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Cappio: "A transposição é um projeto ecologicamente insustentável e eticamente corrompido"

Em 2005 o Bispo Dom Luís Cappio, passou 11 dias em jejum, em Cabrobó (PE), encerrados após o compromisso do governo em “suspender o projeto de transposição e iniciar um amplo diálogo entre governo e sociedade civil brasileira”. O franciscano afirma que o compromisso assumido pelo governo foi descumprido com a chegada do 2º Batalhão de Engenharia do Exército, instalado em Cabrobó desde o dia 4 de junho deste ano. D. Frei Luís Cappio concedeu uma entrevista Fábia Lopes da  AsaCom, 5-12-2007.

Eis a entrevista.

Que motivos levam o senhor e algumas organizações da sociedade civil a serem contra o projeto da transposição das águas do Rio São Francisco? 

Olha, os grandes motivos que nos levam a ser contrários ao projeto de transposição, em primeiro lugar porque ele é socialmente injusto. Porque, embora a propaganda oficial diga que essa água vai para atender 12 milhões de habitantes, isso não é verdade. Essa água é destinada para os grandes empresários, para os grandes empreendimentos econômicos no Nordeste, não é? A criação de camarão, a produção de frutas para exportação. Essa água vai passar muito distante das comunidades que realmente necessitam da água. E também é injusta porque quem vai ser beneficiado com essa água são os grandes, os projetos, os empreendimentos agroindustriais e que vai pagar a conta de energia elétrica é o povo, através do subsídio cruzado. É o povo que vai pagar um aumento na conta de sua energia elétrica para poder subsidiar essa água que vai beneficiar as grandes empresas. 

Em segundo lugar é um projeto economicamente inviável. E por quê? Porque o próprio governo já apresentou, através da Agência Nacional das Águas (ANA), o Atlas do Nordeste, que tem mais de 500 alternativas de recursos hídricos para as comunidades urbanas. 
 
A transposição, também é um projeto ecologicamente insustentável, porque vai usar um rio que precisa ser urgentemente revitalizado. Também é eticamente corrompido esse projeto. Porque ele vai transformar a água em objeto de compra e de venda, de produto de mercado, e a água é um produto, um dom de Deus para a vida das populações, um bem essencial para a vida e não pode se transformar em objeto de mercado, de barganha no mercado. É por isso que nós somos contra esse projeto de transposição, porque não vai atender as necessidades, que enganosamente o governo ilude a população do Nordeste.
 
 Em declaração à imprensa, o presidente Lula afirma que “entre os 12 milhões de pobres que sofrem com a escassez de água e o Dom Luís Cappio”, ele, o presidente, “fica com os pobres”. Como o senhor acha que o presidente vai se comportar nessa sua segunda tentativa de barrar o projeto da transposição? 

Olha, se essa afirmação do presidente fosse verdade, eu também ficaria com ele. Eu também assinaria embaixo, porque eu gostaria que todos os meus irmãos do Nordeste tivessem água, e água com abundância, água de qualidade. Nós estamos lutando por isso.
 
 É uma mentira muito grande quando eles dizem que nós somos egoístas, que nós não queremos dar água. Isso não é verdade. Nós estaríamos dispostos a dar com toda alegria, e queremos dar água para nossos irmãos do Nordeste, queremos sim. Agora, esse projeto de transposição não é para 12 milhões de pessoas, é para um pequeno grupo interessado no capital, nas grandes empresas, não é para o povo.
 
 O governo deveria ter a coragem de falar a verdade, de dizer a verdade sobre a transposição e não continuar iludindo o povo dizendo que essa água é para o povo, quando ela não é para o povo, não é? Se o que o presidente disse fosse verdade, eu estaria com ele e assinaria embaixo dessa palavra dele. Mas, isso não é verdadeiro. O governo deveria ter a coragem de dizer a verdade, para quem realmente a transposição interessa, e não é para o povo é para os grupos econômicos.
 
 Quando eu conversei com ele, com o presidente Lula, lá no Palácio do Planalto, eu disse a ele: “olha presidente, eu a vida inteira lutei para vê-lo sentado aí, nessa cadeira em que o senhor está. Toda a vida eu vesti a sua camisa e lutei pelo senhor. Mas, infelizmente, depois que o senhor assumiu o poder, o senhor se tornou refém dos grandes grupos econômicos do Brasil e do estrangeiro. Hoje, o senhor é refém do capital. O senhor esquece das suas origens. O senhor esqueceu do povo que o elegeu para ser o presidente dos pobres desse país”. Isso eu disse a ele. Nesse momento, ele abaixou a cabeça. Então, eu não posso admitir que um presidente que foi eleito para ser, especialmente, prioritariamente, presidente dos pobres desse país, hoje esteja governando para os ricos do Brasil e do mundo. 

