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Residência multiprofissional: dispositivos para um trabalho interdisciplinar

  • Quinta, 5 de Dezembro de 2019

Em 2016, o Observatório da Realidade e das Políticas Públicas do Vale do Rio dos Sinos – ObservaSinos, programa do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, promoveu o edital de publicação para pesquisas e/ou experiências na região do Vale do Rio dos Sinos e Região Metropolitana de Porto Alegre, que contou com a participação de trabalhos que analisaram diversas realidades a partir de diferentes perspectivas.

O trabalho “Residência multiprofissional: dispositivos para um trabalho interdisciplinar” foi realizado por Andréia Sates, Marciane Diel, ambas graduadas em Serviço Social pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos e residentes no programa em saúde mental na Unisinos, Maíra Matos Mello, graduada em Serviço Social pela Fundação Universidade do Tocantins – UNITINS e residente em saúde mental pela Unisinos, Bianca de Souza, graduada em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS e residente em saúde mental pela Unisinos junto à tutora no programa de residência integrada multiprofissional em saúde mental e docente do curso de graduação de Serviço Social na Unisinos, Marla Fernanda Kuhn.

Eis o texto.

O presente artigo tem o intuito de refletir sobre o trabalho interdisciplinar, a inteligência emocional e a comunicação assertiva no âmbito da Residência Integrada Multiprofissional em Saúde Mental. O objetivo é analisar as relações de trabalho entre as diversas disciplinas e a forma como estas se correlacionam no cotidiano profissional.

A escolha por esses assuntos deriva da vivência profissional desenvolvida no decorrer do processo de ensino/aprendizagem propiciado pelo campo da Residência Multiprofissional em Saúde Mental. Tal escolha também se deve ao fato de que as profissionais residentes perceberam, durante as vivências nos serviços, que existem alguns entraves no desenvolvimento do trabalho interdisciplinar.

Alguns apontamentos emergem desta relação, tais como a identificação do processo de construção e desconstrução do conhecimento e do ensino/aprendizagem no campo dos saberes e como estas interagem. Em meio às constatações, faz-se necessário aprofundar o entendimento sobre o que vem a ser trabalho multiprofissional e trabalho em equipe, destacando as diferenças que existem entre ambos.

A partir do compartilhamento do conhecimento específico de cada disciplina, obtêm-se proposições que contribuem efetivamente no desenvolvimento e no aprimoramento de um novo saber. Por isto, através de uma interação democrática é que os profissionais têm a oportunidade de compartilhar os saberes técnico-científicos específicos de suas profissões, promovendo assim a interação das disciplinas e possibilitando a construção e ampliação de um novo saber. Esta interlocução permite uma leitura crítica frente às realidades e propicia uma melhor interpretação dos fenômenos. Souza e Ribeiro (2013, p. 92), ao refletirem sobre como se dá a identificação do trabalho interdisciplinar, destacam que será possível a observação deste quando “se consegue incorporar os resultados” de várias disciplinas, cujos objetivos sofrerem modificação através da relação interdisciplinar.

Desenvolvimento

Como metodologia, optou-se por realizar uma revisão de literatura, e para isso, utilizou-se a pesquisa bibliográfica. Gil (2002, p. 44) depreende que “A pesquisa bibliográfica é desenvolvida com base em material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos”. Elucida que “A principal vantagem da pesquisa bibliográfica reside no fato de permitir ao investigador a cobertura de uma gama de fenômenos muito mais ampla do que aquela que poderia pesquisar diretamente”. (GIL, 2002, p. 45).

A interdisciplinaridade não permite somente a troca de saberes, amplia a parceria, a mediação dos conhecimentos e a construção de diálogo entre as ciências. (CAVALCANTE; REIS; LIRA, 2011). Pensando na efetiva construção deste diálogo entre as ciências humanas e as demais ciências é que se elenca a importância do uso da técnica da comunicação assertiva no processo do trabalho interdisciplinar. Diante disso, surgem algumas barreiras e limites impostos à prática interdisciplinar, pois “ao reconhecer a complexidade dos fenômenos, está, de modo implícito, reconhecendo dialeticamente a necessidade de olhares diferenciados para um mesmo objeto e, dessa forma, não pode prescindir da especialização”. (VASCONCELOS, 2010, p. 50, grifo nosso). Há ainda, na atualidade, a dificuldade de trabalhar com olhares diferenciados para um mesmo objeto, o que limita a efetivação de inúmeras ações.

