Governo Yeda. "Não há uma política econômica clara". Entrevista especial com Carlos Paiva

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21 Julho 2008

“Houve em outros dois governos reais campanhas de desenvolvimento: o governo Britto e o governo Olívio. Eram projetos distintos, mas claros; nós sabíamos aonde eles queriam chegar. O governo Rigotto foi anódino, absolutamente inconseqüente, sem absolutamente um projeto. E o governo Yeda me parece que está seguindo o mesmo curso.” Esta é afirmação do economista Carlos Paiva, ao analisar a política econômica para o desenvolvimento do Rio Grande do Sul, em entrevista exclusiva, concedida por telefone, à IHU On-Line.

Para Paiva, este governo tem quatro programas centrais de desenvolvimento, mas nenhum deles vai equacionar o nosso desenvolvimento, o que torna a sua política atual nada transparente. Nesta entrevista, ele reflete sobre as perspectivas econômicas para o estado, a não vinda da fábrica da Toyota, o empréstimo do Banco Mundial, a crise política instaurada a partir do escândalo do Detran e sobre o apoio à instalação de empresas de celulose na Metade Sul do estado. “A Metade Sul é uma região bastante problemática. Ela tem uma estrutura fundiária muito perversa, muito concentrada, o que acaba minando o mercado consumidor da região”, afirmou.

Carlos Paiva é graduado em Economia, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e mestre e doutor em Ciência Econômica, pela Universidade Estadual de Campinas. Atualmente, é professor da Fundação de Economia e Estatística e professor da Universidade de Santa Cruz do Sul. É autor de Como identificar e mobilizar o potencial de desenvolvimento endógeno de uma região? (Porto Alegre: Fundação de Economia e Estatística, 2004) e RS em mapas e dados: bases georreferenciadas para comparação do desempenho socioeconômico dos municípios gaúchos entre 1966 e 2006 (Porto Alegre: FEE/Unisc, 2007), entre outros livros.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Ao analisar a trajetória do governo Yeda até aqui, que perspectivas econômicas podemos prever para o Rio Grande do Sul e como o senhor analisa a política econômica colocada em prática?

Carlos Paiva – Eu não estou vendo uma política econômica muito clara neste governo, por isso não temos como projetar qualquer trajetória. Existe uma preocupação que organiza boa parte das ações dele com o ajuste fiscal. Essa é uma questão realmente importante porque o Rio Grande do Sul se encontra numa situação fiscal bastante problemática e equacionar isso é um movimento importante. No entanto, não se trata de uma política de desenvolvimento, e sim de uma política de ajuste tardio à nova lei de responsabilidade fiscal que está em vigor já há alguns anos e a qual o Rio Grande do Sul não conseguia se adequar. No plano do desenvolvimento econômico, propriamente dito, entre os programas estruturantes do governo, eu só consigo ver três programas com impacto econômico, mas mesmo assim problemáticos.

O programa de irrigação, que sozinho não vai levar a muita coisa, é um deles porque temos um problema de especialização produtiva agropecuária no estado. Estamos ainda demasiadamente centrados em produtos com os quais ainda não temos competitividade sistêmica, especialmente a soja, que exige terra em larga extensão, e a margem de lucro por unidade de terreno é baixa. Portanto, isso é para regiões como o centro-oeste, onde as terras são baratas e as estruturas produtivas são, em geral, de grande propriedade. Assim, para o Rio Grande do Sul, esse não é um sistema adequado, pois temos pequenas propriedades na região norte e devemos nos especializar em produtos intensivos que usem muita mão-de-obra, que é o que não falta para nós, ou seja, mão-de-obra familiar.

Então, precisaria haver uma reconversão produtiva em direção a pecuária leitura, à avicultura, à pecuária de pequenos animais, lado a lado com a produção de ração no território agricultável. E não há nenhuma política do governo de reconversão produtiva. Ele não se atenta sequer para a necessidade de se realizar esses estudos. Eu mesmo tenho insistido, de certa maneira, para que se aprofundem os estudos sobre alternativas viáveis econômica, ecológica e socialmente e não tenho encontrado muita guarida dentro do governo neste sentido. Essa é sua grande falha, ou seja, pensar na irrigação sem pensar na matriz produtiva acaba consolidando a matriz produtiva atual baseada em soja, ovinocultura de corte e arroz. E nós não temos competitividade sistêmica nesses três segmentos.

A outra preocupação do governo também é com o rastreamento. Ele abriu um programa específico para rastreamento para bovinocultura de corte. Não que isso não seja importante, mas ela deveria ser repensada, de alguma maneira, inclusive em que nicho dentro da bovinocultura nós temos alguma competitividade sistêmica. Do meu ponto de vista, temos competitividade na bacia leiteira e, portanto, para a produção de matrizes para a produção leiteira. Nessa área, o Rio Grande do Sul poderia se especializar na sua Metade Sul, o que revela uma mudança de linha de financiamento, de linhas de apoio que o governo simplesmente não tem tratado.

