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Populações Indígenas no Vale dos Sinos

Sensibilizados pelo XII Simpósio Internacional "A experiência missioneira, território, cultura e identidade" promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, o Observasinos promoveu o debate com prof. Dr. Walmir Pereira e o acadêmico Diego Fernandes Dias Severo, pesquisadores da realidade indígena do Vale dos Sinos.

Nesta primeira análise sobe a realidade indígena, são apresentados indicadores brasileiros. A população indígena no Brasil é pouco numerosa se comparada com os dados demográficos estimados do século XVI. Os motivos são vários especialmente provocados pelo contato com o colonizador europeu, que trouxe doenças ainda desconhecidas pelo povo indígena.

Dados importantes são disponibilizados pelo IBGE, que datam de 1999, conforme o gráfico abaixo.

Distribuição regional da população indígena - 1999

Fonte:Anuário Estatístico do Brasil 1998.

Apesar dos índices apresentados serem de mais de 10 anos atrás, apontam a pequena presença de índios na grande maioria dos estados brasileiros. Este dado fica qualificado quando apresentados conforme regionalização brasileira.



É significativa a diferença dos índices da população do norte e do sul do país em relação à presença dos povos indígenas.

Importante também observar que há uma crescente destruição destes povos.  Promovida pela colonização portuguesa e espanhola. As tabelas a seguir demonstram esta  realidade.



Fonte: IBGE

Nos municípios que compõem o Vale dos Sinos somente na cidade de São Leopoldo vive um agrupamento indígena, que são os índios Kaingang. São um grupo da matriz Jê Meridional. Juntamente com a população Kaingang o estado do Rio Grande do Sul é composto por quatro grupos são eles: Xokleng, Guarani e Charrua.


Os Kaingang são descendentes de uma antiga e já extinta sociedade tribal chamada Guainá. No estado, o grupo Kaingang está localizado na região norte onde estão as grandes reservas indígenas. A aldeia de São Leopoldo é composta em sua maioria por pessoas vindas da reserva de Nonoai. Sua presença é ignorada por muitos. O desafio está em reconhecer a história de São Leopoldo não somente através da versão dos imigrantes alemães. A aldeia está localizada no bairro Feitoria na Estrada do Quilombo, que é região de muitas batalhas dos escravos com seus exploradores e o mesmo aconteceu com o povo Kaingang. Neste período essa região era habitada por um grupo de indígenas que lutaram bravamente para defender o seu território, porém não tiveram sucesso e a invasão territorial na região aconteceu sem precedentes.

Retomado um pouco do contexto histórico e da origem do povo Kaingang na região cabe relatar como aconteceu o processo de reivindicação de aldeamento dos indígenas na cidade. O grupo hoje que compõe a aldeia viveu muitos anos sob um viaduto da BR-116 na cidade de São Leopoldo. Não tinham nenhuma assistência da prefeitura sem condições de dignidade e sofriam inúmeros preconceitos pela sua condição material. Pelos relatos de lideranças da comunidade de São Leopoldo pode-se afirmar que, a luta por dignidade ainda não foi vencida. Severo destaca: "Os indígenas passaram cerca de oito anos debaixo de um viaduto da BR-116 para conquistar um pedaço de seu território que hoje é habitado por nós "brancos invasores", no ano de 2005 a prefeitura municipal fez negocio com o proprietário da terra onde está localizada a aldeia e concedeu o terreno que é municipal para os indígenas. Essa postura tem de ser elogiada, mas não devemos achar que as coisas na comunidade são maravilhas e que São Leopoldo é um "governo indígena ou em prol da causa", não sem dúvida nenhuma não é indígena e nem muito em prol da causa". A comunidade passou três anos na localidade sem banheiros adequados, isso significa banho gelado, esgoto sem saneamento e conseqüentemente muitas doenças principalmente para as crianças. A construção dos banheiros só foi possibilitada pela intervenção do Ministério Público. Pois a prefeitura municipal estava acomodada, pois como foi quem adquiriu a terra para os indígenas, se viu no direito de esperar que os órgãos responsáveis pela proteção e saúde indígena (respectivamente FUNAI e FUNASA) tomassem o seu papel. 

Diego e Walmir relatam suas idas a campo. "Em uma das idas a comunidade em São Leopoldo, enquanto esperava o inicio das aulas à tarde chegou um engenheiro da prefeitura, que foi verificar o andamento da construção de banheiros que foram colocados na comunidade. Conversando com ele, me relatou que os banheiros inicialmente não estavam previstos, só estava previsto a instalação de um banheiro para uma menina que é deficiente, me falou que a comunidade não queria a instalação de banheiros e depois que colocaram alguns, a comunidade queria um banheiro em cada casa. Criticou a imigração dos indígenas, que vieram de Nonoai e que não podem querer que o seu território permaneça em todos os lugares. Comentou sobre o trabalho infantil e que deveria se punir os indígenas por estarem colocando as crianças para venderem os artesanatos junto com seus pais, criticou a comunidade por não se inserir no contexto do "homem branco".

Após a conversa com o engenheiro, perguntei as lideranças da comunidade como andava a construção dos banheiros na comunidade, me relataram que os banheiros estavam em construção há um ano e somente o banheiro para deficiente físico estava pronto, comentaram também que segundo informações da prefeitura o valor da construção dos banheiros foi de R$ 29.000 (vinte e nove mil reais) um valor considerável. A demora pode ser justificada pelo material que apesar de não ter entrado nos banheiros por estarem fechados, deve ser de uma luxuria inacreditável. Devemos parabenizar a administração popular da prefeitura de São Leopoldo que valoriza as sociedades originárias com banheiros que segundo a visão de seus agentes é um luxo desnecessário para os povos indígenas que deveriam estar em Nonoai/RS."

Atualmente a comunidade indígena de São Leopoldo onde vivem 25 familias, aproximadamente 100 pessoas têm sido acompanhadas pela SACIS especificamente nos cadastros realizados para receber o beneficio do Bolsa Família. Contam com uma escola indígena que funciona em dois turnos (manha e tarde) com professores Kaingang moradores da aldeia e estudantes do curso de Pedagogia da Ufrgs. Além dos programas de transferência de renda do governo federal, os indígenas trabalham produzindo artesanatos, com pequenas plantações de legumes (coletiva e individual), como professores remunerados pelo estado tendo em vista que a escola é considerada estadual, agentes de saúde, homens como construtores civis entre outros.

As expressões da realidade da população indígena na cidade de São Leopoldo  aqui apresentadas revelam parcela das vivências, que são caracterizadas pelos desafios e pelas resistências desta população que gerou o Brasil. Conhecer esta história é fundamental para o enfrentamento aos desafios da contemporaneidade.

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