No entanto, cabe salientar que, independentemente dos obstáculos institucionais existentes, há que se lembrar de que, ao desenvolver o trabalho no campo das ciências humanas, assume-se um compromisso ético-político que compreende a troca de saberes e práticas, em prol daqueles que demandam atenção independentemente da profissão de cada um.

A escolha de analisar o trabalho interdisciplinar enfatizando a importância da inteligência emocional e da comunicação assertiva no desenvolvimento do trabalho multiprofissional advém da percepção do quão fragmentadas são as relações de trabalho entre os profissionais e até mesmo destes com os usuários.

Guebur, Poletto e Vieira (2007, p. 78) trazem em seu estudo as inteligências emocional e racional: “[...] a emoção alimenta e informa as operações da mente racional, e a mente racional refina e às vezes impede os desdobramentos das emoções. Portanto, inteligência emocional e inteligência racional devem complementar-se e estar em constante equilíbrio [...]”.

Discorrer sobre a inteligência emocional é falar sobre a forma que se deve demonstrar suas emoções com inteligência, ou seja, aguardar o momento correto de falar/se pronunciar/opinar. Ter calma e paciência para dar uma reposta clara e objetiva, fazendo-se entender. Ter cuidado no falar/questionar, para não agredir verbalmente o outro. Mas por que é tão difícil expressar-se da forma correta? Fazer com que o outro compreenda exatamente o que você está dizendo?

Muitas vezes, durante uma conversa, surgem discussões calorosas. E o mais fácil é fazer com que o outro se sinta culpado; a pessoa livra-se de toda a responsabilidade e joga para a outra. Desta forma sai tranquila da situação. Será? Quem faz isto simplesmente lava as mãos e não pega para si, mas no fundo será que não se questiona? Somos seres humanos, cometemos erros e buscamos a todo o momento nos tornar melhores em todas as dimensões do viver.

Segundo Gelis Filho e Blikstein (2013, p. 28), “Fugir de algumas armadilhas e desenvolver uma comunicação eficaz pode ser o caminho para estabelecer relações mais colaborativas no ambiente de trabalho”. Sendo assim, comunicar-se cordialmente, de forma clara e com empatia para com o colega de trabalho, colocar-se no lugar do outro para buscar compreender o que o outro está sentindo.

Surge então, a comunicação assertiva, na qual almejamos uma comunicação com respeito. Um respeito mútuo entre os profissionais no ambiente de trabalho. (GELIS FILHO; BLIKSTEIN, 2013). Comunicar-se de forma clara, objetiva e respeitosa. Falar com firmeza, sem ser agressivo.

Lidar com as emoções e comunicar-se de forma assertiva requer prática e consiste num caminho possível de construção da nossa saúde emocional. Desta forma estamos contribuindo para a efetivação de relações saudáveis e para os processos de trabalho voltados para a qualidade de vida.

Conclusão

No decorrer do período de experiência/vivência em serviços da Saúde Mental, as residentes observaram que as equipes sinalizam que trabalham na perspectiva da interdisciplinaridade. Porém, na prática, observa-se que muitas vezes as ações se dão isoladamente, ou seja, as disciplinas não se comunicam efetivamente. Cada profissional tem sua especificidade e trabalha com ela, não integrando as outras áreas profissionais.

Em alguns serviços, percebe-se que a especificidade se perde, o profissional exerce uma função generalista, olvidando-se de realizar muitas vezes o que compete a sua área de formação. Por vezes é difícil identificar as limitações e possibilidades no trabalho; isto evidencia a importância de reconhecer a área de formação/especificidade profissional.

