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A encarnação da Igreja na vida do povo da Amazônia: o testemunho de Dom Erwin Kräutler

Encerrando a programação do evento Amazônia em Debate, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU e parceiros, Dom Erwin Kräutler falou sobre a "Presença Eclesial na Amazônia: desafios e perspectivas". O encontro ocorreu na tarde desta sexta-feira na Unisinos, em São Leopoldo.

Bispo da Prelazia do Xingu, no Pará, desde 1965, Dom Erwin comentou a situação da Igreja na Amazônia a partir de uma retrospectiva histórica de uma Igreja que, segundo ele, é "totalmente diferente" dos padrões de outras regiões brasileiras, especialmente do Sul do país, mais marcada por uma ação pastoral europeia devido à imigração.

Na Amazônia, o foco da Igreja, no início de sua missão nessa região, foi de catequizar os índios, "civilizá-los", torná-los cristãos, "queiram ou não queiram", criticou o religioso. Assim, em 1750 chegaram os primeiros padres missionários ao Xingu. Ainda em 1758, foram todos expulsos pelo Marquês do Pombal, o que acabou deixando totalmente debilitada a ação pastoral da Igreja na região, que representa 59,15% do território nacional.

Para Dom Erwin, o ressurgimento da preocupação missionária na Amazônia deu-se nos últimos 60 anos, quando os bispos da região passaram a se reconhecer como representantes dos índios diante do país. Porém, foi um processo longo. Segundo o religioso, ao chegar no Xingu em 1965 até a década de 80, 95% do clero da Amazônia eram naturais de outros países. "O Brasil passou a assumir essa Igreja", afirmou.

Sinal disso foi o primeiro encontro dos bispos da Amazônia, em 12 de junho de 1952, antes ainda da fundação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB. Logo após, em 1954, ocorreu a primeira reunião dos prelados da região amazônica, ou seja, dos responsáveis pelas áreas eclesiásticas que atendem as necessidades peculiares dos fiéis em um território delimitado, semelhante a uma diocese.

Nesse encontro, surgiramm alguns pontos importantes segundo os prelados: resolver a situação jurídica e territorial das prelazias, assim como a sua "motorização", dadas as distâncias e as dificuldades de acesso a algumas comunidades. Por outro lado, reforçava-se a necessidade do apostolado entre os índios e também entre os "civilizados". Por outro, num período pré-Concílio Vaticano II, os bispos amazônicos já pediram alguns avanços litúrgicos, como o "privilégio" de celebrar missas vespertinas (até então permitidas apenas no período da manhã), para poder corresponder às necessidades dos povos locais e aos longos trajetos viajados. E também uma "abreviação" do antigo rito do batismo, por exemplo, muito demorado e repleto de símbolos e sinais que foram posteriormente abandonados.

Em 1968, com a Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano em Medellín, na Colômbia, Dom Erwin afirmou que buscou-se promover uma "latino-americanização" do Concílio Vaticano II, encerrado três anos antes. Isso teve maior efeito na nova reunião dos bispos da região da Amazônia de 1972, em Santarém, no Pará, "recolhendo a experiência e os anseios das bases". Para Dom Erwin, esse encontro ficou marcado pelas suas duas diretrizes básicas: a defesa da encarnação da Igreja na vida do povo; e a simplicidade e a convivência entre e com o povo.

"Não era mais uma questão de atender as demandas de consumo da população, mas sim de conviver, e conviver de maneira duradoura, como comunidade. E na simplicidade", afirmou o religioso. Isso também na prática, nos costumes e trajes diários do clero. Assim, defendeu Dom Erwin, passou-se de uma imagem de "padre-mestre" para "padre-irmão".

Por outro lado, o encontro ficou marcado pela proposta de descentralizar a pastoral das paróquias, envolvendo também as comunidades cristãs de base (as futuras Comunidades Eclesiais de Base, CEBs), já que cada paróquia na Amazônia é composta, em média, por 30 a 80 comunidades. Assim defendeu-se também a formação de agentes de pastoral locais.

Já em 1974, no encontro celebrado em Manaus, na Amazônia, foi incluída mais uma prioridade: a pastoral da juventude. Segundo Dom Erwin, hoje, "a nossa Igreja da Amazônia é jovem. Isso surtiu efeito".

Posteriormente, em 1990, houve um marco histórico na denúncia por parte dos bispos da destruição do meio ambiente na Amazônia "de forma violenta e irracional". Intitulada "Em defesa da vida da Amazônia", a Assembleia das Regionais Norte 1 e 2 da CNBB, ocorrida em Coaraci, na Bahia, questionou os grandes projetos de desenvolvimento para a região. "A criação de Deus geme", deploraram os bispos reunidos. No encontro, os bispos da Amazônia manifestaram, pela primeira vez na Igreja do Brasil, a sensibilidade ecológica. Isso encontraria eco no manifesto ecológico chamado o "Grito da Igreja em defesa da vida na Amazônia", produzido em um encontro realizado no mesmo ano em Assis, na Itália, que se baseou no documento dos bispos brasileiros.

Em 2007, ocorre um novo salto qualitativo com a organização temática de uma Campanha da Fraternidade em torno da Amazônia, com o tema "Amazônia e Fraternidade: Vida e missão neste chão". No documento da Campanha, destaca-se a biodiversidade da região e afirma-se: "Deus criou a Amazônia como lar para muitos povos". Assim, segundo Dom Erwin, ressaltava-se a importância dos saberes tradicionais dos povos autóctones.

