El Niño é usado como desculpa por presidente do Equador para adiantar eleições

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09 Junho 2026

Decisão sem aval técnico exclui do pleito o maior partido do país; clima é usado politicamente, enquanto a adaptação segue negligenciada.

A informação é de Roberto Kaz, publicada por Observatório do Clima, 08-06-2026.

O Super El Niño ainda não chegou. Ainda assim, antes mesmo de incidir sobre o clima, ele já tem provocado efeitos extremos na política. O presidente do Equador Daniel Noboa, um herdeiro bilionário alinhado com a extrema direita, resolveu adiantar em 79 dias as próximas eleições para governador, prefeito e representantes locais, sob o argumento de prevenir o impacto do fenômeno natural. O problema é que esse movimento prejudica diretamente o maior partido do país, o Revolución Ciudadana, do ex-presidente Rafael Correa, mais alinhado à esquerda.

O anúncio da nova data – adiantada de 14 de fevereiro de 2027 para 29 de novembro deste ano – foi feito no fim de março pelo Conselho Nacional Eleitoral do Equador, com base em dados da Secretaria de Gestão e Riscos do governo Noboa que apontavam 70% de chance de ocorrência de um Super El Niño.

Acontece que o órgão responsável pelo monitoramento climático do país, o Instituto Nacional de Meteorologia e Hidrologia (Inamhi), está subordinado a outro ministério, o de Meio Ambiente e Energia, e não foi consultado. Transposto para o Brasil, seria como se o Judiciário mexesse nas eleições baseado em informações do Ministério das Cidades, e não do Instituto Nacional de Meteorologia.

Para piorar, havia um contexto político que tornava a intenção da manobra ainda mais escancarada. Semanas antes, o Tribunal Contencioso Eleitoral – o relativo no Equador ao nosso TSE – havia suspendido por nove meses o Revolución Ciudadana, de Rafael Correa (a alegação era de que o partido deveria ser investigado por corrupção). Somando-se as duas decisões, chegava-se ao resultado óbvio: o partido, que é a maior força política do país, está impossibilitado de participar do próximo pleito. Transpondo novamente para o Brasil, seria como se o ex-juiz Sérgio Moro tivesse se valido de sua posição como juiz não só para forçar a prisão de Lula, em 2018, como para cassar a licença do Partido dos Trabalhadores inteiro.

O caso gerou um rebuliço no Equador. No mesmo dia em que foi anunciada a nova data, o então diretor do Inamhi, o climatólogo Bolívar Erazo, renunciou ao cargo. “No momento da minha partida era muito cedo para emitir um parecer com alto nível de certeza”, explicou Erazo, em entrevista ao OC. “O Oceano Pacífico estava esquentando, mas era impossível determinar se esse aquecimento seria persistente e se iria interagir com a atmosfera para gerar chuvas extraordinárias no início do ano seguinte”

Em postagem publicada no Twitter dois dias antes da renúncia de Erazo – quando o adiantamento das eleições já era dado como certo – o ex-presidente Rafael Corrêa indignou-se: “Se você acha que já viu de tudo, prepare-se: agora querem antecipar as eleições por causa do 'Fenômeno El Niño'. Algo assim NUNCA aconteceu.”

Não é de hoje que as mudanças do clima têm afetado de forma negativa a Democracia. Para pegar um exemplo recente, e brasileiro, basta lembrar da enxurrada de mentiras que circularam pela internet nos dias seguintes às enchentes do Rio Grande do Sul, em 2024. Algumas diziam que o governo federal havia bloqueado o envio de ajuda; outras, que havia exigido a retirada das tropas oficiais, deixando a população ao Deus dará. A tática adotada pela extrema-direita era clara: se havia um desastre, por que não se aproveitar politicamente desse desastre?

Mas para além das Democracias, as mudanças do clima têm afetado o próprio processo eleitoral. Um relatório publicado em abril pelo Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Eleitoral (Idea) deu conta de que ao menos dezoito países tiveram eleições afetadas por eventos climáticos em 2024. Ampliando o escopo para as últimas duas décadas, a lista cresce para 94 eleições em 18 países. A lista conta com Brasil, Estados Unidos, Índia, México, Canadá, Nigéria e Indonésia, entre outros.

Em Moçambique, por exemplo, o ciclone Idai destruiu mais de 3.200 salas de aula usadas em boa parte do recenseamento e da apuração das eleições em 2019. No Haiti, estruturas consideradas essenciais, como a sede da comissão eleitoral, foram atingidas pelo furacão Thomas, em 2020. “As eleições democráticas sempre exigiram organização, confiança e tempo. Hoje, eles também exigem resiliência”, diz o relatório. “Como os últimos anos demonstraram, as crises não resultam mais em interrupções excepcionais. São infelizmente realidades recorrentes sob as quais as autoridades devem garantir aos cidadãos o exercício efetivo dos seus direitos políticos.”

“Já vimos eleições serem suspensas por terremotos ou furacões, mas uma eleição ser adiantada em função da probabilidade de um evento climático é algo sem precedentes”, disse ao OC o economista Pablo Iturralde, coordenador geral da ONG equatoriana Observatório de Finanças e Clima. “Foi uma jogada suja, mas o problema é mais profundo. As autoridades eleitorais têm sido generosas com Noboa e persecutórias com os partidos rivais. Há processos contra prefeitos da oposição e lideranças indígenas. Prenderam o prefeito de Guayaquil, a maior cidade do país, sem sentença. Permitiram que Noboa concorresse à reeleição enquanto seguia na presidência, o que também é ilegal. Trata-se de uma ditadura civil.”

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