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Natal: uma mitologia?

A revista Riforma, n° 49, 19-12-2008, publicação semanal dos evangélicos batistas, metodistas e valdenses italianos, publicou em sua última edição uma carta de um de seus leitores questionando a credibilidade do Natal, que mais parece, segundo sua opinião, uma lenda, um "mito de fundação". Questionado pelo leitor, Paolo Ricca, colaborador da revista, mais adiante, responde à carta. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis os textos.

O aproximar-se da festividade do nascimento de Jesus me oferece argumentos para algumas observações sobre esse tema, no qual entrevejo, a meu ver, importantes percentuais de mitologia. A lenda do Natal, de fato, é relatada por dois evangelistas – Mateus e Lucas – mas de modos tão divergentes que se excluem uma à outra.

Segundo Mateus, o nascimento de Jesus ocorre durante o último ano do reinado de Herodes o Grande, do qual deriva a matança dos inocentes (que seria capaz de fazê-lo), a fuga para o Egito etc. Sempre segundo Mateus, a anunciação foi dada em sonho, a José, último descendente da estirpe real de Davi. Segundo Lucas, pelo contrário, o nascimento ocorre quando a Judéia já era domínio romano (pelo menos 10 anos depois) e, por isso, sujeita ao censo exigido pelo imperador Otaviano Augusto. Além disso, segundo Lucas, José descenderia de uma estirpe sacerdotal na qual aparecem nomes totalmente diferentes.

Uma cronologia exclui a outra. Mas não basta, porque em ambas estão presentes elementos míticos: anunciação angélica a Maria (não a José e não em sonho), parto virginal, coros angélicos, nascimento em uma estrebaria vazia (Lucas), adoração dos Magos guiados por uma estrela (Mateus) que pára sobre a casa (não estrebaria) da natividade. Todas as coisas nos fazem pensar em “mitos de fundação”, como a lenda de Rômulo e Remo para a fundação de Roma. De fato, as divergências ditas acima diminuem a credibilidade história dos contos da natividade e fazem pensar em uma lenda.

O fato, por si só, não teria muita importância (os evangelistas Marcos e João nem ao menos falam disso), pois o que conta é o conteúdo do ensinamento de Jesus, não as circunstâncias do seu nascimento. Fiquemos atentos, porém, a não levar a sério tudo o que os evangelhos dizem, nos quais, como disse, está presente também uma porcentagem de mitologia (contraditória, além disso).

Gostaria de saber se o professor Ricca compartilha ou não as minhas observações.

Sergio Bilato - Verona

* * * * *

Compartilho, certamente, as observações do nosso leitor sobre as divergências notáveis (ele nem elenca todas!) entre as duas tradições evangélicas sobre o nascimento de Jesus, contidas respectivamente nos capítulos 1 e 2 de Mateus e nos capítulos 1 e 2 de Lucas. A estes últimos, deve-se acrescentar a genealogia de Jesus colocada por Lucas logo depois do relato do batismo (3, 23-38), enquanto em Mateus ele se encontra justamente no início da sua narração (1, 1-15): as duas genealogias são também elas muito diferentes. Concordo também, pelo menos em parte, com as dúvidas do nosso leitor sobre a credibilidade história desses “evangelhos – ou relatos – da infância” (como são chamados pelos estudiosos), porém não no sentido de uma dúvida radical sobre tudo o que ali se encontra, mas no sentido de que neles “o interesse teológico domina sobre o histórico”, como escrevia Giovanni Miegge já em 1951.

Isso significa que esses capítulos não miram tanto fornecer dados históricos exatos sobre as circunstâncias e o lugar do nascimento de Jesus, mas sim a afirmar duas verdades constitutivas da fé dos primeiros cristãos: a primeira é a ascendência davídica de Jesus, portanto, a sua messianidade expressada no vocativo “Filho de Davi”, com o qual ele é saudado muitas vezes pela multidão; a segunda é a divindade originária da sua pessoa desde o nascimento, portanto, a sua qualidade de “Filho de Deus” (assim como de Maria), adquirida não depois do batismo ou depois da ressurreição, mas possuída já na concepção.

