Três dos novos cardeais escolhidos pelo Papa Francisco são destacados pelo movimento LGBTQ católico

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26 Outubro 2020

“Mesmo com as imensas críticas que o Papa Francisco tem recebido de hierarcas conservadores, o pontífice não dá mostras de se esquivar de tomar decisões que podem ter resultados positivos para as pessoas LGBTQ. Visto que nomear cardeais também afeta quem será o próximo pontífice, o Papa mostra que está planejando que o futuro da Igreja continue nessa postura afirmativa em questões de orientação sexual e identidade de gênero”, escreve Francis DeBernardo, editor do portal New Ways Ministry, 25-10-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

O Papa Francisco incluiu o arcebispo estadunidense que fez várias declarações fortes e positivas sobre as pessoas LGBT no grupo de treze líderes da Igreja nomeados hoje para o cardinalato. Um bispo da ilha de Malta, que também tem registros positivos sobre os LGBT foi nomeado, assim como o bispo de Albano, Itália.

O arcebispo Wilton Gregory, que chefia a Arquidiocese de Washington D.C., é um dos poucos membros da hierarquia católica estadunidense que se dispõem a dar mensagens afirmativas para a comunidade LGBTQ. Ele é o primeiro bispo negro dos EUA a ser nomeado cardeal, tem falado frequentemente sobre justiça racial, e está ligado aos movimentos pelos direitos civis de 1960 e ao movimento da igualdade LGBTQ.

Dom Mario Grech, que está a serviço do secretário-geral do Sínodo dos Bispos, ex-líder da diocese de Gozo, Malta. As declarações de dom Grech em apoio às pessoas LGBT têm dado a ele uma grande aceitação pela comunidade gay de Malta, uma nação muito católica e ainda considerada a nação com a mais forte proteção civil aos LGBTs no mundo.

O bispo Marcello Semeraro, que recentemente foi nomeado como o prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, mostrou que está aberto a discutir questões LGBTQ. Embora não tenha histórico tão grande quanto os outros dois, seus apontamentos ainda são em direção positiva.

Nos dias seguintes às manchetes sobre o Papa Francisco e suas declarações em apoio às uniões civis do mesmo gênero, a inclusão desses três líderes no Colégio de Cardeais, o corpo da Igreja que elegerá o próximo Papa, continua o histórico pontificado de declarações e ações positivas à comunidade LGBTQ.

Esses prelados têm se disposto a discutir as questões LGBTQ prestando apoio, coisa que, infelizmente, é uma raridade entre as lideranças da Igreja. Ainda mais importante, eles estão dispostos a ser ouvintes e demonstraram que são capazes de desenvolver seu pensamento sobre essas questões, afastando-se de ideias e atitudes que estão cimentadas em estereótipos, mitos e medo.

Mesmo com as imensas críticas que o Papa Francisco tem recebido de hierarcas conservadores, o pontífice não dá mostras de se esquivar de tomar decisões que podem ter resultados positivos para as pessoas LGBTQ. Visto que nomear cardeais também afeta quem será o próximo pontífice, o Papa mostra que está planejando que o futuro da Igreja continue nessa postura afirmativa em questões de orientação sexual e identidade de gênero.

Em suas nomeações anteriores de cardeais, o Papa Francisco já havia nomeado vários líderes que apoiam a comunidade LGBTQ: os arcebispos Blase Cupich, Joseph Tobin, Kevin Farrell, Jozef De Kesel, Vincent Nichols, Matteo Zuppi, Jean-Claude Hollerich, José Tolentino Medonça, John Atcherly Dew, Dominique Mamberti e o padre Michael Czerny, s.j..

O New Ways Ministry dá as boas-vindas a esses três novos cardeais, e esperamos e oramos para que continuem seu ministério profético e que outros líderes da igreja sigam seus exemplos.

Destaques do histórico sobre questões LGBTQ do cardeal eleito Wilton Gregory:

Como arcebispo de Washington, a declaração LGBTQ mais conhecida de Gregory veio quando em uma reunião pública, ele foi questionado por um católico transgênero: “Que lugar tenho eu como um católico transgênero confirmado e que lugar meus amigos queer têm aqui nesta arquidiocese? ”

O arcebispo respondeu:

“Você pertence ao coração desta igreja. Não há nada que possa arrancar você do coração desta igreja. Há muita coisa dita a você, sobre você, pelas suas costas, que é doloroso e pecaminoso. Mencionei minha conversa com Fortunate Families. Temos que encontrar uma maneira de falar uns com os outros não apenas de uma perspectiva, mas para falar e ouvir uns aos outros. Acho que é assim que Jesus ministrou. Ele engajou as pessoas, ele as levou para onde estavam, e as convidou a ir mais fundo, mais perto de Deus. Se você está me perguntando onde você se encaixa, você se encaixa na família”.

Gregory serviu anteriormente como arcebispo de Atlanta, onde seu histórico LGBTQ começou permitindo que a catedral de Atlanta hospedasse grupos para as famílias de pessoas LGBTQ; reconhecendo que a Igreja precisava melhorar sua atenção pastoral para as pessoas LGBTQ; e defendendo ambos, padre James Martin, s.j. e dom Henry Gracz, ambos defendem a causa LGBTQ contra os ataques da direita.

