A decisão do Papa sobre mulheres leitoras e acólitas: realmente aconteceu alguma coisa? Artigo de Massimo Faggioli

Foto: Gregory Shemitz | CNS

19 Fevereiro 2021

Os bispos locais continuam ignorando os esforços de Francisco para efetivar mudanças na Igreja Católica.

 

O artigo é de Massimo Faggioli, historiador italiano, professora da Villanova University, EUA, publicado por La Croix International, 18-02-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

O Papa Francisco iniciou 2021 dando passos importantes para melhorar o papel das mulheres na Igreja Católica.

Em 06 de fevereiro ele nomeou a missionária xaveriana Nathalie Becquart para ser a primeira mulher subsecretária do Sínodo dos Bispos, e, aparentemente, ela será a primeira mulher com direito a voto na assembleia sinodal.

Esta é uma notícia muito importante para o Sínodo e, de fato, “um ponto de inflexão para a liderança das mulheres na Igreja Católica”.

Spiritus Domini, o “motu proprio” de Francisco publicado em 11 de janeiro, tem potencialmente mais consequências.

 

Quebrando a identificação de autoridade na Igreja com o gênero masculino

 

O documento muda o Direito Canônico ao permitir que mulheres e homens sejam formalmente “assumidos estavelmente, mediante o rito litúrgico estabelecido, nos ministérios de leitores e de acólitos”.

O Papa percebeu que os participantes da Assembleia do Sínodo dos Bispos para a Pan-Amazônia, de 2019, pediram especificamente essa mudança.

Mas o mesmo aconteceu com muitos bispos ao longo dos anos, especialmente durante as várias assembleias sinodais realizadas no Vaticano.

Na maioria das dioceses ao redor do mundo, apenas homens em formação para o diaconato ou presbiterato são formalmente instituídos como leitores e acólitos.

A importância do Spiritus Domini é que ele quebra a identificação da autoridade na Igreja com o gênero masculino.

Como disse o teólogo italiano Andrea Grillo, Francisco deixa claro que “exercício da palavra de autoridade na Igreja não está reservado apenas aos batizados do sexo masculino”.

A mídia tradicional e secular foi rápida em relatar as notícias. E o departamento de comunicações do Vaticano deu muito valor ao novo desenvolvimento. O L'Osservatore Romano estava especialmente interessado em lançar uma luz sobre o novo “motu proprio”, explicando seu significado na edição de 6 de fevereiro do “Donne Chiesa Mondo”, um caderno mensal sobre mulheres e teologia.

 

Mas qual tem sido o eco desta notícia nas igrejas locais? Não muito, se há algo.

 

Apenas um punhado de bispos parece ter recebido abertamente o “motu proprio

 

Os jornais católicos locais noticiaram o Spiritus Domini, mas a maioria das conferências episcopais nacionais - e até mesmo os bispos locais - o ignoraram.

Por exemplo, a Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB) não tem nada sobre o “motu proprio” em seu site, que é frequentemente atualizado, no qual, por outras coisas, há centenas de declarações e comunicados à imprensa todos os meses.

A Conferência Episcopal Italiana (CEI) apenas postou o texto do Papa em seu site, mas nada fez para explicar ou promover sua implementação.

Apenas um punhado de bispos parece ter saudado explicita e publicamente a decisão do papa de permitir que as mulheres fossem formalmente instituídas como leitoras e acólitas.

Um deles foi o bispo americano Shawn McKnight, de Jefferson City, Missouri.

“Esta atualização garante que todos os leigos – mulheres e homens – sejam capazes de usar os dons que Deus lhes deu para o bem da Igreja, exercendo a corresponsabilidade adequada na construção do Corpo de Cristo”, disse ele no jornal online da diocese.

“Poderemos dar catequese, formação e formação a leigos e leigos chamados a estes ministérios, para que sejam bons administradores destes dons de Deus”, afirmou o bispo.

É verdade que a implementação do Spiritus Domini demorará algum tempo. Francisco pediu à Congregação do Vaticano para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos que implementasse a reforma alterando os ritos de instituição e as normas relacionadas.

Mas depois de mais de um mês, é difícil encontrar algo anunciando a preparação para essas mudanças.

