A pandemia embaralhou as peças do tabuleiro. Mas a estrutura do tabuleiro segue a mesma. Seremos capazes de alterá-la? Entrevista especial com Roberto Andrés

Na opinião do arquiteto e urbanista, a transição energética só será possível se aumentar a mobilização social e política

Foto: Public Domain Pictures

Por: Patricia Fachin | 05 Julho 2020

A mudança abrupta das rotinas por causa da pandemia do novo coronavírus pode ser um “daqueles acontecimentos que criam inflexões no curso da história”, em que as mentalidades mudam antes das transformações econômicas, sociais ou culturais, diz o arquiteto e urbanista Roberto Andrés à IHU On-Line. Ainda é cedo para saber se a crise do novo coronavírus vai gerar uma mudança significativa nas decisões futuras em relação a dois assuntos que estão na ordem do dia, como as mudanças climáticas e a mobilidade urbana, mas mesmo se as emissões de gás carbônico continuarem aumentando no curto prazo e novas alternativas de transporte não forem implementadas rapidamente, Andrés acredita que as pessoas passarão a olhar para esses problemas de outra forma. “A pandemia de covid-19 não é uma revolta social, mas talvez tenha a capacidade de ser também um acontecimento que amplia a sensibilidade coletiva para a percepção das coisas. Que suscita uma mudança de mentalidade sobre certos problemas, colocados em evidência. Caso isso ocorra, trata-se do primeiro passo para começar a resolver um problema: passar a enxergá-lo melhor”, assegura.

Segundo ele, o problema das mudanças climáticas e o da mobilidade urbana estão diretamente relacionados porque “nas cidades são produzidas 60% das emissões que geram o aquecimento do planeta. E é também nas cidades que a maior parte dos impactos são sentidos pelas pessoas”. Além disso, acrescenta, “como nas cidades está a maior parte da população humana, é nela que os maiores impactos nas nossas sociedades se sentirão. Por isso, as cidades estão nas duas pontas da crise climática”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, ele reflete sobre alternativas para enfrentar estes problemas e avançar em direção à transição energética. “A única chance de a transição energética acontecer está no aumento da mobilização social e política por ela; na capacidade de a sociedade colocar essa agenda no centro da pauta política, o que não vinha ocorrendo até aqui. Essa mobilização, que vinha crescendo com os protestos globais pelo clima, precisa se tornar uma agenda central da sociedade, caso queiramos preservar condições de vida neste planeta para esta e as próximas gerações, para a nossa e muitas das outras espécies”, conclui.

Roberto Andrés (Foto: Ricardo Machado | IHU)

Roberto Andrés é professor na Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG e doutorando em História das Cidades na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo - FAU-USP. Atualmente é pesquisador visitante na Universidade de Estudos de Florença, na Itália. É editor da revista Piseagrama, pesquisador do grupo Cosmópolis e escreve quinzenalmente sobre cidades no jornal O Tempo. É revisor do Journal of Public Spaces e membro da Rede de Inovação Política da América Latina. Foi pesquisador da Fundação Centro Tecnológico de Minas Gerais e sócio-fundador do Instituto Maria Helena Andrés.

 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - De que modo a pandemia de covid-19 nos ajuda a compreender outros problemas da nossa época, como o das mudanças climáticas e o da organização das cidades, em especial as brasileiras?

Roberto Andrés - A pandemia é daqueles acontecimentos que criam inflexões no curso da história. No futuro, será vista como um marco, talvez um ponto de virada ou de acentuação de tendências. Hoje, ao produzir uma mudança abrupta nas rotinas, ela nos permite ver melhor aquilo que estava invisibilizado ou naturalizado.

E uma das coisas que vemos é que "a vida normal" à qual estávamos habituados antes da pandemia, de normal não tem nada. E que esta “normalidade”, regida por lógicas sociais, econômicas e mesmo conceituais forjadas em tempos cujos problemas e desafios eram muito diferentes dos atuais, é um caminhar às cegas rumo ao abismo. O abismo maior, que é o da crise climática planetária e suas consequências potencialmente devastadoras, e os milhares de abismos cotidianos, de destruição das condições de vida nos territórios. 

