Novo Regime Climático: já vivemos mudanças no planeta que podem ser irreversíveis. 6º Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas - IPCC

Webinar promovido pela Fapesp discutiu 6º Relatório de Avaliação do IPCC apresentado nesta segunda que confirma o protagonismo das ações humanas no desequilíbrio climático na Terra

Foto: Gerd Altmann | Pixabay

Por: João Vitor Santos | 10 Agosto 2021

 

Carlos Rennó compôs uma música, a pedido de uma série de organizações que chamam atenção para a crise climática que temos vivido, que questiona: “para onde vamos? Ah, onde vamos parar?". A letra segue falando de uma encruzilhada na qual nos encontramos, que nos faz pensar urgentemente que ou transformamos nossos hábitos de consumo e relação com o planeta ou vamos comprometer nossa própria existência por aqui. As respostas para essas duas perguntas que abrem a canção não são nada boas, segundo o 6º Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o IPCC, divulgado na manhã da última segunda-feira, 09-08-2021.

 

 

 

Dos dados alarmantes que o documento traz, chama atenção a conclusão de que os seres humanos provavelmente causaram a quase totalidade do aquecimento global observado no último século. Ou seja, vai à lona qualquer possibilidade de que estejamos vivendo um ciclo natural de aquecimento do planeta. “Temos trabalhado com dados de observações de cientistas. Não são projeções, são observações concretas. Não temos como chegar a esses números se desconsiderarmos a ação humana”, dispara Thelma Krug, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE e vice-presidente do IPCC. “A escala temporal em que se observa o aquecimento natural da Terra é de milhões e milhões de anos e nunca menos de 100 anos como temos observado agora”, completa Paulo Artaxo, do Programa Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – Fapesp de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais, autor-líder do capítulo 6 do relatório divulgado ontem.

 

Ambos, juntamente com Jean Ometto, da coordenação do Programa Fapesp de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais, Lincoln Alves, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE e autor-líder do novo Atlas de Mudanças Climáticas, e o jornalista Herton Escobar, da Universidade de São Paulo – USP participaram de um debate promovido pela Fapesp que buscou aprofundar algumas perspectivas do Relatório e analisar os impactos no cenário brasileiro. Nesse resumo dos principais pontos, Artaxo apresenta dados de cenários que revelam que mesmo se mantivermos a meta de não elevar a temperatura global para além de 1.5 grau celsius, marca determinada pelo Acordo de Paris, já haverá pontos em que não se poderá reverter danos do aquecimento global. “Se houver, por exemplo, o derretimento de área de gelo da Groenlândia, convertendo isso em elevação no nível do mar, mesmo que consigamos atingir a meta, não será possível recongelar o que já se perdeu. Além disso, há uma grande perda de biodiversidade, pois numa floresta em que a temperatura aumenta demais, muitas formas de vida são impactadas e podem desaparecer”, explica.

 

Artaxo destaca frases do Relatório que são contundentes, mas que indicam com muita clareza o momento que estamos vivendo (imagem: reprodução da apresentação de Paulo Artaxo)

 

O cenário é mesmo alarmante. Para se ter ideia, dos cinco cenários de emissão avaliados, apenas um nos dá alguma chance de manter viva a meta do Acordo de Paris de estabilizar o aquecimento em 1.5 grau. E, mesmo assim, ainda vamos sofrer com algumas décadas de temperaturas acima do limite a partir dos anos 2030. “Precisamos compreender que o aumento de 1.5 grau é uma temperatura média do globo, o que significa que em determinadas regiões da terra a temperatura pode chegar a 2 ou 3 graus, potencializando os impactos locais desse aquecimento”, completa Lincoln.

 

Confira um resumo dos principais pontos do Relatório do IPCC elaborado pelo Observatório do Clima

 

A íntegra do relatório está disponível no site do IPCC

 

 

 Eventos climáticos extremos mais recorrentes

 

Paulo Artaxo observa que a face mais visível desse descompasso que temos promovido no planeta são os chamados eventos climáticos extremos. “Somente neste ano, temos visto cheias históricas na região amazônica, seca no centro e sudeste do Brasil, sem falar nas temperaturas extremas no sul do Brasil”, exemplifica. E se quisermos estender a lista para eventos globais, temos em menos de um mês cheias históricas na Alemanha, calor recorde no Canadá e nos Estados Unidos e incêndios terríveis na Turquia e na Grécia. “No caso dos incêndios, observe como há uma soma de fatores, como desmatamento, seca e aumento da temperatura”, acrescenta Thelma Krug.

 

 

 

O mais assombroso é que cheias ou queimadas que não ocorriam há 30 anos podem passar a ser ainda mais frequentes. Culturas podem ser completamente inviabilizadas, pois quem produz no centro do Brasil já não lida com secas e estiagem cíclicas, mas um contínuo de desabastecimento e terra seca, rachada e de onde sequer se consegue tirar um grão de feijão ou milho. “Por isso é importante perceber que essas mudanças já são irreversíveis, mas podemos frear para que isso não aumente ainda mais”, observa Artaxo.

