Coronavírus falirá mais pessoas do que as matará: e essa é a verdadeira emergência global

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16 Março 2020

"Podemos considerar o coronavírus como o momento em que os fios que mantêm a economia global unida se soltaram; e as startups e empresas em crescimento como a minha podem acabar pagando o preço disso", afirma o economista Omar Hassan, cofundador do UK MENA Hub, em artigo publicado por The Independent, 12-03-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O perigo econômico do coronavírus é exponencialmente maior do que os riscos à saúde pública. Se o vírus afetar diretamente a sua vida, o mais provável é que seja obrigando você a parar de ir ao trabalho, forçando seu empregador a torná-lo supérfluo ou falindo seus negócios.

Os trilhões de dólares varridos dos mercados financeiros na semana passada serão apenas o começo, se os nossos governos não intervierem. E, se o presidente Trump continuar tropeçando ao lidar com a situação, isso poderá afetar suas chances de reeleição. Joe Biden, em particular, identificou a Covid-19 como uma fraqueza de Trump, prometendo uma liderança “constante e tranquilizadora” durante esta hora de necessidade dos EUA.

Em todo o mundo, a Covid-19 matou 4.389 pessoas, com 31 mortes nos EUA até hoje [quinta-feira, 12]. Mas ele prejudicará economicamente milhões de pessoas, especialmente pelo fato de a epidemia ter formado uma tempestade perfeita com quedas no mercado de ações, uma guerra do petróleo entre a Rússia e a Arábia Saudita, e o desdobramento de uma guerra de verdade na Síria devido a outra possível crise migratória.

Podemos considerar o coronavírus como o momento em que os fios que mantêm a economia global unida se soltaram; e as startups e empresas em crescimento como a minha podem acabar pagando o preço disso.

Tão importante quanto combater o vírus – senão até mais importante – é vacinar as nossas economias contra a vindoura pandemia de pânico. O sofrimento humano pode vir na forma de doença e morte. Mas também pode ser experimentado como o fato de não ser capaz de pagar as contas ou de perder a própria casa.

As pequenas empresas, em particular, estão enfrentando dificuldades à medida que as cadeias de suprimentos secam, deixando-as sem produtos ou materiais essenciais. O fechamento de fábricas na China levou a uma baixa recorde no Índice de Gestores de Compras (PMI, na sigla em inglês) do país, que mede a produção industrial. A China é o maior exportador mundial e é responsável por um terço da manufatura global; portanto, o problema da China é problema de todos – inclusive no meio de uma guerra comercial entre a Casa Branca e Pequim.

Tudo isso torna ainda mais preocupante o fato de os governos continuarem vendo isso como uma crise de saúde, e não econômica. É hora de os economistas substituírem os médicos, antes que a verdadeira pandemia se espalhe.

É difícil imaginar a Itália não entrando em uma recessão (a nona maior economia do mundo está agora bloqueada). Também é difícil imaginar que isso não afetará a Europa e seu maior parceiro comercial, os EUA. E é impossível ver como isso não resultará em uma desaceleração global, a menos que os governos entrem em ação de forma mais rápida e mais dura do que há 12 anos, durante a última crise financeira.

O que está em jogo é maior neste momento, porque parece haver um esforço coordenado para prejudicar economicamente muitos países ocidentais e alertá-los a se afastarem das políticas comerciais agressivas que Trump adotou com tanto entusiasmo.

Embora a China sofra o impacto do custo econômico e humano do vírus, muitos em Pequim verão um fio dourado no enfraquecimento da economia dos EUA e uma distração das guerras comerciais de Trump que pareciam estar aumentando sem haver uma luz no fim do túnel.

Quase perfeitamente sincronizada com o coronavírus, eclodiu uma guerra do petróleo entre a Rússia e a Arábia Saudita. No curto prazo, Moscou e Riad podem pagar pela queda de 30% no preço do petróleo da noite para o dia. Mas o negócio de gás de xisto dos EUA não pode: o processo de fracking, mais caro, significa que grande parte do setor de petróleo dos EUA simplesmente não existirá se os preços do petróleo permanecerem em níveis históricos baixos, levando a paralisações, perda de empregos e talvez até recessões em nível estatal.

O presidente Trump promoveu cortes de impostos nas folhas de pagamento atrasadas e ajuda para trabalhadores horistas – medidas que ajudarão empregadores e empregados a sobreviver. No Reino Unido, o chanceler Rishi Sunak divulgou um “Orçamento para o Coronavírus”. Mas todos precisam pensar melhor se quiserem lidar adequadamente com a forma como esse novo fator altera o status quo.

Isso tem a ver com muito mais coisas do que coronavírus, os preços do petróleo ou até a economia global. Trata-se do equilíbrio de poder entre o Oriente e o Ocidente. O epicentro dele, nos últimos 10 anos, foi a Síria. Depois de uma década de conflito no local, o confronto parece agora ter escalado da guerra por procuração para o conflito econômico.

As superpotências emergentes da Rússia e da China testemunharam o que muitos viam como uma irrelevância estadunidense na Síria. E agora estão tentando consolidar sua visão de um mundo verdadeiramente multipolar. Em vez de permitir que a Arábia Saudita, aliada dos EUA, lidere os mercados de petróleo através do cartel da OPEP, a Rússia e a China querem reformular os mercados globais – e os equilíbrios de poder – em proveito próprio.

Para sobreviver a essas mudanças, os EUA, o Reino Unido e outros precisarão proteger o futuro de seus negócios, grandes e pequenos, e procurar oportunidades para se beneficiarem da nova ordem econômica mundial, e não negá-la. Ignorar essas alterações será ainda mais prejudicial do que qualquer pandemia de gripe.

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