Rumávamos às cegas para esses abismos até que as engrenagens do motor foram pausadas. O que apareceu? Aquilo que já era dito por muitos, mas seguiu sempre colocado em segundo plano. Que o modo de organização das economias – baseado no crescimento a qualquer custo – está exaurindo muito rapidamente as condições de vida no planeta. Que o modo de organização territorial dá forma e acentua essa degradação, contribuindo para o impacto em escala global e produzindo tragédias cotidianas nas cidades. 

Quase 10 milhões de vidas humanas são eliminadas por ano graças à poluição do ar e aos acidentes de trânsito, uma máquina de mortes e doenças que foi parcialmente pausada com a pandemia. Na China, estima-se que cerca de 75.000 mortes foram evitadas graças à redução de poluição do ar nos poucos meses de quarentena naquele país. É impressionante como esta é uma tragédia normalizada, sobre a qual a pausa da pandemia joga luz.  

IHU On-Line - O sentido de emergência que foi atingido para enfrentar a pandemia de covid-19 em vários países poderá se expandir para resolver outras questões, como o problema das mudanças climáticas e o da urbanização das cidades ou, pelo contrário, os efeitos econômicos da pandemia tendem a arrefecer as políticas de enfrentamento nessas áreas? 

Roberto Andrés - As peças do tabuleiro foram embaralhadas. O caminho rumo ao abismo para o qual a humanidade marchava resolutivamente sofreu um abalo, uma pequena interrupção. Ocorre que a estrutura do tabuleiro segue a mesma. E, no primeiro momento, a retomada se dará retornando ao caminho que essa estrutura induz. Seremos capazes de alterar a estrutura?

A resposta negativa é a mais fácil. E também a mais provável. Nessa visão, a pandemia seria um abalo involuntário na forma de organização da sociedade, e o retorno se daria dobrando a aposta no modelo anterior. O que acentuaria ainda mais algumas tendências já existentes, como o aumento da desigualdade econômica e social, o que já está ocorrendo com a recessão econômica. No curto prazo, esta avaliação tende a se mostrar correta. É o que já começamos a ver.

Mas seria irresponsável, ou um apego muito grande ao realismo, não fazer um esforço para enxergar as frestas que o momento abre. Quem estuda a história das revoltas sociais sabe que existe uma decalagem, muitas vezes de décadas, entre os momentos de mobilização social e a transformação daquelas demandas em mudanças estruturais. Isso ocorreu em diversos momentos da história, não sendo incomum a ocorrência de períodos de regressão no imediato posterior à ruptura – o que se dá muitas vezes quando o tabuleiro é bagunçado, mas ainda não há energia social organizada suficiente para reordená-lo.

Mas o que se altera junto aos grandes momentos de revolta social, já de imediato e de maneira difícil de reverter, são as mentalidades. O mundo continua o mesmo, mas as pessoas – ou parte delas – passam a vê-lo de outra forma. Isso ocorreu com os protestos globais do início da década: a percepção dos limites do pacto de exclusão capitalista aumentou consideravelmente, colocando em evidência os problemas da enorme desigualdade social, da apropriação da riqueza por poucos, das condições de vida nas cidades etc. Há quem afirme, como faz o antropólogo David Graeber, que “ampliado o horizonte político das pessoas, a mudança é permanente”.

A pandemia de covid-19 não é uma revolta social, mas talvez tenha a capacidade de ser também um acontecimento que amplia a sensibilidade coletiva para a percepção das coisas. Que suscita uma mudança de mentalidade sobre certos problemas, colocados em evidência. Caso isso ocorra, trata-se do primeiro passo para começar a resolver um problema: passar a enxergá-lo melhor.

IHU On-Line - Os efeitos da pandemia tendem a acelerar a transição energética ou adiá-la? 

Roberto Andrés - Isso depende do saldo resultante da questão anterior. Se a visibilidade do problema da exaustão das condições de vida no planeta será ampliada a ponto de desafiar as forças que pretendem manter as coisas como estavam. Se depender da boa vontade da elite financeira global, dos magnatas do petróleo, da indústria automobilística, do mercado financeiro, a transição energética será adiada o quanto for possível. Na tese colocada por Bruno Latour, em um livro que foi lançado no Brasil na semana passada, esta elite age com consciência de que há um limite planetário para o crescimento econômico como vem sendo feito, e que “não haverá mundo pra todo mundo”, como sintetizou Déborah Danowski, mas, ainda assim, segue na trilha, pensando que haverá mundo para alguns poucos – no caso, eles.