 

E, pasme, o professor Artaxo ainda aponta no Relatório indicativos de que o aquecimento pode ser ainda pior do que temos visto ou imaginado. Isso porque aerossóis de poluição que são produzidos nos grandes centros urbanos estão segurando a elevação da temperatura. Ou seja, é mais do que urgente reduzirmos o consumo de combustíveis fósseis, parar de queimar carvão e pensar em formas de geração de energia limpa, mas na medida que formos fazendo isso a temperatura irá ainda se elevar. “E isso está aí, é um processo que não podemos frear. Muitos países já iniciaram esse processo. Precisamos encarar esses dados de que a poluição possa estar realmente mascarando o percentual real de elevação das temperaturas”, observa.

 

Impactos locais são ainda maiores

 

Artaxo insiste muito com o dado de que 1.5 grau celsius a mais de elevação das temperaturas é uma média e, em alguns lugares, como até mesmo em regiões do Brasil, isso pode representar na realidade 2 ou 3 graus a mais. Mas é no trabalho do professor Lincoln Alves e de sua equipe de colaboradores que constituíram o novo Atlas de Mudanças Climáticas que isso fica mais evidente. “Precisamos estar atentos para as questões globais para a tomada de decisão dos agentes políticos, mas também precisamos olhar para a questão local. Um terço do Relatório aponta para os impactos regionais”, reitera.

  

Lincoln: “Precisamos estar atentos para as questões globais para a tomada de decisão dos agentes políticos, mas também precisamos olhar para a questão local” (Foto: reprodução You Tube)

 

Ele ainda chama atenção para os quatro capítulos do Relatório que tratam dos temas locais. “Em todas as regiões analisadas que cobrem o Brasil já se percebe aumento de calor, quando as precipitações se dão mais ao sul. Isso revela que devemos ter cada vez mais atenção com o nordeste brasileiro e a ocorrência cada vez mais frequente de eventos de seca extrema”, exemplifica. Por isso, ele faz um convite não apenas para uma leitura mais atenta a esses pontos do Relatório, mas para que também se conheça o Atlas Interativo das Mudanças Climáticas, pois ali se pode jogar com parâmetros locais em cada uma das regiões para se ter uma noção concreta dos indicadores. “Podemos limitar o aquecimento de 1.5 grau, mas temos que ter clareza de que isso tem impactos variados em diversos lugares do mundo, e aqueles locais mais pobres e vulneráveis serão os que primeiro e de forma mais aguda sofrerão esses impactos”, reflete.

 

Atlas interativo de Mudança Climática presente no Relatório do IPCC permite ver em detalhes os efeitos locais da crise climática

 

“O recado está dado”

 

Quem acompanhou a leitura até aqui e conferiu todos os materiais reunidos nesta página pode já estar sem ar e se perguntando: mas e agora? O que fazer? É claro que quaisquer ações individuais que possam contribuir para a redução do aquecimento global são importantes e não se pode esperar que o próprio IPCC dê caminhos prontos. É por isso que Thelma Krug observa que é preciso ter clareza sobre esse organismo e do que se trata o Relatório. “O papel do IPCC é reunir e coletar pesquisas, indícios científicos de diversas pesquisas que analisam o aquecimento e depois servir esse material com subsídios para tomada de decisões”, diz. Ou seja, são cientistas que trazem informações oriundas de pesquisas que constatam a realidade. Agora, cabe ao braço político pensar e viabilizar acordos. “O recado está dado. A ciência está aí. Não há como negar as evidências. Agora, é preciso agir na tomada de decisão”, pontua.

  

Thelma destaca as inúmeras pesquisas de cientistas do mundo todo que o Relatório reúne para apontar suas conclusões (Foto: reprodução You Tube)

 

Além disso, esse é um primeiro Relatório que trabalha mais na perspectiva de diagnósticos. Outros dois estão sendo elaborados na perspectiva de análises que detalhem ainda mais os efeitos desse aquecimento e que trazem cenários mais claros sobre o que fazer. No entanto, Artaxo destaca que esse relatório de agora foi tomado de uma clareza que o faz com que seja facilmente compreendido. E por isso diz que a ideia geral do que deve ser feito está bem clara: “temos que reduzir as emissões de gases agora, já. A data limite para que isso seja feito foi ontem”, dispara o pesquisador. “Estamos, pelo menos, 20 anos atrasados nas políticas de emissões. Cabe aos governos e à população tomar esse desafio. Estamos dando um sinal de alerta para a humanidade. Precisamos pensar que mundo, que Brasil queremos, porque a forma como estamos vivendo não é mais viável. Precisamos mudar, com base na ciência e numa ciência interdisciplinar, ligada com as questões sociais”, acrescenta.

 

Acesse a íntegra do debate

 

 

 

 O Instituto Humanitas Unisinos - IHU vem promovendo uma série de conferências e debates sobre crise climática. Assista a algumas das palestras

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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