 

Não é a primeira vez que episcopados locais resistem ao Papa

Isso não é surpreendente. Lembre-se de que, em dezembro de 2014, o papa mudou as ordens da cerimônia do lava-pés da Quinta-feira Santa para permitir que os padres lavassem os pés das mulheres e de outras pessoas da comunidade, e não apenas dos homens, como a lei da Igreja havia decretado anteriormente.

Mas a Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos nada fez nos 13 meses seguintes.

O cardeal Robert Sarah, o prefeito da congregação, nunca reconheceu formalmente a mudança até janeiro de 2016. Nenhuma explicação foi dada para o atraso de 13 meses.

A resistência a Francisco não é encontrada apenas entre os burocratas do Vaticano. Também está presente nos episcopados locais.

As conferências episcopais e os bispos individuais poderiam e deveriam ter dado as boas-vindas ao último “motu proprio” de forma mais explícita.

Por exemplo, eles poderiam ter destacado a ligação entre admitir mulheres nos ministérios de leitorado e acolitado e o que as mulheres já fazem na Igreja. Eles poderiam ter anunciado os próximos programas de formação para esses ministérios.

No mínimo, a decisão do papa deveria ser motivo de comemoração. Mas não foi. E isso não tem nada a ver com a pandemia de coronavírus em curso.

É simplesmente como se Francisco nunca tivesse publicado o Spiritus Domini.

 

Um amplo vazio entre os esforços do papa e a recepção local

 

Isso é problemático, mesmo para o futuro. Vamos imaginar o que aconteceria se um dia o papa decidisse abrir o diaconato para as mulheres.

Haveria uma revolta desses clérigos que rejeitam essa mudança, ou seria mais fácil apenas ignorar a novidade como está acontecendo hoje?

Aqui há outro problema real: essa decisão também seria ignorada pelas mulheres?

Em parte, o movimento de Francisco de abrir os ministérios de leitorado e acolitado pode ser viso como um muito pequeno e muito tarde, especialmente comparado às aspirações de algumas mulheres preocupadas com ordenações.

Isso também é, em parte, a percepção de que há um amplo vazio entre os anúncios do papa e a realidade das Igrejas locais. Muitas mulheres católicas sabem que qualquer que seja a decisão do Papa Francisco para as mulheres na Igreja, não fará nenhuma diferença em suas paróquias e dioceses.

O triste fato é que, no atual ambiente eclesial, em muitas das Igrejas locais, as aberturas do Papa frequentemente parecem declarações vazias, especialmente para o que se refere ao papel das mulheres na Igreja.

É difícil imaginar um futuro para a Igreja Católica em países e sociedades onde a tradição católica é agora largamente identificada pela exclusão das mulheres na Igreja.

Os bispos locais nem mesmo tentam fingir que não querem abraçar essas mudanças.

“O principal problema não é que as mulheres sejam excluídas da ordenação”, escreveu a teóloga suíça Eva-Maria Faber em seu importante livro recentemente traduzido para o inglês, Women in Church Ministries.

“O principal problema é que para elas toda uma esfera dentro da Igreja foi fechada, não somente a área de consultas de alto nível, tomada de decisão e liderança”, observou ela.

“Um eterno adiamento das mudanças nesta questão levará massas de mulheres (e homens) católicas a se distanciarem da Igreja ou mesmo a abandonar a fé”, escrevi em abril passado aqui em La Croix International (artigo traduzido para o português pela IHU On-Line).

“Essa não será minha escolha”, eu disse.

“Mas será para muitos – muitos mais do que já fizeram essa escolha. Para alguns católicos, esta é realmente a última chamada. E, como pai, este é pessoalmente meu maior medo”.

A sinodalidade eclesial e as mulheres católicas precisam uma da outra. Não há sinodalidade credível sem um novo papel para as mulheres na Igreja.

Por outro lado, sem um processo sinodal, é impossível ou pelo menos muito difícil imaginar as Igrejas locais aceitando qualquer decisão do Papa Francisco, inclusive sobre as mulheres e o ministério.

Até que a sinodalidade se torne uma realidade vivida, todas as outras reformas eclesiais têm apenas uma pequena chance de serem implementadas.

A recepção silenciosa desta recente decisão de Francisco sobre a possibilidade de as mulheres serem formalmente leitoras e acólitas é apenas um exemplo do atual impasse eclesial.

 

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