O trabalho em equipe, no qual se pode contar com o colega de outra formação, é fundamental para o bom funcionamento de um serviço e reflete diretamente na qualidade do atendimento prestado ao usuário. Por isto, a importância do desenvolvimento do trabalho em equipe na perspectiva interdisciplinar, e não somente multiprofissional.

Conclui-se que, ao trabalhar em equipe, é necessário fazer uso da inteligência emocional a fim de desenvolver habilidades e competências para que haja um bom relacionamento com os colegas de trabalho. Utilizar a comunicação assertiva é fundamental para deixar claras as ideias, opiniões e para o trabalho fluir. A comunicação assertiva, segundo os autores citados, precisa de treino; coloquemo-nos a desenvolvê-la.

 

Referências

CAVALCANTE, Andreia Santos; REIS, Milane Lima; LIRA, Suzete Araujo de. Interdisciplinaridade e questão social: novo paradigma no trabalho do serviço social na Amazônia. In: CONFERÊNCIA DO DESENVOLVIMENTO - CODE, 2., 2011, Brasília. Anais eletrônicos... Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), 2011. Disponível em: <http://www.ipea.gov.br/code2011/chamada2011/pdf/area2/area2-artigo30.pdf>. Acesso em: 12 set. 2016.

GELIS FILHO, Antônio; BLIKSTEIN, Izidoro. Comunicação Assertiva e o relacionamento nas empresas. GV-executivo, v. 12, n. 2, jul./dez. 2013. Disponível em: <http://rae.fgv.br/gv-executivo/vol12-num2-2013/comunicacao-assertiva-relacionamento-nas-empresas>. Acesso em: 10 set. 2016.

GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2002. Disponível em: <https://professores.faccat.br/moodle/pluginfile.php/13410/mod_resource/content/1/como_el aborar_projeto_de_pesquisa_-_antonio_carlos_gil.pdf>. Acesso em: 10 set. 2016.

GUEBUR, Andréa Zocateli; POLETTO, Cleusa Aparecida; VIEIRA, Daicy Maria Sipoly. Inteligência emocional no trabalho. Intersaberes, Curitiba, v. 2, n. 3, p. 71-96, jan./jun. 2007. Disponível em: <http://www.grupouninter.com.br/intersaberes/index.php/revista/article/view/108/81>. Acesso em: 10 set. 2016.

SOUZA, Ana Carolina Santos de; RIBEIRO, Mara Cristina. A interdisciplinaridade em um CAPS: a visão dos trabalhadores. Cadernos de Terapia Ocupacional, São Carlos, v. 21, n. 1, p. 91-98. 2013. Disponível em: <http://www.cadernosdeterapiaocupacional.ufscar.br/index.php/cadernos/article/view/734>. Acesso em: 24 set. 2016.

VASCONCELOS, Eduardo Mourão. O campo da Saúde Mental na perspectiva da Desinstitucionalização, da Cidadania e da Interdisciplinaridade. In: VASCONCELOS, Eduardo Mourão (Org.); ROSA, Lúcia Cristina dos Santos; PEREIRA, Ivana Carla Garcia; BISNETO, José Augusto. Saúde mental e serviço social: o desafio da subjetividade e da interdisciplinaridade. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2010. p. 7-124.

206 mil pessoas desempregadas na RMPA em novembro

  • Quinta, 5 de Dezembro de 2019

Estima-se que 206 mil pessoas estejam desempregadas na Região Metropolitana de Porto Alegre - RMPA em novembro de 2016, o que indica 10,8% da população economicamente ativa. De outubro a novembro, houve redução de 1,4% no nível de ocupação, ocorrendo redução de 7,6% na indústria de transformação, ou seja, menos 22 mil ocupados.

O Observatório da realidade e das políticas públicas do Vale do Rio dos Sinos – ObservaSinos, programa do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, compartilha a nota da Fundação de Economia e Estatística – FEE sobre a movimentação no mercado de trabalho na Região Metropolitana de Porto Alegre em novembro de 2016.

Eis a nota.

