Epistemóloga Susanna Siegel explica por que Trump e Bolsonaro podem sair enfraquecidos após a pandemia

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18 Abril 2020

Um Governo desmantela as estruturas que devem proteger os cidadãos e, de repente, surge uma pandemia global que faz as pessoas ouvirem mais os cientistas do que os políticos. Parece um experimento de filosofia política, mas é a realidade na qual a pensadora Susanna Siegel acredita que Executivos como o de Donald Trump podem sair enfraquecidos.

Professora de Filosofia na Universidade de Harvard, Siegel observa o que está acontecendo confinada em sua casa, em Cambridge (Massachusetts, Estados Unidos), sob o crivo de sua especialidade, a percepção social, que estuda a maneira como o contexto, as crenças, o medo, o que se deseja ou suspeita, afeta o que percebemos.

Em uma conversa em espanhol pela internet, essa intelectual estadunidense fala sobre o mundo em quarentena e o que virá depois da pandemia de coronavírus, a democracia, o capitalismo e o papel dos Governos, em uma conversa repleta de referências a pensadores como Hannah Arendt, Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau.

E avisa que, no momento, a crise está causando grandes efeitos em nossa percepção das decisões políticas e dos cientistas.

A entrevista é de Susana Samhan, publicada por Infobae, 16-04-2020. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Como a pandemia modificará nossas vidas?

Acredito que a pandemia mudou nossas vidas, nossas crenças, nosso sentido de comodidade nos espaços sociais. O psicólogo J. J. Gibson inventou a ideia de “affordancias”, que não tem uma tradução boa, é a palavra em inglês “affordances”, que são as possibilidades de interação entre as pessoas. No momento, nossas “affordancias” sociais estão em constante mudança, porque (...) os fatores que as influenciam geralmente estão no fundo, mas agora estão influenciados pelos conhecimentos científicos.

Como essa crise irá modificar os símbolos sociais, o significado que atribuímos a eles?

Vão mudar os símbolos de estar juntos. Antes, vocês viam um grupo de pessoas que estavam jogando ou que estavam próximas umas das outras, e agora estamos longe e nos sentimos muito desconfortáveis, não podemos nos acostumar com essas mudanças e não vamos.

Para mim, o que é muito interessante agora é que esses comportamentos estão fortemente influenciados pelos conhecimentos científicos. Por exemplo, aqui, temos uma força invisível que se propaga tanto pelas superfícies inanimadas e impenetráveis, como pelo metal e o plástico, bem como pela de humanos, olhos, boca, etc... Tocar na maçaneta da porta pode torná-lo um assassino involuntário.

A pandemia matará potencialmente uma alta porcentagem da população mundial. Isso é incrível e ninguém, ninguém, acreditaria nisso, se a ciência não nos dissesse. E, dessa maneira, nossa perspectiva e comportamento estão influenciados nesse momento pelos conhecimentos científicos. Falo disso especialmente porque a maioria das pessoas espera que os líderes políticos escutem também os especialistas. Nesse momento, as pessoas mais poderosas do mundo não são nenhum Governo autoritário, nem um bilionário, mas sim os epidemiologistas.

Diante dessas perspectivas, isso pode representar um problema para os Governos que insistiram em atacar tanto os especialistas como as instituições dedicadas a gerar e a valorizar a experiência e os conhecimentos científicos. Portanto, resta saber se os Governos Trump e o de (Jair) Bolsonaro podem continuar com esses ataques, porque, ao fazer isso, requerem que as pessoas se voltem contra os especialistas que estão moldando seu comportamento.

Os cientistas estão dominando o discurso público, mas acredita que isso continuará depois que superarmos a crise do coronavírus?

Depende da resposta e de como se desenvolve a política neste momento e no futuro. Se continuarmos dependendo de aspectos de comportamento e em nossa política (da visão dos cientistas), será mais difícil para os Governos autoritários manterem suas narrativas que nos isolam da realidade.

Este é um ponto que disse a filósofa Hannah Arendt, quando dizia que os Governos autoritários dependem de nos excluir da realidade. Nesse caso, a pandemia é um exemplo da realidade que empurra para trás, tragicamente, com mortes e doenças e mais tragicamente na forma como as pessoas ouvem os especialistas e moldam seu comportamento de acordo com suas sugestões.

Como a pandemia afetará a democracia?

Depende das respostas políticas que tomarmos. Se as políticas não abordarem a insegurança econômica e não nos guiarem para modos de interação saudáveis, veremos dois tipos de reação: algumas pessoas responderão retirando-se e suspeitando da cooperação social, por exemplo, a venda de armas no meu país aumenta, mas outras pessoas responderão de maneira diferente, se tornarão mais conscientes das interdependências sociais e formarão, por exemplo, sociedades de ajuda mútua, como já aconteceu em alguns lugares.

E em relação ao capitalismo?

Em princípio, acho que para muitas pessoas é difícil imaginar o mundo sem o capitalismo. Precisamos reinventar a economia de uma maneira ou de outra. Penso que o que deveria acontecer é que sejam usadas novas estruturas para empregar todas as pessoas que estão desempregadas, reutilizar os prédios que não são utilizados, retreinar os técnicos como enfermeiras e as enfermeiras como médicos. Essas são coisas de grande coordenação que necessitam de um Governo.

O importante é que haja um Governo, mas os Governos autoritários não querem ser funcionais. Querem somente trabalhar para seu próprio benefício e isso não é uma situação estável, e é mais instável por causa da pandemia, acredito que é mais instável porque as pessoas estão ouvindo os especialistas.

O populismo será fortalecido ou enfraquecido?

Depende de nós, depende da extensão com que as pessoas ouvem os especialistas. Vai ser mais difícil manter essas narrativas como se fosse uma doença da China ou de quem mora em Nova York. É menos credível nesse contexto, talvez se enfraquecerão esses Governos, mas quem sabe. Vamos ver se Trump, por exemplo, ou Bolsonaro, podem reintroduzir suas narrativas conhecidas de êxito, se todas as pessoas ficarem doentes.

Com qual fenômeno histórico poderíamos comparar a crise atual?

Com a Primeira Guerra Mundial, em relação à transformação repentina da economia. E com experimentos filosóficos, como o estado da natureza de Hobbes, que nunca aconteceu. É um cenário imaginário que usamos para pensar em uma possibilidade ou outra. Acredito que o que acontece agora é como um experimento, um experimento de filosofia política, porque podemos ver o que acontece se um Governo se desmantela, se os líderes retiram o Governo e removem as estruturas políticas que devem nos proteger. O que vai acontecer? E é isso que estamos vendo. Hobbes dizia que as pessoas suspeitariam umas das outras, mas outros filósofos diziam que as pessoas cooperariam.

Emergirá o Estado de bem-estar fortalecido ou deteriorado?

Não temos um sistema de saúde bom aqui (nos Estados Unidos), temos esse desastre e, se pudermos sair desse desastre para reconstruir as estruturas que precisamos, não sei se isso seria outro Estado de bem-estar, mas seria um Estado de bem-estar econômico, porque as pessoas poderiam obter um emprego.

 

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