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Católicos dos EUA organizam "motim" contra o ensino da Igreja sobre casamento gay

Durante 13 anos, o Pe. Joseph Palacios (foto) viveu, rezou e estudou com os jesuítas. Mas ele deixou a ordem católica romana em 2005, porque não professaria um voto de obediência ao Papa.

"Eu sentia que ainda poderia ser um padre católico", disse Palacios, "mas não poderia lidar com esse tipo de controle e de comando de cima para baixo".

A reportagem é de Daniel Burke, publicada no sítio Religion News Service, 04-10-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Agora, o sacerdote de 59 anos e professor adjunto da Georgetown University, a mais antiga universidade católica do país, está novamente em conflito com a hierarquia da Igreja, desta vez por causa de uma questão crucial: a definição de casamento.

Nos últimos anos, os bispos católicos usaram sua influência moral e seus grandes bolsos para incentivar a proibição de uniões entre pessoas do mesmo sexo nos Estados Unidos, da Califórnia ao Maine.

Mas um novo grupo de católicos cada vez mais proeminente está convocando um "motim" contra a hierarquia, nas palavras de um militante, particularmente com relação ao casamento gay e assuntos relacionados.

Por exemplo, no dia 14 de setembro, Palacios e outros defensores lançaram o Catholics for Equality [Católicos pela Igualdade] (www.catholicsforequality.org), um grupo que visa persuadir os fiéis do "meio móvel" [sem opinião definida, indecisos] para desafiar os bispos e apoiar os direitos civis de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros.

Da mesma forma, no dia 29 de setembro, quatro grupos católicos com 112 anos somados de ativismo em questões gays anunciou a formação da Equally Blessed [Igualmente Abençoados], uma coalizão dedicada a fornecer uma voz para os católicos "fiéis e pró-igualdade".

Na última semana, o envio de 400 mil DVDs a cada um das famílias católicas cadastradas no Estado do Minnesota, explicando a posição da Igreja sobre o casamento, provocou uma campanha chamada "Devolva o DVD". Uma artista católica se comprometeu a fazer uma escultura com os discos descartados.

A "defesa do casamento" é uma prioridade central para a Conferência dos Bispos Católicos dos EUA, que formou um comitê especial no ano passado para promover os ensinamentos da Igreja por meio de cartas, vídeos e ativismo político. O orçamento anual do comitê de 418 mil dólares será financiado pelos Cavaleiros de Colombo [associação de leigos católica] até 2011.

"Grande parte da discussão pública tem se centrado nos direitos", disse Andrew Lichtenwalner, especialista do comitê sobre o casamento dos bispos norte-americanos. "O que os bispos estão fazendo é ensinar sobre o sentido e o objetivo únicos do casamento, que têm ficado ausente na conversa".

Palacios, que ensina sociologia na Georgetown, diz que pesquisas mostram que os católicos "estão aceitando as pessoas LGBT mais do que qualquer outro grupo cristão". Ele citou uma pesquisa da Gallup de maio de 2010 em que 62% dos católicos disseram que o relacionamento de gays e lésbicas são "moralmente aceitáveis" – um aumento de 16% em relação a apenas quatro anos atrás.

Outras pesquisas mostram que os católicos são mais ambivalentes com relação ao casamento gay e à adoção por casais homossexuais, situações às quais os bispos norte-americanos se opõem.

Os defensores católicos dos direitos dos gays foram encorajados pelo exemplo das irmãs que contrariaram os bispos por meio do apoio à reforma da saúde pública que o Congresso aprovou em março passado, disse Francis DeBernardo, diretor executivo da New Ways Ministry, um dos grupos envolvidos na Equally Blessed.

"As pessoas estão usando isso como uma pedra de toque", disse ele. "Elas veem que as irmãs foram corajosas, e eles sentem que podem ser corajosos. A coragem é contagiosa".

Mas a coragem de um homem é a heresia do outro, e os bispos estão ansiosos para sufocar a dissidência dentro da Igreja.

A artista que sugeriu a escultura com os DVDs foi suspensa de seu trabalho de artista em residência na Basílica de St. Mary, em Minneapolis. Grupos como a New Ways foram julgados como católicos inautênticos. Na semana passada, a comissão de doutrina dos bispos norte-americanos emitiu uma repreensão dura e detalhada de um livro escrito por dois teólogos que desafiou o ensino da Igreja sobre a sexualidade. Os padres que apoiam o casamento gay foram silenciados ou removidos do ministério.

Palacios, que é abertamente gay, diz que conhece os riscos e tem sido cuidadoso para não dar a impressão de que fala em nome da Igreja. Ele disse que raramente usa o colarinho de sacerdote [clergyman] em público, e suas biografias nos sites da Georgetown e do Catholics for Equality omitem referências à sua ordenação. Palacios tambéem disse que não está se posicionando contra os dogmas da igreja – apenas contra suas posições políticas sobre questões gays.

Mas líderes católicos dizem que não há espaço de manobra entre os dois, e Palacios está se esquivando de suas funções sacerdotais.

"O papel de um padre é ajudar as pessoas a compreender mais profundamente os ensinamentos da igreja", disse Susan Gibbs, porta-voz da Arquidiocese de Washington, onde Palacios trabalha, "não simplesmente mover-se com os ventos da cultura secular".

Como é prática comum na Igreja, Palacios recebeu privilégios sacerdotais – como a autorização para ministrar os sacramentos – quando se mudou de Los Angeles, onde ele foi ordenado sacerdote, para Washington, disse Gibbs. Ela afirmou que questionou as autoridades de Los Angeles no ano passado depois que Palacios testemunhou em favor do casamento gay antes do conselho da cidade de Washington.

A Arquidiocese de Los Angeles, a respeito da defesa de Palacios, disse: "Agora estamos conscientes disso e estamos avaliando a sua participação" no Catholics for Equality.

A Georgetown University, que foi criticada por empregar um padre que se posiciona contra os ensinamentos da Igreja, disse que Palacios foi contratado para lecionar meio turno devido aos méritos de suas credenciais, "não com base em nenhum tipo de filiação que ele possa ter com organizações externas, o que é feito em título pessoal".

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