O leitor do evangelho deve, portanto, procurar naqueles capítulos o seu significado teológico mais do que a exatidão histórica dos fatos narrados. Compartilho, enfim, a observação do nosso leitor segundo quem os “relatos da infância” contêm alguns elementos legendários (ele os chama “míticos”), contanto que, nesse caso, por “lenda”, não se entenda simplesmente “coisa inventada, não verdadeira, puro produto da imaginação”, mas se entenda a elaboração poética de um fato histórico – o nascimento de Jesus –, elaboração que não necessariamente deforma o dado histórico, mas pode destacar seus aspectos escondidos. Não compartilho, porém, o juízo geral do nosso leitor sobre os “relatos da infância”, nos quais ele reconhece “importantes percentuais de mitologia” – se, como imagino, ele entende com esse termo um produto puramente da fantasia religiosa dos primeiros cristãos, privado de qualquer consistência histórica, um “mito de fundação” como o de Rômulo e Remo. Não, não acredito que os “relatos da infância” sejam um mito de fundação. Por que não? Porque eles contêm pelo menos três dados fundamentais seguramente históricos, e nada míticos ou legendários.

1) O primeiro é o fato de que Jesus nasceu, isto é, “Jesus” não é um nome simbólico criado pela primeiríssima comunidade cristã para expressar uma esperança ou um projeto seus, mas é o nome de uma pessoa em carne e osso, que viveu e morreu na Palestina nos 30 primeiros anos da nossa era. Mas onde nasceu Jesus? Aqui, as tradições evangélicas são distintas. Os “relatos da infância” o fazem nascer em Belém, e essa tradição não é totalmente isenta de plausibilidade histórica. Mas é mais verossímil que Jesus tenha nascido em Nazaré, indicada por Marcos como a sua “pátria” (6, 1), isto é, presumivelmente, o seu lugar de origem: prova disso é o adjetivo “Nazareno”, com o qual ele é habitualmente chamado.

2) O segundo dado seguramente histórico, e nem um pouco mítico ou legendário, contido nos “relatos da infância” é a identidade dos pais de Jesus: José e Maria. Sobre isso, não há dúvidas, aqui não há lugar para nenhuma invenção. Pelo contrário, não está clara, nos textos evangélicos, a natureza da paternidade de José com relação a Jesus. Segundo as duas genealogias (sobre isso, estão de acordo), se chega a Jesus por meio de José, que, portanto, é o seu “pai”. Mas em que sentido? No sentido físico? Parece que não, já que Maria é constantemente designada como “virgem” ou como “jovem desposada”: o termo grego tem os dois significados, que, porém, no quadro da sociedade hebraica de então, indicam a mesma realidade e implicam ambas na ausência de uma relação sexual antes do nascimento de Jesus. José é, por isso, “pai” de Jesus no sentido de uma paternidade legal, adotiva, não no sentido de uma paternidade física.

