Como se expressa o mal-estar entre os bispos e o papa

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26 Julho 2016

Os nossos bispos têm todas as razões para temer o novo. E o papa faz bem em instá-los a enfrentá-lo.

O comentário é do jornalista italiano Luigi Accattoli, publicado na revista Il Regno – Attualità, n. 10, 15-05-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O que está em jogo é grande, a situação é criativa: foi assim que eu respondia – nos dias da Assembleia da Conferência Episcopal Italiana – a uma pergunta televisiva sobre o desconforto que, há três anos, marca a relação entre o episcopado italiano e Bergoglio. Muitos falam disso, poucos o indagam. Vou tentar fazer isso, colocando em ordem os pontos de conversa com os bispos nos meus giros de conferências.

Em uma edição anterior desta coluna (cf. Il Regno – Attualità, 6/2016, p. 191s), eu havia descrito o "contágio" que gestos, palavras e escolhas do papa vão transmitindo ao episcopado italiano, e dava os nomes daqueles que escolheram não residir no bispado, daqueles que celebram nos dias de semana para o povo e fazem a homilia, e assim por diante.

"Ele nos estimula a nos movermos, mas aonde nos quer levar?"

Do contágio ao desconforto. Desta vez, eu descrevo o outro lado da moeda, mas sem citar nomes: prometi isso aos interlocutores, mas asseguro aos leitores que as palavras que eu coloco entre aspas estão todas cobertas por solidéus violetas.

"Eu admiro a generosidade dele. Havia muita desmotivação por aí. A chegada dele foi um resgate psicológico. Mas por que tanta inquietação, qual é o plano?", é a pergunta feita por um bispo que, antes de dirigir uma diocese, estava no Vaticano.

Tomando emprestadas as palavras francas do padre Lombardi, tento responder que Francisco não tem um plano orgânico alternativo a ser implementado, mas a sua ansiedade, ao contrário, é a resposta a uma situação que pede para que nos ponhamos a caminho. Ele não sabe para onde vai: ele confia no Espírito.

"Ele repreende, estimula a nos movermos: mas aonde quer nos levar?", pergunta outro em nada tranquilizado com a resposta que me tranquiliza.

"Eu tenho a impressão de que ele tem uma opinião negativa sobre nós, bispos, e não entendo de onde isso vem. A Itália ainda é o núcleo duro da Igreja Católica. Por que ele bate em nós?"

Diversos bispos insistem nas "reprimendas" do papa. Eu observo que Francisco acha a Igreja italiana admirável em muitos aspectos e, de vez em quando, diz isso, mas acredita que ela – e os bispos, em primeiro lugar – não sente a urgência epocal de "sair" com o Evangelho rumo a toda a humanidade que a rodeia. Urgência que, ao contrário, é o logos do pontificado. Todos os seus estímulos à CEI – argumento eu – podem ser lidos no sinal da saída missionária, como encaminhamento para ela.

"Mas o que significa ‘saída’?", responde-me um dos interlocutores. "É fácil dizer, mas e fazer? Em uma dada situação, na minha diocese, o que isso envolve?"

Entre os bispos, há aqueles que admiram a capacidade do papa de fazer gestos de misericórdia "em saída", digamos, em relação aos deserdados, aos não crentes; mas eles se perguntam sobre todo o resto: sobre o catecismo, o Código, os seminários, as paróquias, as leis cada vez mais distantes do sentimento cristão.

"O que dizer, o que fazer?"

"Ele bloqueou o chavão dos valores inegociáveis, mas com o que o substituiu?": a pergunta vem de alguém que não compartilhava o chavão, mas não se contenta com as meias palavras atuais.

"Porque é uma meia palavra, ou não?"

Eu arrisco dizer que, provavelmente, o papa acredita que o mesmo compromisso tradicional de combate à secularização legislativa, na realidade, foi conduzido – e continua sendo conduzido – mais por exigências internas, ou seja, para assegurar e confirmar os praticantes, do que por saída missionária, ou seja, como um momento do anúncio cristão ad extra.

"Sinto-me mandado para o precipício"

Insisto sobre o assunto-chave do reequilíbrio da pregação da Igreja que estava desequilibrada sobre as implicações morais do anúncio e que o papa, ao contrário, gostaria de ver centrada no querigma, como ele disse muitas vezes. Especialmente sobre o sair para fora para levar o Evangelho aos não crentes.

Um bispo me diz que, ao ouvir as advertências de Francesco sobre a saída, tem a impressão de ser mandado para o precipício: "É como o papa jesuíta se comportasse na Europa do terceiro milênio como o jesuíta Matteo Ricci se comportava na China de 1600". Os mais disponíveis entre os bispos italianos admiram a audácia apostólica bergogliana, mas preferem permanecer no já conhecido. Sentem a vertigem do desconhecido.

Há também "desconfortos" mais pontuais e mais pontudos. "Ele se refere aos padrinhos de batismo e de crisma, diz que não é justo excluir aqueles que estão em uma situação matrimonial irregular, mas, depois, não modifica as regras existentes, e assim, nos põe em dificuldade diante do povo."

"Os fiéis nos objetam continuamente que ‘o papa disse’. Acima de tudo, entenderam mal. Mas vá convencê-los... Ele é rápido para falar, mas, infelizmente, não leva em conta que somos nós que estamos nas trincheiras. Parece que ele não foi bispo."

