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Gilberto Gil: Um ministro inspirado pela ética "hacker"

Um Gilberto Gil pouco conhecido no Brasil é o que revela a reportagem do El País dessa semana, 28-02-2007. No texto de Carlos Galilea, o ministro da Cultura manifesta o seu apoio ao software livre (copiar, modificar e distribuir sem restrições). Revela ainda que a música para ele nunca foi uma ferramenta de trabalho, mas uma `espiritualidade` de vida. A tradução é do Cepat.

Ele fez 54 anos no dia 26 de junho passado. Celebrou cantando When I`m sixty-four dos Beatles no teatro Barbican de Londres. "Envelhecer é bom e com saúde é uma benção", disse. "A arte de viver é como a arte de compor. É estar preparado para a morte".

O presidente Lula da Silva foi eleito nas urnas para um segundo mandato e Gilberto Passos Gil Moreira continua como ministro da Cultura. Nos primeiros quatros anos conseguiu realizar vários shows durante os seus períodos de férias, embora tenha escrito apenas uma canção: Balé de Berlim, para a seleção de futebol no Mundial da Alemanha. Diz que a sua missão na música está cumprida e o que os seus dias como compositor praticamente terminaram. "Qualquer coisa que venha a fazer agora será complementar ao trabalho já feito. Não tenho novas ambições. A música para mim é algo visceral. Cresceu comigo desde a infância e vai morrer comigo. Não a vejo como uma ferramenta de trabalho, mas sim como um meio de expressão. As pessoas associam o trabalho do cantor a essa capacidade renovada de inventar novas músicas, mas eu gosto de cantar as velhas músicas, de recriá-las".

Ao aceitar o cargo de ministro, Gilberto Gil condicionou a sua presença a que a Cultura recebesse um tratamento de acordo com a sua relevância (no Brasil é responsável por 5% do PIB) e recebesse 0,5% dos recursos do orçamento. "Já estamos em torno de 0,6%. Agora precisamos chegar a 1%", comenta.

"Queremos aprofundar esse papel de estimular a discussão e a crítica cultural". Quando fala de suas tarefas ministeriais, o discurso é politicamente correto, mas quando se refere a assuntos mais criativos, a sua voz se anima. As suas palavras no Internet Global Congress do ano passado em Barcelona repercutiram fortemente. "Trabalho inspirado pela ética hacker". "Uma ética de doação permanente da capacidade e do trabalho para o diálogo enriquecedor com todas as outras formas de linguagem. Uma ética de criação coletiva, de solidariedade". Renasce a rebeldia de quem desafiou o sistema com o movimento tropicalista e tem que lidar de novo com os conservadores. "Os hackers são uma extensão contemporânea da contracultura dos anos 40. Não são delinqüentes como às vezes aparecem na imprensa".

O que lhe preocupa é o difícil equilíbrio entre uma defesa razoável do direito do autor sobre a sua obra e o acesso livre a essa mesma obra. "Um desafio que temos desde que se inventou o direito do autor na Inglaterra e depois nos Estados Unidos. Thomas Jefferson dizia claramente que o desafio da gestão do direito autoral é garantir a remuneração dos autores e ao mesmo tempo o acesso ao público. Nos últimos tempos houve uma tendência de privilegiar a remuneração dos autores, convertendo o direito do autor em quase um produto. Além disso, os direitos autorais foram gradualmente transferidos dos autores a seus representantes corporativos".

O próprio Gil teve que lutar durante sete anos nos tribunais para recuperar a gestão dos direitos de todas as suas canções. Lembra que quando Edison registrou as patentes do invento do cinema na costa Oeste dos Estados Unidos, os "criadores" que queriam escapar do monopólio tiveram que emigrar para a Califórnia e que foram àqueles piratas, os fundadores de Hollywood. Apóia decididamente o software livre (copiar, modificar e distribuir sem restrições). "Os pontos de Cultura (300 oficinas da Internet e novas tecnologias em comunidades desfavorecidas e lugares remotos do Brasil) utilizam o software livre como instrumento".

Gilberto Gil acredita que a música "hoje um dos grandes mercados mundiais", continuará sendo a linguagem da espiritualidade. Lembra de Bob Marley e John Lennon. "Os unia o desejo irrenunciável de uma sociedade humana mais harmônica, Esse desejo de liberdade, igualdade e fraternidade, dos princípios da Revolução Francesa, de Jean-Jacques Rosseau e os grandes enciclopedistas são os grandes baluartes das versões contemporâneas, modernas e pós-modernas dessa doutrina".

Glocalização

A essa globalização que impõe padrões de consumo, Gil opõe a glocalização. "Há uma tendência que procede da própria racionalidade do capitalismo de criar zonas de exploração hegemônica em todo o mundo e com uma cultura mais uniforme que facilite a expansão fordista do capital, a produção em série, que é a base da produção industrial. Tudo isso são ameaças à biodiversidade, a sócio-diversidade. Daí que a convenção da diversidade cultural adotada pela Unesco é tão importante", assegura. "A tendência à diminuição ou o desaparecimento do Estado como soberania hegemônica parece-me positiva porque vai na linha de uma extensão horizontal da democracia, mas sua substituição pela hegemonia neoliberal me parece negativa".

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