3) O terceiro dado seguramente histórico, e por nada mítico ou legendário, contido nos “relatos da infância” é a “hebraicidade” de Jesus. Esses relatos, também com todas as suas grandes diferenças (também têm, porém, alguns importantes pontos em comum) provêm do mesmo ambiente judaico-cristão e por isso são cheios de reminiscências bíblicas. Mateus interpreta várias passagens do Antigo Testamento como profecias dos fatos que precederam e acompanharam o nascimento de Jesus (1, 23; 2, 6.15.17); em Lucas 1 e 2, pelo contrário, o Antigo Testamento está presente em quase todas as linhas dos cânticos de Maria, de Zacarias e de Simeão. Os dois relatos são, portanto, fortemente impregnados de espiritualidade hebraica e descrevem bem o ambiente religioso e social no qual Jesus nasceu e cresceu. A sua pátria, a Galiléia, era mal-vista pelas autoridades romanas porque era terra politicamente irrequieta, e pelas autoridades religiosas de Jerusalém, porque era semipagã. Porém, a família de Jesus, como o resto da população judaica da região, participava das festas e liturgias do Templo de Jerusalém e cultivava a piedade dos anawim, os “pobres de Israel”. A “hebraicidade” de Jesus, fortemente destacada nos “relatos da infância”, é fundamental para se entender a sua missão e a sua pessoa. Portanto, há muita história nesses relatos, mas também há muita teologia e muita poesia. A teologia eu já indiquei: anunciar que Jesus é o Filho de Davi e, como tal, é o Messias (Mateus), e que foi “concebido pelo Espírito Santo” e, como tal, é Filho de Deus (Lucas). No fundo, os dois relatos da infância não dizem outra coisa do que será dito em toda a narração evangélica e que Paulo (Romanos 1, 3: Jesus, Filho de Davi) e João (Jesus, Filho de Deus) irão dizer. Mas dizem-no no começo, quase como prelúdio e ouverture do evangelho, contando o fato histórico do nascimento de Jesus em formas poéticas e com finalidades teológicas. Portanto, não falaria de “mitologia”, mas de teologia e poesia entrelaçadas em um núcleo histórico fundamental.

Justamente, o nosso leitor observa que os evangelistas Marcos e João não falam do nascimento de Jesus. Para Marcos, o evangelho começa não com o nascimento, mas com o batismo de Jesus no Jordão (1, 9-11). João se limita a declarar que “a Palavra se fez carne”, sem especificar nem como nem onde. Na sua narração, Maria aparece pela primeira vez nas bodas de Caná, no capítulo 2: o fato de ter dado a luz a Jesus é totalmente ignorado. Por que esse duplo silêncio? A razão principal parece ser esta: mesmo que fundamental, o nascimento de Jesus não é, por si só, um ato salvífico. São a sua morte e a sua ressurreição que salvam, não o seu nascimento. O apóstolo Paulo também não dá nenhum relevo e não atribui nenhum significado particular ao nascimento de Jesus, que ele menciona uma só vez, en passant, na carta aos Gálatas, onde fala de Jesus “nascido de uma mulher” (4, 4). A importância que a festa do Natal adquiriu no culto e na piedade cristã e que continua a manter também no nosso tempo tão largamente secularizado é desproporcional ao lugar que o nascimento de Jesus ocupa no Novo Testamento.

De resto, como se percebe, os primeiros cristãos não festejavam o Natal, também porque nem Mateus nem Lucas se permitem estabelecer a data de nascimento de Jesus. A indicação de Lucas segundo a qual, na noite em que Jesus nasceu, uns pastores “estavam nos arredores e vigiavam e guardavam seu rebanho nos campos durante as vigílias da noite”, supondo-se que seja confiável, leva a pensar em um período que vai de março-abril até novembro. Não há outras indicações. Isso também demonstra o escasso interesse dos primeiros cristãos pelo nascimento de Jesus. Para eles, o único “dia do Senhor” era o domingo, isto é, o dia da ressurreição, não o do nascimento.

Mas, então, como nasceu (tardiamente) o Natal? E por que foi fixado no dia 25 de dezembro? A essas perguntas, responde um livrinho do professor Oscar Cullmann [1], que apareceu no longínquo 1947, intitulado “Il Natale nella chiesa antica” [O Natal na igreja antiga] e publicado em versão italiana editada pelo pastor Franco Sommani já em 1948. Eis aqui os dados essenciais:

a) o primeiro rastro de uma celebração de Natal da qual se tenha notícia encontra-se no âmbito de uma escola cristão gnóstica (portanto, não-ortodoxa), a de Basílides [2], surgida entre os anos 120 aos 140 d.C.. No dia 06 de janeiro de cada ano, Basílides e os seus seguidores festejavam não o nascimento de Jesus, mas sim o seu batismo, no qual tinha lugar a sua “manifestação” ou “aparição” como “Filho de Deus”, sendo assim chamado e, portanto, constituído, pela voz celeste. “Aparição”, em grego, se diz epifanéia, de onde provém o termo epifania, que cai exatamente no dia 06 de janeiro. Mas por que 06 de janeiro? Porque naquele dia ocorria uma festa pagã do deus Éon, filho da virgem Kore, unida também aos poderes especiais atribuídas às águas do Nilo. Basílides que substituir a festa pagã com uma festa cristã: o verdadeiro Filho de Deus, Cristo, manifestado como tal no batismo, nu lugar do deus Éon, e as águas do Jordão no lugar das águas do Nilo.

