evangelho, com seu ritmo contagiante", concluiu o Papa, pedindo à Igreja de Madri: "Seja, para todos, como uma Bíblia aberta: que em seus rostos e em suas vidas a Palavra de Deus possa ser encontrada."

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