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12 Agosto 2015

"Vivemos em uma meritocracia capitalista que encoraja o individualismo e o utilitarismo, a ambição e o orgulho. Mas essa sociedade cairia aos pedaços se não fosse por uma outra economia, onde os dons superam as especativas, onde se reconhecem os limites da autonomia e se exalta a dependência", escreve David Brooks, colunista do New York Times e analista político da TV pública dos EUA, em artigo publicado por La Repubblica, 09-08-2015. A tradução é de Ivan Pedro Lazzarotto.

Eis o artigo.

Às vezes os grandes hotéis me deixam nervoso. Tenho determinadas expectativas sobre o serviço, me irrito se para encontrar algo devo girar os sapatos pelo quarto, se os comandos do chuveiro são inescrutáveis, se a estrutura se reputa muito sofisticada para disponibilizar uma máquina de café em cada quarto. Por vezes me sinto melhor nos hotéis econômicos onde espero menos e o ferro de passar que funciona é um presente e a chapa para o waffel no espaço do café da manhã é uma grande surpresa. Este pequeno exemplo é a prova do forte impacto que as expectativas exercem sobre nosso ânimo e sobre nossas emoções, acima de tudo sobre uma, magnífica, a gratidão.

Se prova gratidão frente a uma gentileza que supera as expectativas, que não é devida. Gratidão é o coração que ri surpreso por um ato inesperado de cortesia. Existe quem seja grato em determinadas ocasiões – porque qualquer um te salva de um erro ou vem ao teu encontro com uma refeição pronta quando estás doente. Mas alguns parecem gratos por natureza, reconhecedores o tempo todo. São pessoas que talvez tenham grandes ambições mas conserva pequenas expectativas. Ou mais, quando progridem na vida, sobre de nível social, seguidamente se habituam a ser mais respeitados, tratados melhor. Os gratos por natureza, pelo contrário, não dão nada por garantia. Experimentam algo novo a cada palavra de elogio, frente aos sucessos dos outros, cada vez que o sol nascer. São pessoas presentes a si mesmas e hiper-reativas.

Essa disposição de animo precisa ser analisado mais a fundo, porque cria uma mentalidade que faz um contraponto às tendências culturais tradicionais do nosso mundo. Vivemos em uma meritocracia capitalista que encoraja a sermos autossuficientes, chefes do próprio destino. Os gratos por natureza, pelo contrário, tem plena consciência de depender constantemente dos outros. Têm muita consideração por aquilo que fizeram pelos seus pais, amigos e pelos antepassados, de certos modo, os seus superiores. São convictos que a autonomia do indivíduo seja uma ilusão, pois se contassem somente consigo mesmos viveriam muito pior.

A lógica da base da meritocracia capitalista é que tudo se paga caro e que se tem aquilo que se mercê. Os gratos por natureza, pelo contrário, pensam sempre que o preço seja aixo e de ter mais do que aquilo que merecem, de receer das famílias, da escola, dos campos de férias muito mais daquilo que retribuem. No seu dia-a-dia existe um superávit de bem que não se explica com a lógica da troca igualitária.

O capitalismo nos encoraja a considerar os seres humanos como criaturas individualistas e orientados para o máximo aproveitamento. Os gratos por natureza são alinhados com a economia da doação, onde as pessoas são movidas por solidariedade, ao invés do individualismo. Na economia da doação a intenção conta.

Somos gratos a quem procurou nos fazer um favor mesmo se esse favor não serviu. Na economia da doação a empatia conta. Somos gratos a quem nos demonstrou que nos quer bem mais do que pensássemos. Somos gratos quando os outros se esforçam para colocar no nosso lugar sem tirar vantagem.

A gratidão é também uma colagem social. Na economia capitalista se paga uma dívida restituindo dinheiro a quem nos emprestou. Mas o débito de gratidão se paga a qualquer um sem ter obrigação de fazer. Assim, os dons transbordam e unem círculos de pessoas com ligações de afeto, relembrando-nos que a sociedade não é somente um contrato baseado na vantagem recíproca, mas um vínculo biológico fundado sobre a sociedade natural – a alimentar as ligações não está o individualismo, estão a lealdade e o serviço.

Se pensam que a natureza humana é boa e forte, se encontrarão frustrados, porque a sociedade perfeita ainda não foi feita. Mas se vivem com a convicção que a nossa razão tem os seus limites, os nossos dons individuais não se sobressaem e que a nossa bondade estala, se espantarão que a vida possa ser tão bonita. Sejam gratos por todas as instituições que nos foram doadas por nossos antecessores, como a Constituição e as tradições, que nos tornam melhores do quanto éramos antes. A primeira virtude política é o reconhecimento e a necessidade de colocar em ação os dons dos outros é o primeiro dever da política.

Vivemos em uma meritocracia capitalista que encoraja o individualismo e o utilitarismo, a ambição e o orgulho. Mas essa sociedade cairia aos pedaços se não fosse por uma outra economia, onde os dons superam as especativas, onde se reconhecem os limites da autonomia e se exalta a dependência.

A gratidão é a capacidade de individuar a apreciar esta outra economia, quase mágica. G.K. Chesterton escreveu que “os agradecimentos são a máxima forma de pensamento e a gratidão é duplicada pela surpresa”. Os gratos por natureza dão grande importância ao próprio empenho, mas não a si próprios. A vida não supera os seus sonhos, mas vai bem além das suas expectativas.

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