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Chico Mendes. "Legado é maior do que já foi feito"

A senadora Marina Silva foi uma das principais companheiras de Chico Mendes na luta para impedir a destruição da floresta. Também acreana e filha de seringueiros, ela estava ao lado de Chico, tentando impedir a ação das motosserras.

Quinze anos após a morte do amigo, assumia o Ministério do Meio Ambiente, no início do governo Lula, com o objetivo de dar continuidade à luta, dessa vez pelos meios oficiais. Hoje de volta ao Senado, avalia que o legado de Chico é ainda maior do que os avanços alcançados após sua morte, e considera que ainda há muito a ser feito.

A entrevista é de Giovana Girardi e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 21-12-2008.

Eis a entrevista.

Passados 20 anos da morte de Chico Mendes, o que mudou na vida dos povos da floresta?

Quando a luta do Chico começou, essas populações estavam inteiramente abandonadas, dando um jeito de sobreviver depois de mais de um século de exploração em um regime de semi-escravidão. No final da década de 70, foram surpreendidos com a venda dos seringais pelos antigos supostos donos dessas terras para fazendeiros do Sul e Sudeste. Ali começou um processo de expulsão em massa, sobretudo no caso do Acre e de Rondônia, para as periferias das cidades. O momento em que o Chico começou a luta era de muito desamparo. O que se queria era a não derrubada da floresta e que as pessoas pudessem continuar em suas colocações nos seringais. Ali se cunhou o conceito de reserva extrativista. A primeira foi criada após a morte do Chico, e hoje já são mais de 11 milhões de hectares de reserva que beneficiam mais de 53 mil famílias no Brasil. São conquistas importantes que podem ser celebradas. Mas quanto ao sonho de ver o desenvolvimento da região com a proteção dos índios e das comunidades, ainda não conseguimos. Tivemos um processo de conquistas, mas elas não são plenas. Até porque a grande mudança que se queria era do modelo de desenvolvimento.

Qual seria a principal mudança?

A idéia que se tinha da Amazônia como um lugar atrasado, uma floresta a ser domada, foi mudando significativamente na mentalidade e na atitude da maioria dos brasileiros. Claro que ainda é um começo, mas é significativo. Até porque o outro modelo tem 300 anos de tecnologia, de incentivos, de governos apoiando. O modelo do desenvolvimento sustentável é muito recente. Até bem pouco tempo tínhamos no Acre o esquadrão da morte. A história se faz de processos cumulativos, mas claro que temos um sentido de urgência e que os passos precisam ser acelerados no rumo do desenvolvimento sustentável.

Apesar de terem sido criadas dezenas de reservas, essas populações ainda não têm conseguido viver só do extrativismo. Muitas reservas ainda não têm nem sequer plano de manejo e de ação. Isso não ofusca um pouco o avanço obtido?

Acho que são processos em curso, da mesma forma que ainda as pessoas nas periferias do País não vivem nas condições de dignidade que a gente gostaria que elas vivessem. Mas, no meu entendimento, esse trabalho não ficou só na demarcação da reserva, temos processos em curso. Por exemplo, a criação do Instituto Chico Mendes, criado para cuidar de todas as unidades de conservação do Brasil. Antes isso era responsabilidade só de uma diretoria do Ibama, com grandes dificuldades.

O problema é que enquanto isso não avança, algumas pessoas estão desistindo do extrativismo como modelo econômico, como o caso da Resex Chico Mendes, que teve aumento do cultivo de gado.

Concordo que deveria ser mais rápido, mas é um esforço que começou do zero. Essa mudança de algumas pessoas, que não são todas, que resolveram transformar parte da terra em pasto para adotar o gado de fazendeiros que ficam fazendo pressão ao lado da reserva, é um desvio.

A senhora acha que esse caso da Chico Mendes é uma exceção?

Estou dizendo é que a criação de uma reserva não é coisa de pequena monta. São ações que estão alterando um processo histórico de apropriação indevida, de grilagem. Primeiro se assegurou a terra das comunidades tradicionais. O próximo passo é implementação. As comunidades têm razão de querer urgência nisso, mas tem um caráter difícil mesmo. E não digo isso em uma perspectiva defensiva, mas é porque a luta do Chico Mendes tem conquistas. Se imaginar que foram inibidas 37 mil propriedades de grilagem no Amazonas... Barrar um processo como esse é fazer um empate institucional que as comunidades nunca teriam condições de fazer sozinhas. A luta do Chico teve essa vitória de transformar a agenda desses povos em uma agenda de Estado. E tornar a sociedade brasileira sensível à Amazônia e às comunidades.

E quando ele morreu o Brasil ainda levou uns dias para absorver a comoção que tinha sido no exterior.

Exatamente. Alguns dias antes de ele ser assassinado eu fui a Xapuri e nos encontramos. Quando estava indo embora, ele falou: “É, nêga véia, dessa vez vão me pegar.” Eu disse para irmos a Rio Branco, denunciar à imprensa. Ele disse: “Não adianta, toda vez que eu faço isso me dizem que estou me fazendo de vítima, que quero me promover, quero virar mártir.” Vi que estava desamparado, desolado. Saindo da impotência (vivo) para alguma potência (morto).

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