“13 Reasons Why” pode salvar vidas

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05 Maio 2017

"Esta série tem o potencial de salvar vidas porque informa e conduz o espectador para as profundezas da alma e para fazer algo positivo".

O comentário é de Irmã Rose Pacatte, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 02-05-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo. 

Na manhã de hoje, um amigo, pai de família, postou nas mídias sociais que crianças e adultos malvados aborrecem. Tivemos uma conversa via Messenger onde ele explicou que a sua filha, pré-adolescente, se atrasou para a escola porque não conseguiu parar de chorar. Ontem, as amigas dela, as que ela pensava serem próximas, fizeram-lhe algo realmente vergonhoso. O pai falou que é uma situação de cortar o coração, da filha, da mãe e o seu próprio. Soa familiar?

Talvez todos passamos por algo assim quando éramos jovens. Lembro de chorar descontroladamente para os meus pais quando amigas me convidaram para um evento e, depois, me ignoraram. Foi ruim, terrível. Eu tinha 12 anos. Lembro também, devo confessar, que quando estava na sexta série, disse algo sobre uma menina da nossa série que era verdadeiro, mas pessoal, particular. Quando ela me confrontou, e precisou de coragem para isso, eu chorei, mas banquei a vítima. Ainda me arrependo do que fiz. Foi algo ruim, terrível, que fiz a essa colega.

Soa familiar?

A nova série do Netflix, "13 Reasons Why", é uma produção dramática em 13 partes baseada no romance jovem-adolescente de 2007 escrito por Jay Asher, e adaptado pelo Netflix por Brian Yorkey. Abre com Clay (Dylan Minnette) voltando da escola quando encontra um pacote misterioso. Este contém sete fitas cassetes gravadas por Hannah Baker (Katherine Langford) antes de tirar a própria vida. Uma por uma, ela passa pelas pessoas em seu universo que, acredita, contribuíram para a decisão de terminar com tudo. Clay e Hannah eram amigos, mas quando os pais de Olivia (Kate Walsh) e Andy (Brian d’Arcy James) conversam com os demais, a maioria nega a amizade, inclusive Clay. Mas isso só inicialmente.

A fitas de Hannah tecem uma teia intrincada de bullying, assédio sexual, rumores, segredos e adultos com tom de surdez, alguns amorosos e cuidadosos, com ela no centro.

Fiquei fascinada pela série desde o começo. No entanto, não consegui assistir mais de dois episódios em uma só vez. Cada episódio joga com a esperança, mas depois a nuvem escura pairando sobre o que eu sabia que Hannah tinha feito torna-se demais para aguentar. Os produtores conseguiram fazer com que o público sinta algo do que Hannah sentia. Podemos parar de assistir, mas para a adolescente Hannah, foi demais.

Ela não é a única vítima nessa história, e admite haver coisas que poderia ter feito, mas que não fez. Mas quando avalia em seu conjunto, põe um fim em tudo.

Na parte final, Hannah diz ao Sr. Porter (Derek Luke), conselheiro escolar despreparado, que pensa em se matar. Ele basicamente lhe diz para seguir em frente na vida depois que algo acontece pelo qual ela não está disposta a apresentar acusações.

No Netflix, ao lado de "13 Reasons Why: Beyond the Reasons", há uma entrevista que traz a produtora executiva e cantora pop Selena Gomez, o autor Jay Asher, os produtores executivos Brian Yorkey e Mandy Teefey, profissionais de saúde mental e atores. Eles conversam sobre o programa e por que decidiram participar. Gomez, que ficou longe dos palcos para resolver as suas próprias questões de saúde mental, diz que queria fazer algo "que pudesse ajudar as pessoas, pois o suicídio nunca deveria ser uma opção". Outro produtor executivo que também dirigiu dois episódios, Tom McCarthy (roteirista de "Spotlight", "The Visitor", e "The Station Agent") diz que quando os contadores de história têm a oportunidade de contar uma história que é "sobre alguma coisa", devemos levar a sério e esperar que a discussão comece e continue.