Quando o senhor chegou a conclusão que deveria retomar a greve de fome? 

Eu cheguei à conclusão em reassumir porque quando, há dois anos atrás, eu encerrei o jejum lá em Cabrobó, foi porque eu acreditei no governo, quando nós assinamos juntos o nosso documento, que abria um amplo debate nacional para procurar as melhores alternativas de abastecimento hídrico para o Nordeste. Então, eu acreditei nesse contrato, nesse pacto firmado, nesse documento assinado. Foi por isso que eu deixei o jejum há dois anos atrás. Nesses anos, foram muitas as tentativas de reabrir esse diálogo, de realmente fazer com que esse diálogo acontecesse, porque a nossa preocupação é que o povo tenha água, e água de qualidade. Mas, nunca o governo se interessou de fazer aquilo que havia prometido e assinado em Cabrobó. Em vista disso, qual foi a resposta deles? Foi o início das obras usando o Exército Brasileiro.
 
 Isso comprova que é uma obra autoritária, é uma obra autocrática, que não é fruto de uma discussão em que o povo participa, porque uma obra desse tamanho, com esse porte de investimentos econômicos mereceria uma consulta popular, que o povo opinasse, que o povo também desse as sua sugestões. Uma obra desse porte, ela necessariamente tem que nascer de um consenso democrático, e ela foi autoritariamente imposta, está sendo construída através do Exército Brasileiro. Então, em vista disso, nós retomamos o jejum, porque fomos enganados, não apenas eu, mas toda a sociedade brasileira foi enganada. O governo não atendeu aquilo que assinou, aquilo que compactuou, de abrir um amplo diálogo nacional para ver as melhores alternativas de desenvolvimento sustentável para o Semi-Árido brasileiro. Foi por isso que nós retomamos o jejum.
 
Nessa luta em defesa do São Francisco o senhor tem encontrado mais aliados ou mais opositores? 

Eu estou rodeado de amigos, bispos, padres, religiosos, o povo, tá tudo aqui comigo. A gente sente, o povo é o primeiro que percebe o absurdo de tudo isso. A solidariedade tem sido imensa. O número de cartas, de e-mails que a gente recebe, de mensagens solidárias. O número incrível de rádios, de emissoras de TV, como vocês que me telefonam pra saber da verdade dos fatos. Então, a solidariedade tem sido muito, muito, muito grande e isso fortalece muito a luta. 
 
Dentro da Igreja parece não haver unanimidade em relação à transposição. 

Não existe. 
 
Na primeira greve de fome a CNBB e a Santa Sé o criticaram... 

Alguns segmentos, não a CNBB, porque a CNBB sempre esteve conosco. Alguns grupos, alguns bispos, alguns membros da Igreja que eram opositores. Mas, a CNBB nos deu o maior apoio. Agora mesmo eu recebi uma carta belíssima da CNBB manifestando todo o seu apoio e mostrando tudo isso que eu estou acabando de dizer, que o governo deveria olhar para as carências e necessidades do povo. 
 
Esse seu gesto, de decretar greve de fome, é um ato de fé ou um ato político? 

Agora mesmo eu estava conversando com o meu amigo, Dom Geraldo, bispo de Juazeiro, e a gente está embasado na fé. A gente assume esse gesto porque a gente acredita na palavra de Deus, que diz que quando o inimigo é muito forte, muito grande, somente o jejum e a oração são capazes de dominá-lo. É por isso que nós entramos no jejum e estamos em oração, porque acreditamos na palavra de Deus, a única que nos dá força e coragem para enfrentar inimigos tão fortes.
 
Para finalizar, que recado o senhor deixa para as famílias do Semi-Árido? 

Eu gostaria de dizer para todos vocês, meus irmãos nordestinos... Lançamos uma carta dirigida a todos vocês, e eu diria o seguinte: “Olha, escute bem o que o frei vai dizer. Nós não somos egoístas querendo a água do São Francisco só para nós. Se essa água da transposição fosse realmente para vocês, nós seríamos os primeiros a aprovar o projeto. O que nós somos contra é a menti, à propaganda enganosa do governo, dizendo que ‘essa água vai para tirar a sede dos que têm sede. Que quem tem sede é a favor do projeto’. Isso é uma propaganda enganosa. Não se deixe levar por essa propaganda, dizendo que essa água vai para 12 milhões de habitantes, porque isso não é verdade. Essa água vai para um pequeno grupo de empresários e quem vai pagar conta é o povo”. É essa verdade que o povo precisa saber.

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