O terremoto de Bergoglio. A Secretaria de Estado fica sem carteira

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29 Setembro 2020

O projeto foi definitivamente iniciado há cerca de dez dias. Segundo apurou o jornal Repubblica, Francisco, após o escândalo do prédio de luxo de Londres e da demissão do cardeal Angelo Becciu de seus encargos, decidiu retirar todos os recursos econômicos da Secretaria de Estado, inclusive o fundo que até agora estava à disposição do Substituto e no qual confluía também parte do dinheiro do Óbolo de São Pedro.

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada por La Repubblica, 28-09-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

De fato, em breve, o dicastério da Santa Sé ficará sem carteira. Toda competência passará para as mãos da Apsa com o controle da Secretaria da Economia, de forma que a liquidez ficará à disposição de dois dos homens de confiança de Francisco, respectivamente o monsenhor Nunzio Galantino e o jesuíta Padre Juan Antonio Guerrero Alves. A manobra não é só para dar uma sacudida na reforma das finanças internas, mas também para desonerar a figura do Substituto – hoje é o venezuelano Edgar Peña Parra – de qualquer pressão externa.

Como evidenciou a investigação promovida pela magistratura do Vaticano sobre o imóvel de Londres comprado em 2014 pela Secretaria de Estado – uma antiga loja de departamentos da Harrods no exclusivo bairro de Chelsea, não longe da Sloane Avenue – as pressões sobre Becciu por parte de oportunistas externos foram importantes. Para o futuro, Francisco não quer mais que o Substituto as sofra. Para o Papa, apesar de seus erros, Becciu continua sendo uma pessoa que fez o bem. Não é por acaso que, apesar de um processo que o aguarda, ele não só lhe deixou o apartamento do palácio apostólico, mas também todo o salário.

A decisão de transferir toda a liquidez para a APSA também foi tomada graças às sugestões dadas a Francisco pelo padre Guerrero Alves, o jesuíta nomeado no lugar do cardeal George Pell e que, a mando do Papa, no final do seu mandato de cinco anos, voltará como simples sacerdote aos compromissos anteriores na Companhia de Jesus, Guerrero Alves orientou o Papa Bergoglio nesse projeto que, após sete anos e meio de pontificado, revolucionará desde a raiz a gestão das finanças do Vaticano.

A Apsa, uma espécie de "Ministério da Economia e Finanças" da Santa Sé, servirá de funil para todos os tesouros espalhados dentro dos muros leoninos, incluindo a liquidez até agora à disposição do IOR, instituição bancária da Santa Sé no centro nos últimos anos de vários escândalos. Embora não existam valores certos, estima-se que possam chegar à APSA cerca de cinco bilhões de euros em liquidez, além de outros vários bilhões referentes ao total de bens imóveis de propriedade da Santa Sé.

A compra do prédio da Sloane Avenue, ocorrida com intermediação do financista Raffaele Mincione fez com que o sucessor de Pell entendesse como é arriscado que altos prelados, muitas vezes carentes de formação financeira adequada, possam estar livres para administrar grandes capitais, também se sentindo obrigados a gerar lucro. Assim, centralizar tudo nas mãos de um único ente, mas com supervisão da Secretaria da Economia, foi a solução adotada e agora em fase de definição.

E para ajudar Galantino nesse delicado trabalho, nos últimos meses também foi trazida ajuda externa à APSA: o leigo Fabio Gasperini, ex colaborador da Ernst & Young, foi nomeado secretário. Desde que, há cerca de um ano, foi nomeado à frente da Secretaria de Economia, Guerrero Alves reuniu-se com todos os chefes dos dicastérios com recursos financeiros: não só a Secretaria de Estado e a Apsa, mas também a Propaganda Fide, o Governatorado e a Fábrica de São Pedro, esta última já sob intervenção pelo Papa por fatos relacionados com a restauração da cúpula da Basílica de São Pedro.

O jesuíta à frente da Economia conseguiu em poucos meses fazer o que o cardeal Pell foi incapaz de fazer em alguns anos. Enquanto Pell se movia como um elefante numa loja de cristais, levantando a voz onde encontrava resistências, Guerrero Alves usou tons mais comedidos, lembrando a todos, no entanto, que cada sua ação era implementada com a aprovação do "número um".

Mas Guerrero Alves não é o único aliado do Papa nessa obra de reforma financeira. Ao lado dele está também o Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado, muito satisfeito por seu ente seja desonerado de uma responsabilidade que só gera problemas. Já quando estourou o escândalo de Londres, Parolin falou de uma operação "opaca" que deveria ser esclarecida.

Em maio deste ano, durante uma cúpula com chefes de ministérios do Vaticano convocados para falar sobre as contas públicas, Francisco e Parolin concordaram sobre o acerto da proposta de Guerrero Alves de centralizar toda a liquidez nas mãos da APSA.

A tentativa de Francisco é também a de não permitir mais que oportunistas, em sua maioria italianos, coloquem as mãos no dinheiro da Santa Sé explorando a ingenuidade, às vezes até a má-fé, dos cardeais e prelados. O Vatileaks foi lido, durante o último Conclave, como um escândalo totalmente italiano, causado pela incompetência, mas também pela corrupção de homens da Igreja principalmente italianos. Por isso, os cardeais derrotaram os grupos italianos e se concentraram em Bergoglio. O mandato era o de uma reforma que eliminasse justamente essas lógicas. A estrada foi acidentada. E ainda há um trecho a ser percorrido. Mas, nesse ínterim, a virada iniciada há dez dias marca um ponto sem volta. Aquela Secretaria de Estado que Paulo VI havia tornado mais poderosa por motivos práticos – precisava ao seu lado um superministério que desse corpo a todas as suas decisões – volta a ser um dicastério de mero serviço. E sem carteira.

 

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