A Terra como novo ator político que reconfigura os campos em disputa

Para Alyne Costa e Tatiana Roque, não há como compreender os impasses políticos de nosso tempo sem entender e relacionar com as questões do clima

Foto: Norbert Pietsch/Pixabay

Por: João Vitor Santos | 05 Mai 2021

 

Imagine um cenário em que Gaia, o planeta Terra, é maltratada por anos a partir de um modelo de desenvolvimento humano que não leva em conta as outras tantas formas de vida que coabitam. Esse modelo de sociedade se desenvolve, cria seus mecanismos políticos e de gestão à revelia de Gaia. Isso até que ela se insurge contra os ataques e reage, chamando para si um protagonismo político que passa a agenciar toda a discussão dessa sociedade. Para Alyne Costa, essa é a questão de fundo que Bruno Latour traz em seu livro Onde aterrar? Como se orientar politicamente no Antropoceno (Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020). Juntamente com Tatiana Roque, ela mergulha no pensamento do antropólogo francês, que tem se dedicado a pensar nas questões do nosso tempo a partir da problemática do Antropoceno.

 

Alyne recorda que o próprio Latour diz ter escrito essa obra “aturdido, pois estava sob o impacto da eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos, do Brexit, na Inglaterra, e suas conexões com várias coisas”. Para ela, o autor toma esses eventos como uma espécie de marco para desregulamentação do neoliberalismo, com suas consequências, como diminuição do Estado, aumento das desigualdades e negacionismo climático. “Latour vai mostrar uma espécie de história paralela que vinha ocorrendo desde os anos 1980 e 1990, em que as questões do clima já despontavam, mas não tinham vindo a público. Hoje, não podemos entender as questões políticas sem entender as questões do clima”, analisa.

 

 

Tatiana segue na mesma linha e aponta que o negacionismo pensado por Latour é algo complexo, que emerge como uma reação às respostas da Terra. É como se fosse uma estratégia consciente de, por exemplo, defender que nada está mudando, que o aquecimento global não existe e podemos seguir consumindo e produzindo como vínhamos fazendo. “Por isso considero que não é um problema de ignorância ou falta de inteligência. É algo mais complexo. Precisamos olhar para essa lâmina intermediária entre a Ciência e a Política em que se vive uma crise de confiança em vários aspectos”, provoca.

 

Alyne e Tatiana abriram o Ciclo de Estudos (In) Existência de um Mundo Comum. Pensamento Vivo e Mudanças Possíveis à Luz de Bruno Latour, onde trabalharam esse livro. Além dessa, outras três obras estão na pauta de discussões da atividade proposta pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU. A próxima delas será Diante de Gaia: Oito Conferências sobre a Natureza no Antropoceno (São Paulo: Ubu Editora, 2020), debatida na conferência Políticas da Natureza: como associar as ciências à democracia, com a Profa. Dra. Letícia Cesarino, da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC e Marcos Matos, da Universidade Federal do Acre - UFAC, dia 10 de maio, às 19h30min. A terceira obra será Políticas da Natureza (São Paulo: Unesp, 2019), abordada pelo prof. Dr. Rodrigo Petronio, da Fundação Armando Alvares Penteado - FAAP, no dia 13 de maio, às 10h. Todos os eventos são online, com transmissão do Canal do IHU no You Tube.

 

 

Quatro fatos para compreender o que ocorre

Alyne Costa observa que Latour deixa bem claro que o problema sempre existiu, mas que também sempre se acreditou que as coisas “iam se resolver”. “Mas, hoje, o Antropoceno traz compressão sobre o espaço temporal”, acrescenta, como uma clara ideia de que as coisas não se resolverão por si. “Pelo contrário, a impressão é sempre a de que não há mais tempo para mudança”. Assim, observa o negacionismo como uma reação a esse estado irrefutável. “É como uma reação de desespero ao fato de que o aquecimento climático é uma ameaça à vida na Terra”, completa.

Capa da obra em debate (Imagem: divulgação)

 

Por isso, ela sugere que atentemos para quatro fatos centrais que nos iluminam para compreender o impasse em que estamos. São eles:

1) A eleição de Donald Trump, e toda a perspectiva de se negar os fatos que a ciência, em geral, coloca;

2) O Brexit, e todo o desejo de que é preciso fechar as portas, suas fronteiras, que esse movimento representa;

3) Intensificação das migrações, o que por sua vez leva as pessoas a se movimentar e buscar outros lugares que, também por sua vez, se fecham;

4) O Acordo de Paris, mas não a sua assinatura ou até a saída dos EUA dele, mas a percepção de que todas aquelas metas não seriam necessárias.

  

Reprodução da apresentação das palestrantes

 

Para Alyne, todos esses acontecimentos podem ser interpretados como reações à ação mais radical, que é a da própria Terra sair de sua inércia e começar a reagir, tornando-se um ator político. Seguindo com seu raciocínio, não é difícil supor que reações como aquecimento global põem a humanidade tão atônita e em choque e que, ao invés de encarar o problema e buscar saídas, por mais insignificantes que possam ser, parece mais fácil colocar em xeque a veracidade desses fatos que a ciência, mesmo que tardiamente, começa a captar. “E são elites que vão negar isso como uma decisão deliberada que vai intoxicar não somente quem passa a negar, mas todo o seu entorno”, completa.