"Na Amoris laetitia, no n. 300, ele escreveu que o discernimento das situações pessoais deve ser conduzido no diálogo com o confessor, ‘segundo a doutrina da Igreja e as orientações do bispo’: sou eu, bispo, que devo dar essas orientações? Se o papa não as deu – imagino que porque não as tinha – como eu posso dá-las?"

"No último Sínodo, eu lhe tinha feito a pergunta sobre quais serviços eclesiais podiam ser confiados a pessoas que estão em situação matrimonial irregular, e ele, no parágrafo 299, em vez de honrar aquele pedido, confia novamente a questão a nós, que somos pressionados pela expectativa das pessoas."

A ameaça de remover os bispos

"No parágrafo 122, ele afirma que ‘não se deve jogar em cima de duas pessoas limitadas o peso tremendo de ter que reproduzir perfeitamente a união que existe entre Cristo e a sua Igreja’: eu considero essa uma afirmação imprudente. Façamos uma comparação com o clero: diremos que não se deve jogar sobre o padre o peso de ter que se portar como figura do Bom Pastor?"

"Na reforma do processo de nulidade, ele colocou o bispo como único juiz, e agora as pessoas vêm ao meu encontro – pobre de mim – como se eu pudesse lidar com cada caso: ‘Você é o juiz, foi o papa quem disse’. E todos querem um processo breve."

"O que interessa aos fiéis é a comunhão. Se o discernimento chegar a autorizar o acesso aos sacramentos, o reconhecimento da nulidade não importa mais."

É grande a lamentação sobre as nomeações. "Ele não segue a práxis, faz de acordo com a sua cabeça. Entende-se que ele quer contradizer o carreirismo e as filas, mas a práxis era um salva-vidas para evitar erros. Procedendo sem rede, que garantia ele tem de não se equivocar?"

"Ele toma uma liberdade que embaraça os colaboradores da Cúria e os responsáveis da CEI. Para muitos, é como se tivesse desaparecido a relação de confiança."

"Ele não só bate nos padres e nos bispos, mas agora chegou a ameaçar de remoção os bispos que não se esforçam para combater a pedofilia do clero. Justamente essa medida eu não entendi: é um campo delicado, o bispo é um pai e também deve encontrar maneiras de ser um pai misericordioso, ou não?"

O medo de ir longe demais

Entre os bispos, também correm pequenas críticas, ao lado das grandes. "Eu entendo que ele quer parecer pobre, mas usar uma veste transparente que mostra o preto das calças não é negligência? Quando nós, bispos, somos nomeados, dão-nos instruções severas sobre o vestuário, para nos apresentarmos sempre em ordem! Para o papa isso não vale?"

"Ele sempre fala das periferias: e quem não está nas periferias? O norte da Itália não tem periferias. Ela não conta? Ele foi visitar apenas pequenos centros e nunca vai para o Norte. São atitudes mortificantes."

Eu observo que esse caso das cidades não é verdade: ele foi para Nápoles, para Turim, para Florença. Portanto, as grandes cidades também estão presentes, assim como o Norte. Mas a simplificação é indicativa do desconforto.

"Ele fala tanto da sinodalidade, mas depois decide sozinho. Ele diz que é preciso descentralizar, mas nunca se tinha visto uma centralização pessoal do governo tão forte."

Eu observo que isso é verdade, e que a contradição pode ser entendida na direção certa: sendo o sistema católico totalmente centrado no papa, é necessário que seja o papa, motu proprio, a iniciar a descentralização.

Muitas das conversas das quais eu relato e outras semelhantes ocorreram entre os dois Sínodos, quase todas marcadas por algum alerta, às vezes grande, sobre "como isso vai acabar". Eu não relatei esses alertas, porque não são mais atuais, mas eram significativos do desconforto que eu vou descrevendo.

Trata-se, principalmente, de bispos simpatizantes do papa argentino, mas temerosos de que ele fosse longe demais e se expusesse ao risco de clamorosas contestações de cardeais ou de Padres sinodais, que talvez poderiam impedi-lo de dizer o seu grande coração. Eu tranquilizava: o papa sabe, é preparado, é hábil, não vai dar passos em falso, as suas intenções não são tão agressivas, o conjunto dos episcopados não está longe dos seus sentimentos, ele será autorizado a dar alguns passos, e as novidades que ele finalmente afirmar encontrarão um consenso mais amplo.

"Não sabemos discutir e não suportamos o conflito"

Foi exatamente isso que aconteceu. Mas, dando garantias, eu percebia a cena surreal da qual eu fazia parte: um jornalista tranquiliza um bispo sobre o papa, sobre o Sínodo. Em uma das situações, eu estava à mesa até com quatro bispos. Eles tremiam pior do que os colegas jornalistas. Para tranquilizar os colegas, eu me viro: nasci para isso. Mas, os bispos, como tranquilizá-los?

Ainda hoje, olhando para trás, acho inverossímeis aqueles temores e me pergunto como podiam ser tão fortes. Arrisco uma resposta: na Igreja, não estamos acostumados com o debate. Principalmente, não suportamos o conflito. Ele foi grande e fez escola em zona conciliar, mas os protagonistas daquela época estão eméritos há muito tempo, e hoje nem mesmo os bispos têm uma memória verdadeira dele.

Mas o conflito é saúde. E acho salutar que ele exista, um pouco ou muito, entre os bispos e o papa.

Nota da IHU On-Line:

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