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Frei Carlo, nosso profeta. Um artigo de Enzo Bianchi

"Existem figuras na história bimilenar da Igreja que marcam uma determinada fase com o seu testemunho e depois parecem retirar-se em silêncio, confiando a sua herança espiritual ao aparentemente restrito círculo daqueles que os conheceram. Uma dessas figuras de profetas no cotidiano é Carlo Carretto".

Essa é a opinião do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, publicada no jornal La Stampa, 27-02-2010.

Eis o texto.

Existem figuras na história bimilenar da Igreja que marcam uma determinada fase com o seu testemunho e depois parecem retirar-se em silêncio, confiando a sua herança espiritual ao aparentemente restrito círculo daqueles que os conheceram. Não se trata só dos santos reconhecidos e canonizados da Igreja que lhes oferece como exemplo aos fiéis, mas, mais cotidianamente, de pessoas simples e puras, capazes de fazer com que aqueles que se cruzam com eles – pessoalmente ou por meio de seus escritos – exclamem: "Eis um homem, uma mulher de Deus!", quase destacando o seu único pertencimento, ao Senhor, justamente.

Na realidade, exatamente por esse enraizamento na boa notícia de Jesus de Nazaré, a linfa que havia alimentado a sua vida não se secou nem se dispersou, mas, pelo contrário, continuou correndo em profundidade, como um rio cársico, para depois reflorescer aqui e ali, fresca e vigorosa, onde talvez menos se esperaria.

Uma dessas figuras de profetas no cotidiano é Carlo Carretto, do qual se celebra neste ano o centenário de nascimento e ao qual o jornalista Gianni Di Santo dedicou uma biografia espiritual ("Carlo Carretto. Il profeta di Spello", Ed. San Paolo, 174 páginas), enriquecida também com duas meditações inéditas tiradas dos registros de intervenções do frei Carlo.

Homem apaixonado por Cristo e pela Igreja, vivaz e empreendedor presidente central da GIAC (Juventude Italiana de Ação Católica, na sigla em italiano) no imediato pós-guerra, precursor de algumas intuições do Vaticano II, Carlo Carretto deixará a militância ativa no começo dos anos 50 para entrar nos Irmãozinhos de Charles de Foucauld.

Transmitirá a sua experiência de retiro em um lugar aparte nas suas "Lettere dal deserto" [Cartas do deserto], que logo se tornarão um clássico de uma geração de católicos, também não italianos, formados nos anos do Concílio. Mas será depois a fraternidade de Spello, animada e revitalizada por Carretto em um pequeno vilarejo da Umbria, que irá constituir um polo de atração e um lugar de oração, de reflexão e de compreensão profunda da inspiração evangélica que o Vaticano II havia inserido na Igreja e no mundo.

Essa inesquecível experiência da "Igreja que abraça o mundo" – não para assumir sua mentalidade, mas para testemunhar o abraço misericordioso do Pai –, o convicto "amor pela terra", o outro nome do mistério da encarnação de Jesus, a paixão pela Igreja, também por meio de suas misérias e pobrezas, não deixarão de habitar a mente, o coração e as palavras do frei Carlo.

Di Santo reconstrói com competência e principalmente com profunda simpatia a fase do Espírito e faz isso colocando-se em escuta atenta daqueles que conheceram Carretto, começando com Giancarlo Sibilia, companheiro de primeira hora e hoje prior dos Irmãozinhos de Jesus Caritas de Sassovivo.

Nascem assim páginas genuínas, suspensas entre a reconstrução histórica e biográfica e a transmissão de uma intuição evangélica com o seu abrir caminho na Igreja e na sociedade contemporânea. Se pelo menos um par de gerações puderam dirigir-se diretamente por meio do frei Carlo às próprias fontes da Palavra de Deus, não faltam ainda hoje homens e mulheres que alcançam o frescor de uma palavra que volta à superfície depois de ter se nutrido do húmus fecundo deixado atrás de si por esse filho da Igreja, por ele amada até o último de seus dias.

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