Acredito em Deus porque me mantém (no sentido latino)

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23 Setembro 2022

 

"Creio em Jesus porque, no fundo, acreditar nele é a resposta a uma pergunta (que vem primeiro) para a qual ainda não encontrei uma resposta adequada. 'Como pode Cristo acreditar em alguém como eu?'. Eu, isto, nunca o entendi: porque eu sei quem sou, o quanto (não) valho, o quanto meu coração é fraco", escreve Marco Pozza, padre, apresentador italiano e capelão do presídio de segurança máxima Due Palazzi, em Pádua, em artigo publicado por La Stampa, 20-09-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

O livro do teólogo e capelão da prisão de Pádua para quem não tem : Cristo é o único que não tem vergonha de ficar ombro a ombro com nós humanos.

 

Eu acredito.

 

Eu não acredito.

 

Por que deveria acreditar em Deus?

 

Quantas vezes eu me fiz essa pergunta. Também porque acreditar em Deus é de uma banalidade tão majestosa que eu nem me arrependeria, caso não existisse, de ter cometido um erro tão imenso. Deus é um ser muito distante, inalcançável, muito abstrato: é semelhante a Zeus, a Apolo, a qualquer outro deus pagão. O difícil para a maioria das pessoas é acreditar em Jesus, no Cristo Deus dos Evangelhos.

 

No Deus que, de longe que estava, se aproxima do homem a ponto de lhe apertar a mão, segurar sua mão: bastaria estender um pouco a mão. Colocar-se em nossas mãos, no instante da Eucaristia. Um Deus ao alcance da mão, então.

 

Ele me convence, e como me convence, essa sua poderosíssima fraqueza: ele não se envergonha de estar ombro a ombro com os homens, especialmente com aqueles feios-sujos-maus. Mesmo os poderosos (que no fundo bancam os metidos sem ter autoridade, se ao menos soubessem!), na época de eleições, vão procurá-los para angariar seus votos. Procurá-los, no entanto, quando todos os esquivam, me faz acreditar que Jesus seja um de nós.

 

Além disso eu acredito em Jesus porque, usando os óculos dos evangelistas, eu o vejo trabalhando com as mãos, falando com seus fatos - já que as palavras são usadas apenas para fazer as palavras cruzadas! -, porque percebo que ele sabe respeitar plenamente a liberdade de todos, sem se impor, sem forçar. É alguém que bate à porta, não tem a arrogância de quem entra sem pedir licença, não usa o pé-de-cabra, não guarda um suborno no bolso: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo.” (Ap 3,20).

 

Finalmente, a razão mais credível: creio em Jesus porque, no fundo, acreditar nele é a resposta a uma pergunta (que vem primeiro) para a qual ainda não encontrei uma resposta adequada. "Como pode Cristo acreditar em alguém como eu?". Eu, isto, nunca o entendi: porque eu sei quem sou, o quanto (não) valho, o quanto meu coração é fraco.

 

O quanto eu o traio.

 

Certo dia uma senhora – era uma senhora um pouco ingênua! – me fala: “Vejo que você gosta de ser mantido!”. Ela pensou que estava me insultando, estava procurando me deixar com raiva, mas não percebeu que estava me endereçando o mais belo elogio: "man-ter", no sentido latino, significa "segurar pela mão". Também para aquela senhora existe a possibilidade de viver como man-tida: “Se ela abrir a porta”, a partir do

 

Natal, Deus quer nos manter a todos! O cristão, se quiser, pode ser o mais famoso mantido da história. Além disso, se ele não aceitar, é um fato estritamente pessoal, todo dele.

 

Claro: tempestades e tormentos estão ribombando por toda a minha vida. É uma sala onde vaza água por todos os lados. Meu avô, no entanto, me ensinou que as tempestades também são necessárias: para descobrir quem está disposto a compartilhar um guarda-chuva com você. Além disso, Deus, que se comporta como quer (felizmente), certos dias me escuta: acalma a tempestade.

 

Outros dias ele a deixa desabar e decide acalmar o filho, que sou eu. Ele é assim, não posso fazer nada. Eu o amo como ele é, como ele me ama assim como eu sou: quebrado, desbeiçado, frágil. Sempre o encontro onde menos espero (re)encontrá-lo: os dramas mais pungentes e mais estranhos não se passam nos teatros, mas no coração do homem. Como eu o amo, então, aceito que nem todos o aceitem, que nem todos o amem: aceito também que também exista quem está disposto a não acreditar em Deus de forma alguma, mas sim no primeiro que passa pela rua. Existe, e como: o que me importa, porém, é não me sentir obrigado a confiar naqueles que fazem xixi na cabeça dos homens, fazendo-os acreditar que é chuva.

 

É xixi, não é chuva.

 

Há uma página do Evangelho que me impede de não acreditar no Cristo Deus de que falo, por isso tenho orgulho de ser filiado a ele: são os primeiros dezessete versículos do Evangelho de São Mateus (reciclado, ele também, de uma situação de trabalho mais ou menos, como costuma-se dizer). Uma página que, lendo-a solta, é chata. Bastaria, uma só vez, olhar para as pessoas que o ouvem do púlpito, enquanto alguém a está lendo: o auditório parece um campo de cenouras, todos de cabeça baixa de tanto sono.

 

Mas é de um encanto insensato: "Genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão" (cf. Mt 1, 1-17). Uma série muito longa de nomes, de nascimentos, de espantos: não é outra senão a árvore genealógica do Menino Jesus. É cavando por trás daqueles nomes, porém, que se anuncia o inesperado da Boa Nova. O inédito que escandaliza. Aquela história, a sua história – que pretenderá ser a mãe de todas as histórias, não apenas das que virão, mas também daquelas anteriores - lembra um bordel de Caracas: latrocínios, incestos, idolatrias. Chifres tão imponentes como gaitas de foles, meretrizes, lençóis amassados, carnes que se apertam, reis com baba na boca.

 

Ninguém entre os humanos poderá se gabar de uma genealogia mais imunda e louca do que aquela de Cristo.

 

Começamos bem!

 

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