A Igreja não pode permanecer prisioneira do Ocidente. Artigo de Rocco Buttiglione

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24 Julho 2017

O filósofo italiano Rocco Buttiglione responde ao colega Marcello Pera, ex-presidente do Senado da Itália, que havia criticado Francisco duramente, afirmando que ele não compreende os problemas das democracias ocidentais.

Buttiglione também é político e acadêmico, foi ministro da Itália por duas vezes, parlamentar europeu, vereador em Turim e vice-presidente da Câmara dos Deputados italiana.

O artigo foi publicado por Vatican Insider, 20-07-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Marcello Pera criticou violentamente o Papa Francisco em um artigo no jornal Il Mattino, de Nápoles. O papa, diz Pera, não é um defensor do Ocidente, não entende os problemas das democracias ocidentais e, sobre as questões da imigração, assume um ponto de vista que nós, ocidentais, não podemos compartilhar.

Ele tem uma posição profundamente diferente até mesmo oposta em relação às de São João Paulo II e de Bento XVI. Pera é afiado como sempre, e muitas das coisas que ele diz são verdadeiras. No entanto, eu acho que ele não entendeu o sentido mais profundo desse pontificado e tento explicar por quê.

Pera tem razão em um ponto: para este papa, a Europa não é mais o centro do mundo. Não é justo pensar que ele não se importa com a Europa ou com a defesa da sua alma cristã. Porém, é verdade que ele não pensa que essa seja a sua tarefa principal. A defesa dos valores cristãos que estão na base da Europa é tarefa dos bispos europeus, dos leigos e dos políticos europeus. O papa, obviamente, os apoia, mas essa não será, para ele, a tarefa predominante.

O papa não é europeu, mas latino-americano. Não é apenas um dado pessoal. Temos um papa latino-americano e não europeu porque a Igreja Católica não é mais predominantemente europeia. Vivemos a crise da hegemonia mundial da Europa.

Mais exatamente, vivemos a crise da hegemonia mundial do Ocidente. É uma crise demográfica: a Igreja importa cada vez menos na Europa, mas a Europa importa cada vez menos no mundo. Em vez disso, ela cresce na África e em tudo o que antigamente se chamava de Terceiro Mundo. A maioria relativa dos católicos vive hoje na América Latina, e talvez dois terços dos católicos vivem no Terceiro Mundo.

A crise é também cultural. Antigamente, era generalizada a convicção de que os países não ocidentais eram “atrasados”, no fim, seguiriam as tendências estabelecidas pelos países ocidentais. Hoje, ao contrário, parece que eles estão buscando novas estradas. Muitos fenômenos que nós consideramos como “de progresso” poderiam, no fim, ser mais fenômenos do declínio e da decadência europeia. É interessante observar que, mesmo economicamente, a Europa e os Estados Unidos representam hoje menos de 50% do PIB mundial.

O Papa Francisco se equivoca em pensar que tem que assumir uma ótica mais universal e menos europeia? Ele erra em assumir um ponto de vista e uma linguagem que são mais de “Terceiro Mundo” do que europeus e que, além disso, também lhe são mais congeniais? Talvez, ele não se equivoque. Igrejas que éramos habituados a considerar como periféricas tornaram-se (estão se tornando) centrais, e nós nos tornamos um pouco periféricos. O processo é complicado, arriscado e cheio de perigos. Mas é inevitável.

Os problemas da Igreja nascem da dinâmica demográfica mundial (América Latina) e do grande crescimento missionário da própria Igreja (África e Ásia). Seria injusto pensar que eles derivam apenas ou principalmente do Papa Francisco. Na realidade, eles derivam da força das circunstâncias ou, melhor, da vontade inescrutável do Espírito Santo.

Talvez, seria melhor nos perguntar que tipo de conversão o Espírito de Deus nos pede nesta etapa da história da Igreja e da história da humanidade. Um dos problemas desta fase histórica, para nós, ocidentais, é que devemos fazer as contas com uma imagem de nós mesmos que não nos agrada.

Os pobres do mundo pensam que nos apropriamos de uma parte grande demais das riquezas do planeta. Pensam que foram expropriados e roubados. Esse julgamento não é totalmente verdade, mas também não é totalmente falso.