 

E assim, chega a crise da credibilidade

A fala de Alyne vai ecoar na reflexão de Tatiana Roque na perspectiva de que o negacionismo não é apenas maldade ou falta de instrução, mas sim uma tomada de posição política. “Há aí uma questão de verdade e da própria democracia que é posta à prova”, aponta Tatiana. É o que ambas compreendem como a articulação da dobradinha confiança/desconfiança que vão se relacionando com diversas instituições, como a própria Ciência, a imprensa e as instâncias políticas, o que vai levando ladeira abaixo a própria democracia, uma vez que as instituições que a sustentam passam a ser desacreditadas.

  

 

Para melhor compreender, podemos, novamente, pensar no aquecimento global. A Ciência o apreende, o discurso se torna público e vai para mídia e mesmo assim haverá quem negará todas as evidências de que isso de fato está ocorrendo e ameaçando a vida na Terra por causas humanas. “E veja como isso é uma forma de não fazer nada, pois desacredito que isso é real e, por consequência, não preciso fazer nada para reverter isso. Para tudo isso haverá estratégias. O ceticismo é o mais sério delas, pois vai ver tudo desde a perspectiva de ponto e contraponto, formando conceito para fora da academia”, reflete Tatiana.

 

Reprodução da apresentação das palestrantes

 

Assim se dá, por exemplo, o discurso da própria mídia que, talvez mesmo sem perceber, eleva tanto ponto como contraponto a um grau de verdade. Assim, abre-se o flanco para que muitos acreditem num ponto: o de que a Terra aquece por ação humana; mas também para que acreditem no contraponto: isso não é verdade, é apenas um movimento natural do planeta e vai se resolver. Mais tarde, mesmo que a mídia assuma a primeira postura, será sempre tida como partidária de uma das ‘verdades possíveis’. “E, com isso, toda a articulação para que o fato siga de pé se desfaz, sendo amplamente desacreditado”, completa Tatiana.

 

Reprodução da apresentação das palestrantes

 

A modernização e a cilada dos modernos

Alyne volta ao marco temporal dos anos 1980, pois observa que até então o ideal de moderno era sair do pensamento local, portanto arcaico e ultrapassado, para um pensamento global, essencialmente moderno e conectado. “E Latour vai colocar o ano de 1989 como miraculoso, porque o capitalismo se mostra não mais como possível e as questões das mobilizações antiglobalistas vão romper com essa lógica de modernização”, explica Alyne.

 

Segundo ela, é por isso que Latour vai apontar uma divisão e três grupos de ‘negadores’. São os que vão negar a própria modernidade, para manter a viabilidade do antigo sistema. Depois, viriam os pós-modernos, que sublimariam os problemas da modernidade mesmo sem os resolver e ainda os modernos convictos que, apesar de tudo, seguem acreditando nos sonhos da modernidade. “Isso tudo provoca uma quebra. É por isso que Latour vai pensar a própria Terra como ator político que passa a reagir”, completa.

 

O problema é que nenhum desses vai compreender os sinais do tempo e tampouco o protagonismo da Terra. Por isso que, segundo elas, Latour vai defender que quem melhor compreende esses sinais é a ‘turma de Trump e os negacionistas’, pois passam a pautar suas ações políticas desde a Terra, nem que seja para negar. “E a questão que se aprende é de aterrar [assumir as ações da Terra] ou buscar outro planeta. Por isso não é questão de falta de conhecimento. É compreender que estamos como que operando em dois mundos”, avalia Alyne.

 

Tatiana ainda lembra que não é por acaso que 1989 está bem localizado no fim da Guerra Fria. “Foi essa a época da industrialização e expansão, como se os recursos fósseis, por exemplo, fossem infinitos”, acrescenta. Para ela, são elementos que explicam por que as questões climáticas não vão aparecer nas grandes teorias do pós-guerra. E o resultado é um grande inebriamento das questões de fundo que nos levam ao atual cenário. “Dentro da esquerda, veremos os desafios de se desvencilhar do desenvolvimentismo, pois é preciso pensar um modelo de emancipação que supere isso”, aponta. “Direita e esquerda, passado e futuro, ciência e ecologia, tudo isso vira outra coisa que precisa ser ressignificado no Antropoceno, pois agora, no Antropoceno é como se a política estivesse por toda a parte e o negacionismo é a face mais perversa disso”, completa Alyne Costa.

 

As conferencistas

Tatiana Roque é graduada em Matemática pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, mestra em Matemática Aplicada e doutora na área de História e Filosofia das Ciências pela mesma universidade. É professora do Instituto de Matemática da UFRJ e da Pós-graduação em Filosofia do IFCS/UFRJ, onde coordena um grupo de estudos sobre as reconfigurações do trabalho no mundo contemporâneo. Atualmente, é presidente do Sindicato Docente da UFRJ - ADUFRJ.

 

 

Alyne de Castro Costa é graduada em Comunicação Social, habilitação em Relações Públicas, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, mestra e doutora em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio. Suas pesquisas se concentram na área de Filosofia e a questão ambiental, com ênfase no Antropoceno e na catástrofe ecológica global, considerando também as repercussões do tema na antropologia e na política. Foi bolsista do Programa de Doutorado-sanduíche no Exterior na Universidade Paris Nanterre. Atualmente é pós-doutoranda do Colégio Brasileiro de Altos Estudos (UFRJ), com pesquisa sobre mudanças climáticas e seu enfrentamento no Brasil.

 

Assista a íntegra da conferência

 

 

 

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