Finalmente, o terceiro programa que eu vejo é o da identificação, por parte do governo, de um problema de logística e estão tentando ampliar o sistema de estradas de rodagem. O que eu também acho problemático, porque, enquanto a preocupação é grande em relação ao ajuste fiscal, todo o ajuste logístico se dará sobre a expansão do pedágio, o que aumenta o nosso custo. O Rio Grande do Sul é o estado mais pedagiado do Brasil, e o custo de transportes é um problema nosso de competitividade. Não vejo, na logística, propriamente, um estrangulamento. É claro que precisamos nos preocupar com a logística, mas ela não é o ponto de estrangulamento do crescimento do Rio Grande do Sul. Então, me parece que os programas centrais, que se concentrariam no que eu chamo de programa econômico do governo, não estão focando nos problemas cruciais para o desenvolvimento do estado hoje. Irrigação, rastreamento, estrada e reajuste fiscal não são as quatro questões que vão equacionar o nosso desenvolvimento. Então, para ser bem sincero, eu não vejo uma política econômica clara nesse governo.

IHU On-Line – O que significa a não vinda da fábrica da Toyota para o Rio Grande do Sul?

Carlos Paiva – O Rio Grande do Sul tem, na verdade, um parque industrial importante. No entanto, ele não é voltado, especificamente, para a produção de automóveis. Na minha opinião, uma política de apoio no Rio Grande do Sul deve se voltar para as indústrias já existentes. Nós temos uma competitividade grande na produção de ônibus e caminhões com capitais locais. Eu não fico, particularmente, preocupado com o fato de que não venha mais uma fábrica de automóveis para o Rio Grande do Sul. Fico, sim, preocupado com o fato de que somos os maiores exportadores de ônibus do mundo sem existir uma política específica do governo para o apoio desta cadeia produtiva. A preocupação constante de ficar querendo atrair empresas, em geral multinacionais e estrangeiras, à custa de benefícios fiscais para o estado, apenas revela um certo provincianismo, ou seja, uma incapacidade de perceber a grandeza do nosso parque industrial. Nós temos um setor local que é altamente competitivo. A despeito do câmbio com o qual convivemos, continuamos sendo grandes exportadores de veículos de carga e não conseguimos ter um diálogo com essas cadeias de produção.

Do meu ponto de vista, é preciso se voltar para o apoio das indústrias já existentes e tentando descobrir como devemos apoiar a expansão dos grupos metais-mecânico propriamente gaúchos. Esse, para mim, é o problema. A idéia de que resolveremos qualquer problema de industrialização é válida para Bahia e até mesmo para o Paraná, que não têm uma tradição industrial. O Rio Grande do Sul é o segundo estado em valor da transformação industrial; apenas São Paulo nos ganha. Só estes estados têm esta indústria sólida e de base local. Precisamos apoiar esta indústria e não ficar nos preocupando em atrais empresas como se fôssemos da Bahia. Nós temos uma indústria local pujante e importante, que é competitiva e enfrenta problemas em função da política cambial do governo federal. O setor calçadista é um exemplo disso. Ele é o maior cluster calçadista do mundo e está tendo problemas graves em função do câmbio. Não existe uma política estadual para enfrentar o gargalo da cadeia na tentativa de enfrentar nossos problemas cambiais. De qualquer modo, temos qualidade para ocupar nichos importantes no mercado mundial. No entanto, para isso precisamos de maior apoio do governo estadual.

IHU On-Line – O empréstimo do Banco Mundial pode ser uma salvação para a crise econômica do estado?

Carlos Paiva – O empréstimo do Banco Mundial permite que nós nos troquemos uma dívida. Ele não vem canalizado para alguma atividade produtiva imediata. Nós estamos trocando dívidas a taxas de juros elevadas por uma taxa de juros menor, o que irá diminuir o desencaixe anual do governo. É um grande feito da administração Aod [1] e terá conseqüências. Estamos trocando uma dívida velha, adquirida no governo Britto [2] por uma dívida nova, que permite um desencaixe bem menor. Ela terá boas conseqüências apenas se a folga fiscal que determinará de agora em diante for canalizada para políticas de desenvolvimento conseqüentes. Esse é o calcanhar de Aquiles desse governo. Nós temos uma boa administração fiscal – a Aod está fazendo uma política brilhante, inclusive dou meus cumprimentos ao secretário –, mas na área da estratégia de desenvolvimento este governo ainda não disse a que veio.

IHU On-Line – O que o senhor acha que será feito com a folga fiscal, então?