Com admirável equilíbrio, o Papa Francisco teve a coragem de dizer que o colonialismo também teve lados positivos. Mas ele não escondeu que pensa que teve os seus lados negativos, e é difícil dizer que ele está errado. Não podemos sequer dizer que, sobre esse ponto, ele se contrapõe a João Paulo II. Basta lembrar o discurso de São João Paulo II em Gorée, na fortaleza dos escravos.

Nesta passagem de época, muitos valores importantes correm o risco de se perder. Valores de racionalidade social e também de compreensão científica da sociedade. A compreensão dos valores da concorrência e do mercado é um valor permanente.

Se os países pobres, hoje, tornaram-se menos pobres, e muitos deles começaram um percurso virtuoso de crescimento econômico, isso se deve ao fato de que souberam utilizar de modo certo a regra do mercado.

Mas não conseguiremos defender essa verdade se não confessarmos que, muitas vezes, essa regra da concorrência foi utilizada de forma distorcida, as cartas do jogo foram manipuladas, e os pobres é que pagaram a conta.

Se lermos com a alma livre de preconceitos a grande encíclica Centesimus annus, de São João Paulo II, vemos que ela reconhece plenamente os valores do mercado, mas está longe de ser apologética ao capitalismo.

Às economias de mercado, das quais se reconhecem os méritos, até mesmo éticos, porém, colocam-se fortes exigências morais. O quanto estamos honestamente dando satisfação a essas obrigações morais? É importante notar, por outro lado, que o Papa Francisco salientou muitas vezes a positividade do modelo da economia social de mercado.

Nós devemos tentar ajudar o trânsito na nova síntese dos valores permanentes do Ocidente, mas, para fazer isso, devemos ser capazes de despojá-los de aspectos contingentes que podem impedir a sua justa universalização. Também somos chamados a ouvir e a compreender, sem pretensões de falsa superioridade, outras sensibilidades e outras culturas.

Uma acusação frequentemente levantada contra o Papa Francisco é a de ser populista. Talvez seja verdade, mas temos certeza de que sabemos exatamente o que é o populismo latino-americano, para além das suas caricaturas habituais? O populismo é a única filosofia política latino-americana original. Ele se aproveita das ideias de Justiça e de direito natural que entram na cultura latino-americana com Bartolomé de Las Casas e com a sua defesa dos índios. Depois, ela se mistura com elementos anarquistas, anarco-sindicalistas e até mesmo fascistas. Há dentro disso o melhor e o pior, mas uma autêntica visão política latino-americana surgirá a partir de uma depuração e de uma cisão interna do populismo.

Um grande amigo do Papa Francisco (e meu), Alberto Methol Ferré, indicou as diretrizes e os percursos dessa possível purificação. Não é tarefa da Igreja (latino-americana) acompanhar e apoiar essa purificação através de um debate direto com a doutrina social cristã?

Pera vê no cristianismo um baluarte da Europa e da civilização ocidental. Ele tem razão, e eu quero defender esse baluarte junto com ele. Essa síntese europeia do cristianismo contém valores permanentes, e, sem eles, a Europa se dissolve.

O cristianismo, no entanto, não se esgota na função de defesa da civilização ocidental. O cristianismo pode entrar em outros horizontes culturais e produzir novas sínteses. A síntese ocidental não esgota as potencialidades do cristianismo. Para estas, é certo que a Igreja se identifique com o Ocidente.

O Ocidente é só um dos seus filhos. Como não deixar de exercer o seu papel fundamental no Ocidente sem se identificar com ele? É necessário que cada um assuma com mais decisão as suas responsabilidades. No caso da imigração, é claro que o papa a vê predominantemente com a ótica dos países pobres. Os líderes políticos e culturais do Ocidente devem convidar os seus povos para serem generosos, mas também devem dizer, sinceramente, ao papa, quais são os limites da generosidade dos seus povos, limites que não podem ser superados sem desencadear uma reação de racismo e xenofobia.

A Igreja não pode permanecer prisioneira do Ocidente. Saindo do limite do Ocidente, talvez, ela possa mediar aquele conflito das civilizações de que fala Huntington, que já começou e ameaça se espalhar cada vez mais no futuro, levando ao fim a destruição da humanidade. A Igreja é chamada a ser mais verdadeiramente católica, isto é, universal. O papa latino-americano é uma etapa desse caminho.

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