Quando um jovem manifesta o desejo de cometer suicídio, leve a sério. Faça algo. Telefone para um centro de ajuda. Busque auxílio profissional. Não deixe-o sozinho, física ou emocionalmente.

A série foi ao ar pela primeira vez em 31 de março, e nos últimos dias as coordenadorias de educação de todo o país enviaram cartas aos pais falando-lhes sobre a série; uma amiga no Facebook considerou o programa um manual para o suicídio. O conselho que avalia as produções audiovisuais da Nova Zelândia obriga que pessoas com menos de 17 anos devem assistir a série na presença de um adulto. Não sei como se pode legislar ou policiar o que as crianças assistem na Nova Zelândia ou em outros lugares mais. Os dispositivos para assistir programas em várias plataformas são ubíquos. Mas sei que dizer “não” não é útil sem fornecer uma motivação sólida para não assistir.

Esta série tem o potencial de salvar vidas porque informa e conduz o espectador para as profundezas da alma e para fazer algo positivo.

Esta série é bruta, poderosa e trágica, mas não sem esperança.

Outra pessoa que conheço ficou furiosa com o Netflix por produzir algo assim. Pergunto: Por que está furioso? Não acho que é fúria; é medo. As pessoas estão com medo de que o mero fato de falar sobre o suicídio na adolescência vai fazer com que o filho passe por algo assim. Embora uma relação causal entre o que as crianças veem e o que fazem nunca tenha sido estabelecida, sabemos que as informações que consumimos podem nos influenciar, para o bem ou para o mal.

Esta situação de temer o que uma série televisiva e a informação podem fazer de lembra de uma situação familiar. Em 2005, meu sobrinho Gabriel, de 13 anos, morreu como consequência ter se envolvido no "jogo da asfixia". Na verdade, não é um jogo, mas uma atividade perigosa que as crianças fazem consigo mesmas ou com as outras para ficarem alteradas sem o uso de drogas. A minha irmã Sarah e o irmão gêmeo de Gabriel, Sam, apareceram no programa de entrevistas "Dr. Phil" para falar sobre a vida depois do incidente. Desde então, minha irmã se tornou uma defensora da educação nas escolas sobre o "jogo da asfixia", mas a maioria das escolas não quer abordá-lo porque acham que ele ensinará os menores a fazê-lo e a situação só iria piorar.

"É a ignorância que mata; é a falta de consciência e de informação", ela contou por telefone hoje pela manhã. "Não falar sobre isso não vai fazer o jogo desaparecer. Sempre vai estar aí". Em seguida, acrescentou: "Eu sabia desse jogo, mas nunca achei que seriam as minhas crianças quem iriam jogá-lo". (Nota: há poucas semanas, Dr. Phill fez um programa sobre como estão indo hoje convidados de programas anteriores; Sarah e Sam estão ambos indo bem, graças a Deus.)

Recomendo aos pais, ao clero, aos professores que assistam esta série e também o documentário de 2001 "Bully"; como adultos, nem sempre podemos imaginar o que as crianças passam. Precisamos ter empatia por elas.

O que fazer então? Assitir "13 Reasons Why" juntos e conversar sobre. Tenha certeza de que o seu filho já o assistiu. Lance uma luz sobre os problemas – não finja que eles não existem. Lembre-se de como era na época em que foi criança, e se coloque no lugar dele ou dela.

Essa tarefa será mais desafiadora para os pais que não costumam conversar com os filhos sobre os filmes, televisão e jogos que assistem. Não ter uma relação assim é um bom motivo para tornar naturais e normais estas conversas desde muito jovem. É uma questão parental e é por isso que um agente pastoral leigo da Arquidiocese de Nova York me disse 20 anos atrás, que "a parentalidade é a maior necessidade pastoral na Igreja hoje". Os filhos precisam saber que podem confiar em alguém que lhes escute e que não apenas lhes diga "siga em frente".

Será que os seus filhos deveriam assistir "13 Reasons Why"? Não sei. Mas posso dizer isto: eles já estão.

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