A taxa de desemprego na Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA) se manteve estável em novembro de 2016, enquanto o nível ocupacional voltou a se retrair. O rendimento médio real referente ao mês de outubro de 2016 apresentou variações positivas para os ocupados e para os assalariados. Os dados integram a Pesquisa de Emprego e Desemprego, divulgada nesta segunda-feira (19), pela Fundação de Economia e Estatística (FEE), pela Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social (FGTAS) e pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE).

Ao todo, estima-se que 206 mil pessoas estejam desempregadas, o que corresponde a 10,8% da População Economicamente Ativa. O resultado sinaliza uma redução de três mil indivíduos em relação ao mês anterior e decorre da redução da ocupação (menos 25 mil pessoas, -1,4%) ter sido inferior ao número de pessoas que saíram do mercado de trabalho (menos 28 mil, -1,4%). Para a economista da FEE Iracema Castelo Branco, Coordenadora do Núcleo de Análise Socioeconômica e Estatística, “O nível ocupacional continua se retraindo em consequência da recessão econômica, desestimulando a procura por trabalho. A saída de pessoas do mercado de trabalho tem arrefecido o crescimento da taxa de desemprego”.

Com relação aos setores de atividade econômica, novembro registrou diminuição do nível ocupacional na indústria de transformação (menos 22 mil ocupados, ou -7,6%), no comércio; no setor de reparação de veículos automotores e motocicletas (menos 8 mil ocupados, ou -2,3%), e na construção (menos 5 mil ocupados, ou -3,8%). Por outro lado, houve aumento nos serviços, com mais 14 mil ocupados (1,5%).

Houve redução de 32 mil (-2,7%) postos de trabalho assalariado, principalmente no setor privado (menos 24 mil), e, em menor proporção, no setor público (menos 7 mil, ou -3,5%). Novembro registra também retração dos empregos com carteira (menos 20 mil, ou -2,2%) e, em menor medida, do sem carteira (menos 4 mil, ou -4,2%). Houve aumento no emprego doméstico (mais 4 mil, ou 4,1%) e no agregado demais posições, que inclui empregadores, donos de negócio familiar, trabalhadores familiares sem remuneração, profissionais liberais, etc. (mais 2 mil, ou 1,1%), além de variação positiva entre os trabalhadores autônomos (mais 1 mil, ou 0,4%).

Entre setembro e outubro de 2016, o rendimento médio real apresentou variação positiva tanto para o total de ocupados (0,9%) quanto para os assalariados (0,4%). O salário médio é de R$ 1.860 reais.

Comparativo com novembro de 2015 e perspectivas

Entre novembro de 2015 e novembro de 2016, a taxa de desemprego total na RMPA aumentou de 10,2% para 10,8% da População Economicamente Ativa. Na comparação anual, o contingente de desempregados aumentou em 11 mil pessoas. Esse resultado deve-se à redução do nível de ocupação (menos 15 mil postos de trabalho, ou -0,9%) ter sido superior à saída de pessoas do mercado de trabalho da Região (menos 4 mil, ou -0,2%).

Na comparação de 12 meses observa-se decréscimo de 0,9% no nível ocupacional. Setorialmente, esse resultado decorre de reduções nos serviços (menos 29 mil ocupados, ou -2,9%) e na indústria de transformação (menos 3 mil ocupados, ou -1,1%) e do aumento nas contratações no comércio, reparação de veículos automotores e motocicletas (mais 20 mil ocupados, ou 6,3%) e na construção (mais 3 mil ocupados, ou 2,4%).

Entre outubro de 2015 e outubro de 2016, houve redução dos rendimentos médios reais de ocupados (-10,3%), assalariados (-5,1%) e autônomos (-8,7%).

“Diante da perspectiva de um cenário de fraco crescimento econômico para 2017, a tendência mais provável é de que a taxa de desemprego se mantenha elevada, o que contribui para um agravamento do processo de deterioração do mercado de trabalho”, analisa Iracema Castelo Branco. “Essa conjuntura reforça a necessidade de um acompanhamento sistemático dos indicadores do mercado de trabalho, realizada, há 25 anos, pela FEE e parceiros, através da Pesquisa de Emprego e Desemprego da Região Metropolitana de Porto Alegre (PED-RMPA)”, ressalta a economista.

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