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Haitianos rejeitam sementes da Monsanto

O grupo agroquímico Monsanto dispôs-se a doar 475 toneladas de sementes transgênicas para apoiar a agricultura do país centro-americano vitimado pelo terremoto em fevereiro passado. A reação de Jean Michel Caroit no diário francês Le Monde indaga se é um gesto altruísta diante da catástrofe haitiana ou um cálice envenenado?

A notícia é da Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC), 06-07-2010.

A repercussão da controvérsia frente à rejeição dessa doação provocou, no governo de René Préval, reações porque os programas de reconstrução parecem não se concretizar quase seis meses depois do terremoto que matou mais de 250 mil mortes e deixou 1,3 milhão de desabrigados.

A polêmica começou quando o padre Jean-Yves Urfié, um bretão químico de formação que morou no Haiti, criticou a doação da empresa especializada em transgenia.

A mobilização do movimento antiglobalização nos Estados Unidos se ampliou após a publicação de um artigo de Ronnie Cummins, da Associação dos Consumidores de produtos orgânicos, no sítio do Huffington Post, em que ele criticava as “pílulas envenenadas que visavam voltar a fazer do Haiti uma colônia de escravos, não mais da França, mas sim da Monsanto e das multinacionais do agronegócio”.

O ministro haitiano da Agricultura, Joanas Gué, tentou contornar a situação negando ter aceito as sementes geneticamente modificadas: “Nós tomamos todas as precauções antes de aceitar a oferta feita pela multinacional Monsanto de doar 475.947 quilos de sementes de milho híbrido, bem como de 2.067 quilos de sementes de hortaliças”, afirmou.

Apesar desse esclarecimento, uma dezena de organizações camponesas que integram a Via Campesina seguiu criticando a Monsanto. O movimento cresceu quando milhares de agricultores, de camisa vermelha e vestindo grandes chapéus de palha, se manifestaram no dia 4 de junho em Hinche, na região do Planalto Central. Além da Monsanto, as palavras de ordem acusavam o presidente haitiano, René Préval, de “vender o país às multinacionais”.

“Estamos lutando por nossa soberania alimentar e nossas sementes locais. As doações da Monsanto são um ataque contra a agricultura camponesa e nossa biodiversidade”, argumentou Chavannes Jean-Baptiste, líder camponês e amigo da ex-primeira dama francesa, Danielle Mitterrand.

“A Monsanto está se aproveitando do terremoto para entrar no mercado das sementes no Haiti”, agregou. Na Usaid, a agência de cooperação americana, parceira da Monsanto na distribuição de sementes por meio do Projeto Winner, o líder camponês defendeu uma “agricultura camponesa que contribua para resfriar o planeta”, e denunciou ao indagar: “por que os produtos orgânicos são bons na Califórnia e não no Haiti?”.

Ele observou que as “sementes híbridas devem ser compradas todo ano, já que seu desempenho enfraquece e não é interessante replantar os grãos colhidos. Elas vão eliminar as sementes locais que existem há mais de dois séculos e tornar os camponeses dependentes do agronegócio”, disse o ativista.

O Haiti, afirmou, tem quantidade suficiente de sementes tradicionais, mas os camponeses não têm dinheiro para comprá-las. “A plataforma das organizações camponesas comprou mais de 500 toneladas de sementes que distribuímos gratuitamente, com prioridade para famílias camponesas que acolheram desabrigados do terremoto”.

A Monsanto fez uma “doação filantrópica ao povo do Haiti e os camponeses são livres para utilizar as sementes que melhor lhe convierem”, rebateu seu representante, Darren Wallis. “As sementes híbridas são utilizadas há anos pela vizinha República Dominicana”, assinalou.

O presidente da Monsanto, Hugh Grant, decidiu doar sementes quando participava do Fórum Mundial de Davos, realizado logo após o terremoto.

O Haiti já recebeu duas cargas com 130 toneladas de sementes, que são revendidas a baixos preços. O Projeto Winner utiliza esses lucros para comprar insumos e convencer os camponeses a usarem as sementes geneticamente modificadas.

 

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