A única chance de a transição energética acontecer está no aumento da mobilização social e política por ela; na capacidade de a sociedade colocar essa agenda no centro da pauta política, o que não vinha ocorrendo até aqui. Essa mobilização, que vinha crescendo com os protestos globais pelo clima, precisa se tornar uma agenda central da sociedade, caso queiramos preservar condições de vida neste planeta para esta e as próximas gerações, para a nossa e muitas das outras espécies.

A pandemia terá sido capaz de aumentar a percepção desse problema e, assim, tornar a luta política pelo clima mais forte? É o que veremos nos debates políticos pela retomada. Já aparecem iniciativas por uma retomada que leve em conta as condições ambientais, mas o tamanho que isso terá ainda não está evidente. Uma das iniciativas que buscam esse caminho, lançada recentemente a partir de um artigo de Rodrigo Echecopar, do Chile, e Mariana Belmont, do Brasil, é a Nossa América Verde, uma proposta de recuperação econômica com justiça social e ambiental.

IHU On-Line - Vários pesquisadores têm apontado para a redução das emissões de gás carbônico e da poluição como uma consequência positiva do isolamento social. Como manter esse cenário pós-pandemia, já que um dos efeitos da pandemia é a crise econômica e o aumento do desemprego por conta da queda na produção? Como conciliar essas questões com a meta de enfrentamento das mudanças climáticas daqui para frente? 

Roberto Andrés - Há quem estime que a redução de emissões de gases geradores do aquecimento global, gerada pelas quarentenas mundo afora, tenha sido a maior desde a Segunda Guerra Mundial. Claro que esta redução advém de algo involuntário, um vírus que se espalhou pelo planeta, e não de uma mudança proposital de forma da organização da sociedade. Mas, por outro lado, algo mágico aconteceu: ficou evidente que, se houver interesse real em alterar a forma de organização das sociedades para preservar as condições de vida no planeta, isso é possível.

Esse ganho de perspectiva pode ser maior do que se costuma pensar. Um dos maiores empecilhos para a mudança social está na percepção coletiva de que as coisas tendem a continuar da mesma maneira, que são muito difíceis de mudar. A manutenção das engrenagens da economia sempre foi utilizada como uma barreira poderosa para impedir que outras formas de organização da sociedade fossem colocadas. Esse muro de vedação do imaginário pela chantagem economicista agora ganhou uma rachadura. O tamanho do abalo no muro e a nossa capacidade de fazer dele um fator disruptivo ainda não estão dados.

Assim, no primeiro momento, parece evidente que não iremos manter o cenário de redução de emissões após a pandemia. Mas o muro que veda a mudança está rachado. Seguiremos queimando petróleo, comendo carne bovina, desmatando, circulando em automóveis, mas a percepção de que as coisas não precisam (e não deveriam) ser assim crescerá. Sabemos, pela experiência da quarentena, que mudar a ordem das coisas pode não ser tão impossível assim. Que as necessidades imperiosas de manter a roda girando não estão acima de tudo e de todos. Em primeiro plano, pode estar o cuidado com as diversas formas de vida.

IHU On-Line - O que impede os governos e a população em geral de assumirem o mesmo senso de urgência da pandemia em relação às questões climáticas? 

Roberto Andrés - Esta é uma questão muito intrigante. Afinal, como vimos no caso das cidades, milhões de vidas humanas são eliminadas no planeta anualmente graças aos impactos gerados pelos automóveis. Outras tantas pessoas ficam doentes, aleijadas, seriamente comprometidas. A crise climática já tem mostrado sua força em tragédias que tendem a se amplificar. No entanto, raramente estes problemas são colocados no centro da agenda, como foi feito com a pandemia de covid-19.

As razões para que uma tragédia mobilize para a ação e outra não merecem grande esforço de compreensão. Pois nelas estão as chaves que precisamos acionar na luta pelas condições de vida no planeta. Partindo de reflexões de economistas e psicólogos que estudam as formas com que as pessoas lidam com os riscos, Ricardo Abramovay comparou, em um artigo recente, as respostas à covid-19 (um pouco tardias, mas que têm buscado enfrentar o problema) à ausência de respostas efetivas ao problema climático.