b) A Igreja do Oriente, mesmo condenando Basílides pelas suas doutrinas gnósticas, adotou a sua festa, mas combinando à memória do batismo de Jesus também a do seu nascimento: esta última era celebrada na noite entre os dias 05 e 06 de janeiro, enquanto no dia 06 se celebrava o batismo. Possuímos uma liturgia do Natal (nascimento e batismo) do início do século IV.

c) Do Oriente, a festa do Natal foi transferida no Ocidente, e aqui a festa do nascimento foi fixada no dia 25 de dezembro, dissociando-a da festa do batismo, que continuou a ser celebrada no dia 06 de janeiro. Por que o dia 25 de dezembro? Pela mesma razão pela qual Basílides havia escolhido o dia 06 de janeiro para celebrar o batismo de Jesus, isto é, para substituir uma festa pagã. Aqui, a festa era a do deus Sol, cara – parece – entre outros ao imperador Constantino, que a cristianizou substituindo o deus Sol com o “verdadeiro sol”, Cristo. A festa do deus Sol era celebrada no dia 25 de dezembro, e eis porque o nosso Natal cai nessa data.

Como se vê, a história da festa de Natal é muito complexa, para não dizer complicada. Pelo contrário, o relato evangélico do Natal é límpido, linear (nas duas versões diferentes de Mateus e de Lucas) e extraordinariamente bonito, de uma beleza não só poética, mas também espiritual. Por isso o Natal se tornou a festa cristã mais amada e mais universalmente celebrada de todas. É também, infelizmente, a mais mundanizada. Porém, esse não é um motivo suficiente para não celebrá-la. É, acima de tudo, um motivo para celebrá-la bem, isto é, com simplicidade de ânimo e consciência de fé, conservando a capacidade de nos admirarmos diante da grandeza de Deus que se tornou, por nosso amor, tão pequeno (os seus caminhos não são os nossos caminhos) – e procurando festejar não nós mesmos (os nossos afetos, a alegria de se rever, de se abraçar e de passar bons momentos juntos), mas Jesus, que veio nos procurar, para ser ele o caminho da nossa vida.

Notas:

1. Oscar Cullmann (1902-1998) foi um teólogo cristão de tradição luterana. Nasceu em Estrasburgo, na França, na fronteira com a Alemanha, em 25 de fevereiro de 1902. Obteve o grau de bacharel em teologia em 1924. Em 1938, por causa da sua fama como erudito do Novo Testamento e história da Igreja primitiva, foi convidado para lecionar na Basiléia. Até 1972, desenvolveu muitos estudos e também fundou na Basiléia um centro de teologia ecumênica, onde promoveu encontros com teólogos católicos romanos e ortodoxos. Lá, foi colega do teólogo Karl Barth. Essa tendência ecumênica o fez um observador oficial do Concílio Vaticano II (1962-1965). Morreu em 1998, aos 96 anos, na cidade de Chamonix, França.

2. Basílides (nascido em Alexandria, no Egito, 120-130 d.C.) foi um teólogo e pregador grego antigo no Egito, considerado herege pela igreja cristão no seu tempo. Teve um filho, Isidoro, continuador da obra do pai. Basílides inventou profetas que falavam em seu nome como Barcabbas e Barcof, e ele mesmo se declarou discípulo de Glaucias, este por sua vez de Simão Pedro. Dizia que recebia mensagens de Matias, o apóstolo.

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