“A próxima onda da pandemia atingirá campos de refugiados, migrantes e países em guerra”. Entrevista com David Miliband

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11 Mai 2020

O ex-ministro britânico das Relações Exteriores, hoje presidente do International Rescue Committee, uma das organizações humanitárias mais importantes do planeta, dispara o alarme: "Poderá haver até um bilhão de contágios e 3 milhões de mortes no mundo".

"Refugiados e migrantes correm o risco de se tornar as piores vítimas da pandemia. E o mundo rico é culpado de miopia internacional, porque esse vírus não tem fronteiras, só pode ser detido com a cooperação global, não pensando cada um por si". Esse é o aviso de David Miliband, 54 anos, presidente executivo do International Rescue Committee (IRC), ex-ministro das Relações Exteriores britânico e “quase” líder do Partido Trabalhista: em 2010, foi superado na última votação nas primárias do Partido trabalhista pelo seu irmão mais novo e mais radical Ed, derrotado cinco anos depois pelo conservador David Cameron, abrindo o caminho para a ascensão de Jeremy Corbyn e a derrota ainda mais desastrosa da esquerda por Boris Johnson nas eleições de dezembro último. Discípulo de Tony Blair, David reagiu mudando-se para Nova York para dirigir o IRC, uma das maiores organizações humanitárias do planeta. De onde ele agora se encontra na linha de frente na luta contra o Covid 19.

A entrevista é de Enrico Franceschini, publicada por La Repubblica, 08-05-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Milhões de refugiados não têm o luxo de poder manter a distância social e vivem em condições de higiene inadequadas: o quanto seria séria a ameaça do coronavírus para eles?

Estamos diante de uma dupla emergência. A emergência sanitária, que ameaça imediatamente a saúde dos refugiados, e a emergência socioeconômica pelas medidas causadas pelo bloqueio, que corre o risco de privá-los de ajudas humanitárias e recursos cruciais a médio e longo prazo. Se o Covid 19 assusta o mundo todo, refugiados e migrantes podem se tornar as piores vítimas da pandemia. A densidade humana nos campos de refugiados é particularmente perigosa. Acrescenta-se a isso as condições gerais, como a desnutrição generalizada e a falta de infraestruturas de saúde adequadas. E isso não se aplica apenas aos campos, mas para populações inteiras de países afetados por guerras ou conflitos internos.

Recentemente, a organização que você preside publicou um relatório sobre as consequências da pandemia: o que dizem os números?

Nações como o Sudão do Sul têm apenas 4 ventiladores pulmonares. Em países como Bangladesh e Colômbia, a curva de contágio está aumentando de maneira alarmante. Segundo uma estimativa, o vírus poderia infectar de 500 a 1 bilhão de pessoas em todo o mundo, causando 1,5 a 3 milhões de mortes. O mundo dos pobres, dos imigrantes, das vítimas de guerras e fomes corre o risco de uma hecatombe.

O que as organizações humanitárias podem fazer diante dessa crise?

Mobilizamos todas as nossas forças: 200 campos em 34 países, com 30 mil voluntários. Mas é necessária uma resposta global ao nível dos governos e instituições internacionais. Infelizmente, as nações ricas da terra estão concentradas em sua própria crise nacional, com um ato de miopia internacional porque esse vírus não tem fronteiras e pode ser detido apenas com a cooperação.

Em vez de cooperação global, estamos desviando para acusações mútuas: qual seria a gravidade de uma guerra fria entre os Estados Unidos e a China desencadeada pela pandemia?

Seria um dano muito sério para as duas superpotências envolvidas e para o mundo inteiro. As relações EUA-China já não eram boas antes da pandemia. O Covid 19 as agravou ainda mais. Apesar dos diferentes sistemas de governo, o mundo precisa de cooperação entre Washington e Pequim: e, em teoria, uma crise sanitária sem precedentes deveria ser o terreno adequado para realizá-la. Em vez disso, somos confrontados pela perspectiva real de uma guerra fria.

Quem reagiu melhor à pandemia, os países democráticos ou autoritários?

Existem países democráticos que responderam bem e outros que responderam mal. Assim como existem governos autoritários que responderam bem e outros que responderam mal. Para citar um exemplo, os Estados Unidos e a China tiveram inicialmente uma reação tardia. A validade da reação depende da capacidade das estruturas sanitárias, da rapidez e determinação de intervir e de se deixar guiar pelos fatos, pela ciência, não por convicções ou conveniências ideológicas.

Como você avalia a resposta de Trump ao vírus?

Tem sido insuficiente sob muitos aspectos. Os cidadãos estadunidenses mais pobres estão pagando o preço mais alto. E nos EUA haverá consequências ainda mais graves se o bloqueio for suspenso cedo demais.

E a resposta europeia?

Varia de país para país, embora pudesse e deveria ter sido mais unívoca de parte dos 27 países da União Europeia e pelo Reino Unido, que até o final do ano ainda se enquadra oficialmente nas normativas da UE. A Europa também poderia ter um papel mediador entre os EUA e a China, para empurrar em direção à cooperação global e evitar precisamente uma nova guerra fria que teria repercussões desastrosas para o planeta. Um problema é que um ataque às liberdades democráticas também está em andamento na Europa, como demonstra o caso da Hungria.

Na Itália, por ocasião da pandemia, vocês lançaram uma iniciativa online contra as fake news.

Chama-se Refuge Info e é um programa do qual temos muito orgulho. Em poucos dias, foi visualizado por mais de 100 mil pessoas, não apenas refugiados, mas também cidadãos italianos. Diante de uma crise sanitária, as informações confiáveis são ainda mais essenciais. Fake news e teorias da conspiração são outro vírus a ser erradicado.

E como você avalia a reação do seu país ao coronavírus?

É muito alarmante que a Grã-Bretanha, com uma história exemplar de saúde pública gratuita em seu legado, esteja entre os primeiros lugares, não sabemos se, no final, será o número um ou dois do trágico ranking da mortalidade na Europa. Espero que o governo tome as rédeas da situação e que, aliás, seja uma resposta unitária de todas as forças políticas.

A propósito, você acredita que Keir Starmer, o recém-eleito líder do Partido Trabalhista Britânico, o partido em que você desempenou um grande papel, possa liderar uma revanche das forças progressistas contra o populismo?

O partido Trabalhista está se recuperando de cinco anos traumáticos. Havia sido, por treze anos, uma força governamental confiável. Então, por uma década, viu-se que o eleitorado não o considerava mais como tal. Dez anos perdidos. Starmer é um homem sério para tempos sérios como são os atuais. Pode representar uma alternativa, uma virada na Grã-Bretanha, que poderia ser inspiradora inclusive para outros lugares.

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