Nas palavras dele, “tendemos a focar nossas decisões no curto prazo, a ignorar lições de desastres passados, a imaginar que nunca seremos atingidos por males que afetam os outros, a aderir a explicações simples diante de fenômenos complexos e a fazer escolhas apoiados na conduta e no universo cultural dos que nos são próximos. Estas características cognitivas, resultantes de nossa própria evolução, constituem obstáculos à percepção de fenômenos que têm trajetória contrária ao que nos ensina nossa experiência cotidiana”.

Este adiamento da ação diante de um perigo iminente que ainda não é percebido como tal ocorreu no início da pandemia. Quantos de nós não participamos de um evento social apenas alguns dias antes do início da quarentena, no início de março? No entanto, no caso da pandemia, de repente o véu da inércia se desfez no ar. Usei a palavra “mágica” para descrever esse fenômeno, mas olhando a história recente ele parece de fato algo milagroso: já vínhamos convivendo com tragédias resultantes do aquecimento do planeta (desertificação de áreas e migrações em massa na África, furacões e tornados nos Estados Unidos, enchentes e inundações no Brasil etc.) e, no entanto, nada disso nos mobilizava para a ação que alterasse as rotinas em busca de algo maior, a preservação das vidas.

O que falta para que tenhamos para a crise climática a mesma resposta que estamos tendo para a pandemia? A percepção de risco mobilizada em nossos corpos, de nossos familiares, amigos, comunidade – eu arriscaria dizer. Como chegar a isso, aí está a grande questão para a mobilização social pelo clima. Passaremos os próximos anos às voltas com esse desafio.

IHU On-Line - Entre os inúmeros problemas das cidades brasileiras, quais são evidenciados a partir da pandemia de covid-19?

Roberto Andrés - As cidades brasileiras têm um histórico de formação baseado na desigualdade, que propus sumarizar como uma dupla exclusão. De um lado, a exclusão da população pobre, a maior parte dela formada por pessoas negras, que desde o início do crescimento urbano brasileiro, há mais de um século, foram alijadas do que chamamos “cidade formal” e tiveram que se virar para produzir seus próprios bairros – em que a “cidade” chegaria depois da moradia.

De outro lado, a exclusão da natureza, sempre ignorada, escondida, como se fosse um ente estranho que precisaria ser subjugado para que o progresso urbano de fato viesse. Isto se expressa, entre outros, na relação das cidades com os cursos d’água, que não tiveram lugar nas cidades modernas brasileiras. Receberam esgoto, foram canalizados, passaram a ser vistos como problemas, para, finalmente, serem enterrados e escondidos sob o asfalto.

 

Dupla exclusão

 

Essa dupla exclusão ganhou diversas formas ao longo do tempo. Os modos de deslocamento são parte central dela. A exclusão territorial dos pobres, que foram morar em bairros cada vez mais distantes dos centros urbanos, é viabilizada pelo transporte sob pneus, quando este se torna hegemônico nas grandes cidades brasileiras, a partir da década de 1940. Até hoje, o ônibus é um elemento central de nosso pacto de exclusão urbano, garantindo que a força de trabalho possa se deslocar de seus bairros precários para as zonas com oferta de serviços.

Do lado dos ricos e da classe média, a opção pelos automóveis criou um tipo de exclusivismo que foi um verdadeiro câncer para o tecido urbano. Quanto mais gente adotou os automóveis, mais as cidades se adaptaram a eles. Como este é um modo ineficiente e espaçoso de deslocamento, demandou cada vez mais o espaço urbano que outrora fora ocupado pelos córregos, árvores, calçadas, praças. A exclusão da natureza nas cidades tem relação direta com a voraz demanda de espaço pelos automóveis.

Com a pandemia, este esquema se evidenciou e se acentuou. Com as ruas vazias de carros, ficou evidente quanto espaço urbano é perdido para que essas máquinas emissoras de fumaça possam se engarrafar. De outro lado, a população mais pobre, que não parou de trabalhar, seguiu circulando em ônibus lotados. Acredito que esta é uma das faces mais perversas da desigualdade brasileira, que foi agravada pela pandemia. Mesmo em um contexto em que o isolamento espacial é a medida essencial de proteção à vida, o transporte público nas cidades brasileiras reduziu a oferta do serviço, o que fez com que os ônibus ficassem lotados em muitas cidades, em vários horários. Este é um retrato do valor que a vida dos pobres tem por aqui.

