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Pelos caminhos do gauchismo. Uma entrevista especial com Maria Eunice Maciel

Hoje, quinta-feira, 14-9-2006, o tema do evento IHU Idéias, promovido pelo IHU é Pelos caminhos do gauchismo. A palestrante é a antropóloga Profª. Drª. Maria Eunice Maciel, docente na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O evento acontece das 17h30min às 19h, na sala 1G119 do IHU.

Na próxima semana, dia 20, feriado no Rio Grande do Sul, celebra-se o Dia Farroupilha.

Por e-mail, a pesquisadora aceitou responder às questões propostas pela IHU On-Line. O resultado você confere na entrevista que segue. Nela, Maciel afirma que há uma diferença entre Gauchismo, Tradicionalismo e Cultura Gaúcha.

A antropóloga proferiu no IHU Idéias de 23-3-2006, uma conferência intitulada A cozinha e seus mitos. Sobre o assunto, concedeu uma entrevista à edição 172 da IHU On-Line, de 20-3-2006. Em 20-10-05, apresentou o IHU Idéias intitulado A cozinha temática: da tradicional à fusion, assunto que inspirou uma entrevista concedida com exclusividade ao sítio do IHU, www.unisinos.br/ihu , nas Notícias Diárias, nessa mesma data.

IHU On-Line - Num mundo cada vez mais globalizado, quais são os caminhos do gauchismo? A cultura gaúcha tende a se esmaecer ou, pelo contrário, se fortalecer como reação ao cosmopolitismo?

Maria Eunice Maciel - Em primeiro lugar, gostaria de dizer que a idéia de um mundo globalizado como se este fosse homogeneizado, onde as diferenças (entre elas, as culturais) não existiriam, é muito questionável. O que vemos ocorrer é que a diversidade cultural persiste, mas adquire outras formas, inclusive dentro de um contexto de defesa contra a globalização. O gauchismo, entendido como um movimento genérico, ou seja, "tudo o que tem a ver com o gaúcho", lida com manifestações de identidade cultural e está cada vez mais forte. Mas vamos deixar claro que há uma diferença entre Gauchismo, Tradicionalismo e Cultura Gaúcha. Um dos problemas é misturarmos as coisas e tomarmos um pelo outro. Recomendo sempre um livro que considero fundamental para entender esta situação: Nativismo, um fenômeno social gaúcho. Porto Alegre: L&PM, 1985, de Barbosa Lessa.

IHU On-Line - Em nossos dias, o que é ser gaúcho? Quais são as principais tradições que se mantém em nosso estado?

Maria Eunice Maciel - Quando falamos em Gaúcho, podemos estar nos referindo ao homem ligado ao pastoreio ou aos nascidos no Rio Grande do Sul. Mas também pode ser uma figura emblemática, relacionada ao imaginário social da região. Ou seja, uma figura na qual são projetados valores e representações sociais. O Gauchismo trata é com esta figura. Não é fato que ouvimos "o gaúcho é assim...."? De que gaúcho estão falando? Há um processo de criação de figuras e/ou tipos sociais que representam algo e neste processo está a figura do gaúcho. Assim, fazem parte de um processo de construção de uma dada identidade cultural, mas também de um processo de vivência das pessoas desta região que se vêem nela representados.

Assim, falar em tradições significa perguntar: De qual gaúcho? De quem estamos falando? E ainda mais: o que entendemos como tradição? Sim, por que podemos pensar que Tradição seja algo recebido passivamente do passado. Mas ela também pode ser pensada pelo contrário, como algo do presente que busca respostas no passado.

IHU On-Line - Quais seriam as principais características da culinária gaúcha? Existe um jeito gaúcho de cozinhar?

Maria Eunice Maciel - Volto a perguntar: de quem estamos falando? Da comida dos gaúchos do pampa? Dos hábitos alimentares dos habitantes do Rio Grande do Sul? Ou daquilo que foi arbitrado como "cozinha gaúcha" representando, ao nível da culinária, a identidade regional? É por isso que a resposta não é simples. Seria fácil falar sobre churrasco e carreteiro (e mais algumas coisinhas). Serve para o senso comum, mas não vai mais além. O churrasco, por exemplo, é interessante do ponto de vista antropológico enquanto uma manifestação eloqüente da sociedade aqui constituída. Como um ritual, com papéis bem definidos (por exemplo, o que quer dizer o fato do assador ser sempre um homem?). Ou o fato de hoje termos apartamentos com churrasqueiras nas varandas, coisa que em outros lugares não é conhecida. Ou então, sobre os odores de carne assando que se espraiam pelas ruas de todas as cidades do Rio Grande do Sul no domingo ao meio dia.

Desta forma, a maneira com que trabalhamos a cozinha gaúcha é diferente. Elaborar listagens pode ser de grande ajuda, mas não nos atemos a isso. Queremos é buscar o significado destas manifestações e práticas culturais para as pessoas envolvidas.

IHU On-Line - Em relação ao Brasil, qual é a peculiaridade da cultura gaúcha?

Maria Eunice Maciel - Também seria de fácil resposta apelar para o senso comum e colocar alguns itens gerais. Mas podemos iniciar pela pergunta: o que estamos entendendo por Cultura? Será que podemos reduzir o viver em uma listagem de itens com determinadas características em comum (ou que se julgam em comum)? Este processo, o de construção de uma identidade regional, é complexo, implica no reconhecer e no reconhecido. Em construir a partir de diferenças, assim como construir diferenças. Pensando, também, nas relações com o Brasil e no Gauchismo (mais especificamente, em Tradicionalismo,) este ano a Chama Crioula foi novamente acendida com uma centelha da Chama da Pátria, tal como o foi quando da primeira, lá em setembro de 1947, quando alguns jovens realizaram a primeira Ronda Crioula, que veio a tornar-se a Semana Farroupilha. Mas durante muito tempo, não foi assim. Havia uma separação nítida e muito aproveitada em situações de jogo político. Mas o fato de as duas comemorações darem-se no mesmo mês faz com que se possa ver as diferenças entre uma e outra. A Semana da Pátria como a da "Ordem" (e aí me valho das idéias de Roberto da Matta) e a Farroupilha, diferente.

Alguns países saúdam suas datas nacionais com festas e bailes. O 4 de julho nos EUA e o 14 de julho na França são bons exemplos disso. O Brasil, não. Aqui, o importante é o desfile militar, sério, regrado assim como outros desfiles em linha semelhante. Mesmo os símbolos nacionais e seu uso são objeto de lei. Com os anos de ditadura militar esta situação ficou mais forte e nem a redemocratização conseguiu mudar muito este aspecto. Mas nem sempre foi assim, pois há mesmo notícias de Bailes da Independência no passado. Mas em um passado mais remoto. A Semana Farroupilha, em especial com o acampamento farroupilha, é justamente o contrário. Embora tenha também desfile militar (neste caso, da Brigada, a Força Pública local) e Tradicionalista, no 20 de setembro, o ar de seriedade é quebrado. As festas em todo o Rio Grande e no acampamento da capital marcam o clima festivo.

Isso não explica as relações da cultura gaúcha com o Brasil, é claro que não. E nem era este o objetivo. Mas mostra algumas formas de ver o fato através de uma perspectiva antropológica (ainda que muito limitadamente), questionando e procurando o que faz e traz a vivência das pessoas.

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