Carlos Paiva – Espero que, pelo menos, consigam trabalhar um pouco melhor a questão salarial, porque a educação no Rio Grande do Sul está cada vez pior e sem educação não há desenvolvimento. Mas apenas aumentar salários não é uma política de desenvolvimento; é preciso mais. A secretária de desenvolvimento e assuntos internacionais ainda não disse a que veio nesse governo, ou seja, não tem um projeto de desenvolvimento real. Houve em outros dois governos reais campanhas de desenvolvimento: no governo Britto e no governo Olívio. Eram projetos distintos, mas claros; nós sabíamos aonde eles queriam chegar. O governo Rigotto [3] foi anódino, absolutamente inconseqüente, sem absolutamente um projeto. E o governo Yeda me parece que está seguindo o mesmo curso. A única sinalização efetiva deles é o ajuste fiscal. Não há uma política de desenvolvimento clara. Então, na medida em que se ajusta fiscalmente, mas não se sabe o que fazer com o dinheiro, não é possível ter muita esperança para o futuro do estado.

IHU On-Line – No plano econômico, a partir do envolvimento do Detran e do Banrisul nos escândalos, como o senhor analisa a crise política pelo qual o estado passa?

Carlos Paiva – O Rio Grande do Sul perdeu uma capacidade de ser referência política nacional há algum tempo. Ele foi uma referência política durante toda a primeira metade do século XX e veio perdendo a sua preeminência em termos de exemplo de administração pública e recusa à corrupção. Houve uma vulgarização entre nossos gestores públicos, que perderam qualidade, capacidade de serem exemplos. Mas isso não é inviabilizar de um projeto de desenvolvimento. Como diz um dos melhores economistas do Rio Grande do Sul, em minha opinião, professor Claudio Accurso [4], o subdesenvolvimento é uma categoria total, não apenas econômica, englobando ética, cultura, política, sociedade. Nós estamos nos revelando como um estado que já teve um certo grau de desenvolvimento político, que tinha um projeto de desenvolvimento e que perdeu. É triste, mas revela apenas uma das dimensões de uma falta de projeto mais geral. Nós retrocedemos e nos tornamos um estado patrimonialista. Isso é a expressão de uma crise mais global. A crise política não é o problema, e sim apenas a ponta do iceberg, pois expressa a nossa crise de sociabilidade e nossa crise de projeto econômico.

IHU On-Line – Qual é a sua opinião em relação ao crescente apoio do governo às empresas de celulose que atuam no sul do estado? De que maneira a atuação dessas empresas influenciará no futuro econômico do estado, levando em conta as implicações no meio ambiente gaúcho?

Carlos Paiva – A Metade Sul é uma região bastante problemática. Ela tem uma estrutura fundiária muito perversa, muito concentrada, o que acaba minando o mercado consumidor da região. O camponês é um grande consumidor e mobiliza a renda urbana. Onde não existem camponeses e só há grandes proprietários, boa parte das demandas de consumo é dirigida para os grandes centros metropolitanos, não mobilizando o comércio local. Então, a estrutura fundiária é perversa para a Metade Sul. Ela tem também problemas climáticos, tanto a qualidade do sol quanto o microclima da região não permitem grandes alternativas de produção. Nesse sentido, o florestamento é uma opção razoável. Não podemos ficar apenas na bovinocultura de corte e no arroz: é preciso diversificar. Se o florestamento é uma alternativa viável economicamente, eu diria que é um passo correto nós tentarmos diversificar e ir nessa direção. Mas o que deve ficar claro é que isso não irá resolver o problema econômico da Metade Sul. É melhor você dar um passo adiante do que ficar parado, mas não espere, com esse passo adiante, chegar ao desenvolvimento da região. Você tem milhares de quilômetros para andar e isso que está sendo feito é apenas um passo, porque a produção de madeira para celulose, ao invés de estimular uma depressão da concentração fundiária, uma democratização do acesso à terra, que seria essencial para o desenvolvimento da Metade Sul, concentra esse setor fundiário. São grandes empreendimentos colocados em grandes estabelecimentos rurais, alguns deles de empresas, outros de proprietários arrendados, que consolidam a estrutura fundiária perversa e empregam muito pouco.

IHU On-Line – Então, o que falta na Metade Sul?

Carlos Paiva – Falta mercado interno. A produção de madeira para a produção de celulose não irá alavancar o mercado interno, nem alterar a estrutura fundiária, nem gerar renda capaz de mobilizar a vida urbana da Metade Sul. Trata-se de um passo adiante, ou seja, eu não sou contra esse projeto, mas é preciso ter cuidado com os perigos de um excesso de florestamento que pode levar a uma desestruturação do bioma da região.

Notas:


[1] Aod Cunha de Moraes Junior é doutor em Economia, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente, é secretário da Fazenda do Rio Grande do Sul. Desde 1991, é professor da PUCRS.

 

 

[2] Antônio Britto Filho é um jornalista e executivo que exerceu os cargos de deputado federal, ministro da Previdência Social e governador do estado do Rio Grande do Sul.

 

 

[3] Germano Rigotto é um político brasileiro. É advogado e dentista graduado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Foi governador do estado.

 

 

[4] Claudio Accurso é economista e ex-secretário de Planejamento do estado.

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