IHU On-Line - Que tipo de mudanças na mobilidade urbana vislumbra pós-pandemia? O uso do automóvel vai aumentar, justamente porque as pessoas poderão querer evitar o uso de transportes públicos?

Roberto Andrés - Há um receio, legítimo, de utilizar o transporte público em um momento como este. Na carência de políticas de mobilidade igualitárias, assistiremos ao agravamento de nossos problemas de mobilidade. Quem puder vai migrar para o automóvel, o que tende a aumentar o número de carros nas ruas e agravar os problemas, já enormes, de poluição, acidentes e congestionamento. Mas a base da pirâmide econômica, que não tem condições de comprar um automóvel (e agora encontra-se mais empobrecida, além de endividada) seguirá circulando nos ônibus ou não terá alternativa de deslocamento.

Nossos sistemas de transporte coletivo urbano, na prática privatizados em regime de monopólio para poucas empresas que oferecem serviços de baixa qualidade, são desenhados em um modelo de financiamento que conta com a precariedade e a lotação. Sem uma mudança radical na forma de gestão e financiamento, os ônibus certamente seguirão lotados. Quem não puder migrar para o automóvel, terá que colocar a vida em risco ou ficar em casa.

Nas cidades que têm buscado políticas de mobilidade mais justas e sustentáveis, especialmente nos países do Norte, o retorno após a quarentena tem sido feito buscando-se priorizar os modos de mobilidade não motorizados. A fim de evitar que o retorno às atividades se dê com o aumento de automóveis, estas cidades têm convertido pistas em ciclovias e calçadas largas, a fim de que as pessoas possam circular a pé ou de bicicleta com conforto e segurança.

No Brasil, há pouco sendo feito nesse sentido. Trata-se de um quadro muito grave, em que um sistema brutalmente desigual se acentua ainda mais, e faz com que algo que já era péssimo – circular em ônibus lotados, lentos e caros – se torne um risco para a vida das pessoas.

IHU On-Line - Que redesenho de políticas públicas para a mobilidade urbana seriam desejáveis pós-pandemia, a fim de reduzir as mudanças climáticas?

Roberto Andrés - Nas cidades são produzidas 60% das emissões que geram o aquecimento do planeta. E é também nas cidades que a maior parte dos impactos são sentidos pelas pessoas. Claro que há enormes e graves impactos do aquecimento global fora das cidades, como desertificação de áreas, acidificação de oceanos, perda de biodiversidade etc. Mas, como nas cidades está a maior parte da população humana, é nela que os maiores impactos nas nossas sociedades se sentirão.

Por isso, as cidades estão nas duas pontas da crise climática. Precisamos, de um lado, reduzir emissões, o que passa por rever radicalmente a forma como nos deslocamos, produzimos energia e tratamos nossos resíduos. De outro, precisamos tornar as cidades mais resilientes, para reduzir os impactos dos eventos climáticos extremos, que já ocorrem com maior frequência e intensidade do que há algumas décadas.

Nada disso é possível sem se rever a prioridade absoluta que automóveis têm tido nos últimos cem anos. Carros são importantes emissores, responsáveis por cerca de 60% das emissões do setor de transportes em muitos países. E os automóveis também demandam grande parte do espaço urbano, espaço que precisaremos utilizar para drenar a água das chuvas, permitir a cheia dos rios, criar espaços públicos para as pessoas vivenciarem o ar livre em situações como a da pandemia de covid-19.

Reduzir radicalmente automóveis das cidades precisa acontecer junto com o investimento em transporte coletivo e modos de mobilidade ativo, que são muito menos poluentes e demandam pouco espaço. Esta é uma demanda antiga, feita por quem busca cidades mais justas, saudáveis e sustentáveis. Hoje, ela é uma premissa essencial na proteção da vida e na busca pela preservação das condições de vida no planeta. A casa está em chamas. Os carros são lança-chamas ambulantes. Não dá para continuar lavando a louça com o fogo ardendo ao redor. É preciso apagar o lança-chamas. Não há futuro possível com eles ardendo ao nosso lado.

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