Para Dom Erwin, ao longo de todos esses anos, fortaleceu-se também o projeto das Igrejas irmãs, que teve início ainda na década de 60, entre a diocese de Caxias do Sul e as prelazias da Amazônia. Esse envio, tanto de pessoal quanto de recursos financeiros, também se manifesta na relação existente hoje, por exemplo, entre a Prelazia do Xingu e a Arquidiocese de Porto Alegre, ressaltou Dom Erwin. Porém, afirmou, "ainda estamos aquém da demanda. A migração para a Amazônia foi tão forte que estamos sempre aquém".

Segundo Dom Erwin, em sua prelazia, existem hoje cerca de 840 CEBs atendidas por apenas 30 padres. Ele frisou, nesse contexto, a grande importância das mulheres nessas comunidades, das quais 2/3 são lideradas por elas. Isso, afirmou, é sem dúvida um "kairós", um sinal dos tempos, pois as mulheres realmente preocupam-se com o futuro da região.

No final de sua fala, Dom Erwin reforçou que, nesses últimos anos, "a Igreja no Brasil como um todo descobriu a Amazônia. O primeiro passo foi dado. Esperamos agora pelos segundos e terceiros", concluiu.

Testemunhos de missão

Durante o encontro, Dom Erwin contou, entre um tema e outro, algumas anedotas e testemunhos de seus anos de missão no Xingu, misturando muito bom humor com a experiência e a esperança de quem convive com realidades tão extremas.

Por exemplo, quando falava da renovação que a Igreja viveu na época conciliar, Dom Erwin relatou que, no período pré-Concílio, ele sempre usava batina e, quando se deslocava pelas comunidades, mesmo pilotando uma moto, trajava a longa veste preta. Porém, um dia lhe ofereceram uma mula para celebrar uma missa em outra localidade. Ele, no entanto, não sabia como domar o animal, nem mesmo o caminho para chegar até lá. "Não se preocupe, ela sabe", respondeu o dono da mula, referindo-se à experiência do animal. E Dom Erwin pôde comprovar que ele estava certo e chegou exatamente ao local indicado.

Em um outro episódio, contado com muita emoção pelo religioso, Dom Erwin relatou que certa vez estava passando por uma das comunidades e parou em um bar para tomar um guaraná. Alguém, então, lhe avisou que um dos moradores estava agonizando em sua casa. Prontamente, Dom Erwin dirigiu-se até lá e se deparou com uma cena inusitada: o homem estava deitado em uma rede posta no chão, e dois pastores evangélicos, trajados com terno e gravata, apesar do calor, estavam lá de pé, com suas Bíblias na mão, um aos pés e outro à cabeça do moribundo. Dom Erwin, então, ajoelhou-se ao lado do homem e começou a rezar. Ao vê-lo ali, o homem lhe disse: "Agora sim, meu bispo". E se preparou para morrer, recebendo a benção do "seu bispo". Para Dom Erwin, aquele homem esperava por ele, pois era católico e também queria morrer como cristão católico.

Dom Erwin também contou que a migração de pessoas de diversas regiões do país para a Amazônia foi muito forte. De uma cidade específica do Paraná, por exemplo, a população caiu de 600 mil para 200 mil habitantes depois de um grande êxodo para o Norte do país. Entretanto, comentou, os padres não acompanharam esse deslocamento, e essa cidade permaneceu com o mesmo número de padres, mesmo com a grande redução populacional. Uma senhora, certa vez, que havia se mudado para o Xingu, foi ao seu encontro, com o dedo em riste, para cobrar-lhe mais sacerdotes. "Eu vim do Paraná – disse a senhora – e participava da missa diariamente. E aqui temos missa três vezes ao ano. Por isso, se o senhor é bispo, deve fazer alguma coisa para que tenhamos mais padres aqui". Dom Erwin calmamente lhe respondeu: "E por que a senhora não trouxe um padre junto?". Ela, porém, não teve uma resposta.

Ao falar sobre a Irmã Dorothy Stang, Dom Erwin também relatou, de certa forma, uma "conversão" pela qual passou. A irmã Dorothy, ao se apresentar pela primeira vez a Dom Erwin, disse-lhe que queria servir "os mais pobres dos pobres" da região. Ele, porém, lhe disse: "A senhora é muito romântica. Não vai aguentar". Mas aceitou-a. No entanto, ele reconheceu que ela foi assassinada justamente por ter se colocado ao lado dos pobres paupérrimos. E ele foi um dos primeiros a saber que a irmã estava sendo ameaçada de morte, pois recebeu uma "comitiva" de fazendeiros da região que lhe sugeriram que "tirasse a irmã de circulação". Ela, porém, não se sentiu ameaçada e quis permanecer em sua missão.

Dom Erwin afirmou que existe um "consórcio do crime" formado por grandes fazendeiros do eixo Altamira-Anapu, para o qual, "se você defende o meio ambiente, é contra o progresso e o desenvolvimento. E se você defende o índio, é um obstáculo e precisa ser removido". Dom Erwin também lamentou que alguns dos envolvidos no crime cresceram com a ajuda da Igreja, como os atuais prefeito e vice-prefeito de Anapu, que hoje se posicionam contra e atacam abertamente as co-irmãs de Dorothy que continuam na região.

(Reportagem de Moisés Sbardelotto)

 

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