Em 2014, ele nomeou um diácono para o ministério pastoral com a comunidade LGBTQ na arquidiocese de Atlanta. Ao anunciar a nomeação, Gregory reconheceu que a Igreja nem sempre tratou esta comunidade com respeito:

“... [A] Igreja deve acolher todos os seus filhos e filhas – não importa qual seja sua orientação sexual ou situação de vida – e isso nem sempre temos feito com um espírito de compaixão e compreensão. Falei da distinção que nossa Igreja faz entre orientação e comportamento, que reconhecidamente precisa de reexame e desenvolvimento”.

“Somos todos chamados à conversão – não apenas alguns membros da Igreja”.

Em uma palestra sobre novas formas de discriminação que Gregory deu em uma conferência de padres em 2018, ele lamentou “a brutalidade que a orientação sexual de um indivíduo muitas vezes promove e justifica”.

Após a decisão de igualdade do casamento da Suprema Corte dos EUA em 2015, a declaração de Gregory não aprovou a decisão, mas ele enfatizou:

“Este julgamento... não isenta nem os que podem aprovar ou desaprovar esta decisão das obrigações de civilidade uns para com os outros. Também não é uma licença para uma linguagem mais venenosa ou comportamento vil contra aqueles cujas opiniões continuam a divergir das nossas. É uma decisão que confere um direito civil a algumas pessoas que não podiam reivindicá-lo antes...”.

“A decisão ofereceu a todos nós a oportunidade de continuar o diálogo vitalmente importante do encontro humano, especialmente entre aqueles de opiniões diametralmente diferentes sobre o seu resultado”.

Em 2016, Gregory e o bispo de Savannah emitiram uma declaração apoiando a decisão do governador da Geórgia de vetar um projeto de lei de liberdade religiosa que muitos viram como uma licença para discriminar pessoas LGBTQ. A declaração disse que “não apoiamos qualquer implementação da [Lei de Restauração da Liberdade Religiosa] de forma a discriminar qualquer indivíduo” porque a dignidade de cada pessoa é “a base para a liberdade religiosa”.

Destaques do histórico do cardeal eleito Mario Grech em questões LGBTQ

Grech fez um discurso no Sínodo sobre a Família do Vaticano de 2014, onde pediu aos líderes da Igreja que usassem uma linguagem mais sensível sobre gays e lésbicas:

“Um bom ponto de partida seria a nossa escolha da linguagem – que seja a linguagem de uma Igreja que é misericordiosa e traz cura. Devo confessar que enfrento a urgência desta necessidade ao escutar as famílias de homossexuais e também as mesmas pessoas com tal orientação e que se sentem magoadas pela linguagem que lhes é dirigida em certos textos, por exemplo, no Catecismo da Igreja Católica. (Edição de 1997, §2358); por conseguinte, estas pessoas lutam tanto para manter viva a sua fé como para cultivar o sentido de pertença filial à Igreja”.

Ainda mais notável do que as palavras que ele proferiu é o fato de que antes do sínodo, Grech reservou um tempo para ouvir os pais de pessoas LGBTQ para que ele pudesse entender melhor a realidade de suas vidas. Muito poucos bispos realmente dedicaram tempo para ouvir indivíduos LGBTQ ou suas famílias. Na época, foi relatado que o Papa Francisco disse a Grech que aprovava seu discurso.

Grech é um entre um número crescente de líderes católicos que disseram coisas positivas sobre uniões civis e casais do mesmo sexo antes mesmo das recentes declarações do Papa. Quando Grech foi questionado em uma entrevista de 2015 se casais do mesmo sexo em uma união civil deveriam ser bem recebidos pela Igreja, Grech disse:

“Claro. Eles são parte do povo de Deus e, como todas as outras pessoas, estão passando por uma jornada e a Igreja precisa apoiá-los para revelar a face oculta de Deus. Não podemos definir essa jornada em etapas e colocar barreiras, pois o caminho está aberto para aqueles que realmente procuram seguir os passos de Deus, independentemente de sua orientação sexual”.

Grech acrescentou que “pode haver diferentes formas de relacionamento” além do casamento.

Histórico do cardeal eleito Marcello Semeraro em questões LGBTQ

Em 2018, Semeraro discursou na reunião do Fórum Nacional da Itália sobre Cristãos LGBT. Sua mensagem enfatizou a inclusão, as boas-vindas e uma igualdade compartilhada por causa do batismo. Em parte, ele disse:

“Vocês são grupos cristãos e isso significa um título de fraternidade. ‘Cristão é o meu nome’, escreveu Paciano de Barcelona no século IV: isto permite que todos os cristãos sejam chamados pelo nome. Este é o título pelo qual os reconheço como irmãos. É a verdade de todos os tempos, é a verdade do Batismo que nos imprimiu um selo de ancestralidade e de fraternidade (caráter batismal) que nada, nem mesmo o pecado, jamais conseguirá destruir”.

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